Publicado por: Battista Soarez | junho 3, 2015

VIOLÊNCIA NO BRASIL

Questão de pena ou morte

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A chacina que ocorreu na tarde de quinta-feira, 28 de maio, em Ponta Verde, na praia de Panaquatira, município de São José de Ribamar, foi mais um fato violento capaz de fazer a sociedade refletir sobre uma série de políticas sociais de responsabilidade das autoridades brasileiras.
Conhecidos como “Piratas do Panaquatira”, os marginais, liderados por Josinaldo Aires da Costa, o “Nal”, invadiram uma residência onde estava havendo uma festa de aniversário e mataram três pessoas, entre elas o policial militar Max Muller, do 6º Batalhão. Além dos mortos, várias pessoas foram atingidas pelos disparos. Segundo testemunhas, foram aproximadamente 40 tiros, que transformaram um momento de alegria e diversão em cenário de terror.
Tantas repetições criminosas dessa natureza gritam por discussões efetivamente propositoras de políticas justas e coerentes sobre a violência social que aflige impiedosamente a sociedade brasileira. A situação do país é social e antropologicamente aterrorizante. O Brasil é detentor de uma violência generalizada que perpassa por todos os setores sociais: jurídico, político, econômico, cultural, educacional, saúde e finalmente afeta a mentalidade e o comportamento do cidadão comum.
Ocupando o 13º lugar no ranking mundial entre 170 países mais violentos do mundo, o Brasil é governado por violência. Os políticos são violentos. Juízes e demais operadores das leis são violentos. A família é violenta. A religião é violenta. As pessoas nas ruas são violentas. Convivemos, enfim, com violência a todo tempo e em todos os lugares do país. Somos feitos com violência e, portanto, respiramos violência.
As estimativas indicam que o Brasil gasta, por dia, trezentos milhões de reais com a violência. Isto é equivalente ao orçamento anual do Fundo Nacional de Segurança Pública, e um valor superior ao envolvido na reforma da Previdência que tanto mobilizou os governos brasileiros. Esses valores não contabilizam o sofrimento físico e psicológico das vítimas da violência no país, uma das mais dramáticas do mundo. Com 3% da população mundial, o Brasil concentra 9% dos homicídios cometidos no planeta.
Os homicídios cresceram 29% na década passada e, entre os jovens, esse crescimento foi de 48%. As mortes violentas de jovens aqui são 88 vezes maiores do que na França. E poucos países sofrem as ações de terrorismo urbano como as praticadas por traficantes como, por exemplo, no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Indicadores mostram a precariedade dos sistemas de contenção da violência. Cerca de 2 mil roubos ocorrem diariamente na Grande São Paulo e em menos de 3% os assaltantes são presos no momento do crime. No Maranhão, as estatísticas se perdem na efetividade de um cotidiano absurdamente criminoso, em que bandidos impiedosos são tratados com romantismo, sombra e água fresca.
Há um explosivo crescimento da população carcerária no país e isto nos faz chegar a uma conclusão: não basta prender. A pena de morte seria a medida mais lógica para criminosos que têm o prazer de matar e matam por diversão. A pergunta que nos instiga sem cessar é: por que o governo brasileiro é contra a pena de morte, se bandidos e outros tipos psicológicos violentos há tempos já declararam pena de morte contra a população de bem? Entre o cidadão de bem desarmado e a fonte do crime, quem deve morrer? De que adiante ter pena de criminosos e assassinos se eles não têm pena de ninguém?
As estratégias reativas da polícia e os métodos obsoletos de investigação não estão conseguindo conter significativamente o grande volume de crimes. No Brasil, apenas 1% dos homicídios chega a ser esclarecido pelos trabalhos de investigação, segundo revelação do Ministério Público. Se essa “eficiência” da polícia e da justiça for dobrada, a um custo impagável, o volume de crimes mal será afetado.
Esse retrato de impotência do nosso sistema de controle criminal é revelador da necessidade de uma profunda reforma no sistema de prevenção criminal. E não apenas isso. É necessário que as causas da violência também sejam adequadamente tratadas. Sem isto a crise da segurança pública no País não será alterada significativamente.
A violência, finalmente, é um fenômeno histórico na constituição da sociedade brasileira. A escravidão (primeiro com os índios e, depois, com a mão de obra africana), a colonização mercantilista, o coronelismo, as oligarquias antes e depois da independência, somados a um Estado caracterizado pelo autoritarismo burocrático, contribuíram e contribuem enormemente para o aumento da violência que atravessa a história do Brasil.
Para resolver a problemática da violência, um conjunto organizativo de fatores seria necessário, como, por exemplo, reformas na educação, no judiciário, na política e no próprio sistema carcerário. Se cada presídio se transformasse em salas aula, se a família recebesse assistência adequada numa parceria digna entre governo e igrejas, se as igrejas cumprissem o seu papel de agência lecionadora de princípios em vez de doutrinas caducas e sem coerência social, se o governo administrasse as políticas públicas corretamente e as suas instituições jogassem no lixo as burocracias absurdas que existem, a violência seria apagada do mapa do Brasil num curto espaço de tempo.

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Publicado por: Battista Soarez | janeiro 29, 2015

FIES E SUTILEZAS

FIES e sutilezas

A nova política do MEC para o FIES traduz muito bem as reais intenções do governo brasileiro no trato para com a Educação

BATTISTA SOAREZ
(Jornal Itaqui-Bacanga)

Essa história do FIES (Fundo de Financiamento Estudantil), em que o MEC estabelece novas regras para financiar a formação de estudantes do ensino superior, me parece desculpas do governo federal para não ter que investir na educação como deveria. Estão certas as faculdades particulares ao entrarem na Justiça contra essas novas regras. Ocorre que o governo quer, com essa nova política, reduzir o número de estudantes bancados pelo programa. Assim, vai sobrar mais dinheiro para os cofres da corrupção.

O questionamento das faculdades privadas sobre a nova exigência de uma pontuação mínima de 450 pontos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) — para os estudantes terem acesso ao financiamento de cursos superiores— é uma iniciativa importante para que sejam discutidas as políticas do governo da forma como ele quer fazer. Sempre que o governo federal quer se esquivar de alguma responsabilidade nas políticas sociais, ele o faz por meio de regras e burocracias. Não tem justificativa essa política do Enem. Está mais que evidente que isso é mais um pretexto na precária escassez da educação brasileira.

O Brasil é o país das justificativas evasivas, das sutilezas e argúcias. Agora, faltandopoucos dias para o início das aulas,em que os estudantesuniversitários precisam confirmar se irão continuar estudando com a ajuda do Fies, se deparam com essas mudanças no mínimo desrespeitosas para com a classe estudantil e seus familiares.

E mais: a página do Fies na internet,na qual os estudantes, de praxe, fazem semestralmente a confirmação da continuidade do financiamento, ficou fora do ar durante um certo tempo. Tempo suficiente para dificultar a vida dos acadêmicos. Alguns estudantes ficarampreocupados, com razão, de não conseguiremse matricular e terem prejuízo na sua vida acadêmica no semestre, já que o prazo para inscrição no Fies esgotou na sexta-feira, 30. Eles reclamam de que o sistema estava lento e que isso dificultou a vida de muitos que, embora tentassem, não conseguiram.

Os estudantes que queriam confirmar ou pedir o financiamento pela primeira vez tiveramque esperar ou no mínimo ficaram a mercê do poder excessivo da morosidade do governo, nodesempenho do serviço administrativo prestado à população. É a burocracia, como sempre, facilitando as coisas para os políticos e dificultando tudo para a população. Isso é capaz de adoecer as pessoas. O governo, que já não cuida direito da saúde pública, ainda pesa nas estruturas complexas de administração da coisa pública para gerar mais doença no povo.

Na semana passada, o site estava sendo reformulado. OMinistério da Educaçãodivulgou que a página na internet ia voltar a funcionar o quanto antes, mas não definiu prazo. O MEC garantiu que ninguém ficaria prejudicado, mas esse discurso não contemplou a facilitação que deveria haver na execução dessa política do governo. No fim, muita gente foi, sim, prejudica e o governo nem aí.

Neste ano de 2015, para participar do Fies, o aluno terá que se adequar a uma nota mínima no Enem. A partir de abril, o programa de financiamento exigirá que o estudante tire pelo menos 450 pontos no Enem e não deve zerar a redação. Antes, não havia nota mínima. Bastava fazer o exame. No Maranhão, apenas 3 mil vagas, aproximadamente, serão disponibilizadas diante de milhares de estudantes que precisam estudar, e não têm condições.

O Fies paga de 50% a 100% da mensalidade, dependendo da renda da família. Os pedidos ao programa de financiamento podem ser feitos em qualquer época do ano. Em 2014, o governo gastou R$ 9 bilhões com o Fies.Com a mudança na nota do Enem, as universidades privadas dizem que a quantidade de matrículas pode cair em até 20%.Diante dessa realidade, elas estão tentando, na Justiça, derrubar a medida.

Não é de agora que o governo vem restringindo o acesso do aluno nesse encontro entre estudante e instituição privada, para realizar o acesso a educação desse aluno. Autoridades intelectuais explicamque isso faz parte da nova política oficial na somatória de argumentos junto a razões imaginárias que o governo alega para dissimular o motivo real da sua ação em querer privatizar de vez o ensino público brasileiro. Parece que isto é o que pensa a Federal Nacional dos Estabelecimentos de Ensino Particulares (FENEP).

O Ministério da Educação alega que as mudanças nas regras são para melhorar a qualidade do ensino no país. Mas não explica o que é qualidade de ensino na sua filosofia. Só se sabe que, agora, os candidatos vão se esforçar mais para atingir a nota mínima para poder ter acesso ao tal programa.

Como sempre, o governo quer puxar o aluno do Ensino Médio para ser mais estudioso. O aluno vai querer entrar na universidade de qualquer jeito e, com isso, vai se esforçar, a trancos, barrancos e decepções. Na mentalidade do MEC, isso vai melhorar muito o ensino nas universidades tanto públicas quanto privadas.

Publicado por: Battista Soarez | janeiro 6, 2015

EXPECTATIVAS 2015

Que venha 2015

Battista Soarez (Jornal Itaqui-Bacanga)

Muita gente, de fato, está apostando que o próximo ano virá com fortes possibilidades de que as coisas sejam melhores do que foi nos anos anteriores. Claro! As pessoas sempre querem o melhor para si, para suas famílias e, principalmente, para o seu bolso.

2015: dúvidas, incertezas e oportunismos

2015: dúvidas, incertezas e oportunismos.

Dois mil e quinze começa no dia primeiro de janeiro. Novos rumos. Novas histórias. Novos fatos. Novas ideias, embora as pessoas continuem as mesmas. Na política e na economia. Na sorte e no amor. Na família e na comunidade. No município e no estado. No país e no mundo. Em situações diversas, 2015 promete ser o ano das mudanças. Para melhor ou para pior? Isso vai depender de como as governanças se comportarão.

As dicas de como lidar com o ano que vem levam-nos a reflexões parametradas em 2014. O ano que termina no dia 31 de dezembrodeixa-nos lembranças com variáveis que feriram nossa confiança para o resto da vida. A má comportamentalidade dos políticos, as leis que eles criam—para alimentar a política burocrática e enganar a nossa visão real da sociedade que eles sempre estão formando—, os rombos na Petrobras, o assalto aos cofres públicos por meio, inclusive, das fantasiosas emendas parlamentares etc. são apenas alguns exemplos dos fatos que, em 2014, estarreceram negativamente as expectativas da sociedade. Para enganar o povo, eles criam políticas burocráticas. A burocracia é um meio oficial de se negar os direitos ao cidadão e facilitá-los aos técnicos da corrupção.

2015 acende luzes sem visibilidade.

2015 acende luzes sem visibilidade.

Enfim, 2014 foi um ano que não deixa saudades para a maioria dos brasileiros. Nós, do Jornal Itaqui-Bacanga, estaremos de olho em tudo. Vamos continuar de pronto para noticiar os fatos tal como eles acontecem. Mostraremos a realidade nua e crua. Realidade que, não fosse a imprensa, nos colocaria em patamares de difícil contorno. Inflação e juros desenfreados, atividade econômica travada. Comércio em baixa. Setor produtivo sempre reclamando do escoamento nanico e da diminuição no movimento dos negócios. Foi um ano que, enfim, mergulhou o país num mar de incertezas e num novo cenário internacional com novos conflitos entre grandes potências mundiais.

Poucos analistas acreditam que 2015 será um ano de grandes mudanças. Com a corrupção instalada na alma do sistema político, povoada na cabeça de cada membro de partido, o desenvolvimento do país ficou estonteante. Em regra, os analistas, sem uma política de coerência estrutural, erram suas previsões devido a isso.

Logo, as previsões para 2015 não são arriscáveis. Um monte de especialistas vai estar sempre confuso diante de cada fato novo. Os videntes,mais audaciosos,vão estar burilando suas previsões, espertamente, pela lógica da obviedade: “algum famoso vai morrer”, eles dizem, “duas estrelas vão casar”, “a economia vai melhorar ou piorar”, “um avião vai cair em algum lugar do mundo” e assim por diante. Claro. Todoano sempre é assim. Os oportunistas de plantão aproveitam o subjetivismo do país para marketingarem suas imagens de “semi-deuses”.

No fim do ano, é a vez dos shows das mesmas mediocridades, dasmesmas simulações perjuras e dos sentimentos louváveis que raramente se tem. Os famosos “feliz natal!”, “feliz ano novo!” são festivos. As pessoas se abraçam, dão beijinhos no rosto, tapinhas nas costas, encenam boas conversas, falas persuasivas etc. Tudo não passa de hipocrisias humanas. Depois da data comemorativa, tudo volta à mesma mornidão. Os reais sentimentos voltam para o mesmo “banquinho” de sempre: ninguém nem aí pra ninguém, interesses egocêntricos e personalistasse contracenam, os mesmos olhares de falsidade, de descasos ao senso da cidadania, os mesmos sentimentos de violência contra o próximo, os mesmosmedianismos de todos os anos.E por aí vai indo até 2016, quando tudo se repetirá. Novamente!

No Maranhão, as expectativas se voltam para o governo estadual, sem o mesmismo político de tradição saneysta. Os olhares dos maranhenses estão focados na boa vontade da juventude de Flávio Dino e sua equipe. Mas, não é de se esperar que as mudançasestejam logoacontecendo num estalar dos dedos de janeiro. O novo governo terá que enfrentar, inicialmente, um volume de problemas deixado pelo seu antecessor e só depois dará respostas ao que o povo, esperançoso, espera acontecer. Enquanto isso, terá de ter paciência para esperar. Nenhum tipo de pessimismo, portanto,valerá a pena. É importante ter a capacidade de ver o mundo com a devida noção da realidadee,assim, enxergar a possibilidade de mudança que se quer.

Uma lição: pessimismo em excesso leva à depressão; otimismo em demasia leva à estupidez. Por isso, o equilíbrio é fundamental. No mundo, há problemas. Mas também há espaço para se pensar em melhoras. E contribuir para que elas, de fato, aconteçam.

O Maranhão, assim como o Brasil,é grande e tem volumosos problemas políticos, econômicos e sociais não resolvidos em todas as suas esferase territorialidade. Mas sua população, na sua maioria, é jovem e, além disso, conta com profissionais experientes, acostumados pelo menos a lidar com crises. Situações político-sociaispodem ir de mal a pior e a economia encolher com elasticidade, mas, ainda assim, as pessoas vão continuar estudando, indo ao trabalho, se alimentando cotidianamente e fazendo as coisas que gostam. E ainda encontram bons motivos para fazer sexo. Por tudo isso, vale dizer que o povo maranhense é forte, obstinado e persistente.

Ao olhar, portanto, para a imensidão das análises, previsões e sugestões do que fazer no ano que vem, é bom ter em mente que nem desespero, nem alegria sem limites valerão a pena. Evitar os analistas desesperados e desesperançados, os videntes de ocasião e os otimismos tolos de que “tudo está a mil maravilhas” é o ideal para que não se tenham frustrações. As reais oportunidades aparecemexatamente no ambiente onde você está inserido: no mercado em que você atua, na rotina em que você vive, no modo como conduz seus afazeres. É só manter-se perceptivo e atento.

Em 2015, as melhorias virão, sim, se as pessoas procurarem soluções para aquilo que está ao seu alcance. Se elas deixarem o egocentrismo e humanizarem suas relações. Se forem um pouco mais técnicas, sendo tolerantes com todos, inclusive com aqueles que compreendem sua equipe de trabalho. Lembre-se: conflitos e erros são importantíssimos no processo estruturante à maturidade. Ninguém aprende sem errar e nem erra se não tentar, se não estiver fazendo nada. Pessoas que não erram é porque não estão fazendo nada. Isso vale principalmente para as relações no ambiente de trabalho. Melhore a sua situação, mas também a daqueles à sua volta. Busque novas formas de atender seus clientes. De lidar com fornecedores e oferecer os seus serviços. A incerteza do futuro pode dar um certo desconforto, mas também pode trazer belas oportunidades. Se você mantiver o equilíbrio, ser contemplativo, solidário e tolerante com as pessoas e consigo mesmo, 2015 será melhor do que 2014 foi.

Feliz 2015!

Publicado por: Battista Soarez | dezembro 19, 2014

ENTRE O PODER E A GANÂNCIA

Entre o poder e a ganância

Battista Soarez (Jornal Itaqui-Bacanga)

Os países que têm grandes reservas de petróleo, entre eles o Brasil, enfrentam uma verdadeira maratona de ganância pelo poder e pela riqueza fácil. E isso é um problema muito estranho e comprometedor porque, normalmente, os governantes deixam de investir e visualizar outras maneiras de produzir riqueza. Além disso, o autoritarismo exacerbado de alguns governantes causa total perturbação no comportamento da economia mundial. Os gastos desses países são descontrolados e exorbitantes. A revista Veja, na semana passada, fez uma entrevista com o cientista político americano Michael Ross, autor do recente livro The Oil Curse (A maldição do petróleo), ainda não publicado no Brasil, em que Ross disse que a queda no preço do petróleo é um antídoto para a democracia, porque permite a ascensão de movimentos democráticos. Mas a coisa é bem mais complexa do que se imagina.

Petrobras01No Brasil, por exemplo, nenhum político foi indiciado no relatório da CPI que investiga a Operação Lava-Jato. As 52 pessoas que foram indiciadas vão ter de responder na Justiça pelo que fizeram e por que fizeram, sem poder citar nomes de quem mandou. Porque quem mandou sempre é alguém do alto escalão dentro da política brasileira. Tudo isso tem a ver com acordos pós-período eleitoral entre PSDB e PT. Foi só começar aparecer nomes de políticos do PSDB no escândalo da Petrobras, para as coisas mudarem de rumo. A verdade é que acima da oposição entre tucanos e petistas estão interesses políticos muito fortes. Um deles é manter em segredo os atos da cleptocracia que todos cometem quando estão na situação do poder.

Petrobras02A Petrobras é a maior empresa estatal brasileira e, também, a que mais é saqueada pela ganância do poder. As divisas obtidas com o petróleo normalmente são muito elevadas. Isso gera dois principais problemas. Um é que o petróleo acaba drenando os investimentos e, com isso, a mão de obra de outros setores também é drenada. O outro problema é que isso acende uma valorização da moeda local que acaba barateando as importações. Consequentemente, produtos como alimentação, roupas e máquinas — produzidos internamente — acabam ficando mais caros e, aí, as empresas fecham suas portas.

Toda essa equivocação política afeta a agricultura e as fábricas. Com isso, a economia fica mais dependente do petróleo. Em países exportadores de petróleo, segundo Ross, o Estado controla uma fração do PIB 50% maior que em outras nações. Essa concentração, enfim, gera um desequilíbrio de poder, em que os governos se tornam ricos e poderosos demais. E os seus cidadãos ficam cada vez mais pobres e fragilizados. Em síntese, as estatais ficam nas mãos dos governantes e eles fazem o que bem entendem com elas.

O sofrimento do Brasil com essa penosa realidade é tão elevado que os efeitos políticos são catastróficos na contribuição da economia para o desenvolvimento do país. Em 2002, o preço do petróleo era consideravelmente baixo. Apenas a gasolina manteve o preço estabilizado por 12 anos, durante o governo do PT. Os outros preços foram absurdos. Essa política abusiva de preços permite que o governo tenha mais dinheiro em caixa. Mas ele não investe em desenvolvimento. Ao invés disso, usa a dinheirama toda para comprar apoio popular e de partidos políticos. O derramamento de “barris” de dinheiro em manobras eleitoreiras e tramas políticas permite que os governantes vençam eleições pelo atalho das facilidades e alimentam alinhavos de corrupção. A verdade é que nenhum partido da situação tira dinheiro do próprio bolso para gastar em campanha política. Todos se utilizam do dinheiro público para se dar bem na vida pública e, obviamente, as empresas estatais são o canal perfeito para isso.

O nome de Roseana Sarney, que renunciou ao cargo de governadora no último dia 9, aparece nas investigações do escândalo da Petrobras desde quando a operação foi deflagrada em março passado. Segundo a revista Veja (edição da semana passada), o doleiro Alberto Youssef, preso pela Polícia Federal em São Luís, diga-se de passagem, disse que autoridades do governo maranhense exigiu 6 milhões de reais em propina “para liberarem parcelas de uma dívida de 120 milhões de reais do governo maranhense com a empreiteira Constran, também envolvida com o cartel da Petrobras”. Youssef era quem mediava os acertos. Outro que também mencionou o nome de Roseana Sarney como beneficiária de propina foi o ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa. Parte da propina paga para a então governadora do Maranhão, no valor de 900 mil reais, foi entregue pelo habilidoso doleiro Rafael Ângelo, que fez três viagens a São Luís, trazendo na roupa 300 mil reais de cada vez. Segundo o doleiro, o suborno foi entregue ao então chefe da Casa Civil, João Abreu, no interior do Palácio dos Leões, sede do governo e residência oficial do executivo estadual.

A renúncia de Roseana, portanto, parece representar uma fuga das investigações da Operação Lava-Jato, que tem uma quadrilha organizada de executivos formados na escola superior da corrupção brasileira, a maior do mundo. Esses executivos pertencem a empresas que, segundo o Ministério Público, lideravam o esquema criminoso instalado no cérebro da Petrobras.

É um verdadeiro clube de elite da corrupção, composto por empresas como Engevix, Galvão Engenharia e as famosas Mendes Júnior, Camargo Corrêa e OAS. Essas empresas drenavam bilhões do caixa da petrolífera brasileira em esquema de grandes fraudes nas licitações. Após ganharem as licitações, as empresas davam sequência a uma prática funesta de superfaturamentos em obras e serviços.

Os corruptos são tão cínicos que, enquanto a operação investigatória estava sendo realizada, eles continuavam lesando os cofres públicos, como cães famintos em cima de carne fresca. Só nesse período, a quantia chegou a aproximadamente 300 milhões de reais. Esse “barril” de dinheiro abasteceu contas de doleiros, lobistas e funcionários públicos, dentre estes estavam os funcionários da Petrobras. Agora, o MP apurou e quer que seja devolvido aos cofres públicos cerca de 1,2 bilhões de reais. Nada mais justo, quando se leva em conta apenas o prejuízo financeiro. O que não dá para recuperar facilmente é a ferida causada com isso na alma do povo brasileiro.

O mais doloroso é que, entre os indiciados no escândalo, nenhum político foi arrolado. Isso clareia o quanto a justiça brasileira, assim como a política, não é séria. Os rumores investigativos se assanham sempre que algum grupo partidário se acha insatisfeito, e se acalmam quando acordos políticos são costurados junto ao grupo da situação. Se a oposição tem participação na mesa do bolo, não há denúncia. Se não tem, ela se mobiliza, provoca a justiça (pagando, claro, membros do Ministério Público) para formular a denúncia e, depois, paga muito dinheiro para as principais empresas de comunicação — como, por exemplo, Rede Globo e revista Veja — jogarem a imagem da situação na lama do conhecimento público.

Pressionado, o governo se vê obrigado a chamar a oposição para um “cala-boca” e, então, os ânimos se contêm. Prejudicado mesmo quem fica é a população brasileira que tem de pagar altos impostos — criados pelos próprios corruptos — para cobrir o rombo descomunal nos cofres públicos. Rombo causado pela consagrada cultura de corrupção no governo de um país que está longe de funcionar honestamente.

Publicado por: Battista Soarez | dezembro 18, 2014

MARANHÃO

A RENÚNCIA DE ROSEANA

Battista Soarez (Jornal Itaqui-Bacanca)

O “luto” da família Sarney pela morte do seu caciquismo político no Maranhão ainda esconde os verdadeiros motivos de uma renúncia que, até agora, não explicou direito o porquê do declínio de uma extensa “vida-guerra” pelos interesses da coisa pública e, especificamente, pelo poder no Estado do Maranhão. Sarney, que é adepto de Maquiavel, alega motivos de senilidade e diz que vai se dedicar àquilo que sempre perseguiu sua alma de poeta: a literatura. Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e da Academia Maranhense de Letras (AML), Sarney já vinha ameaçando, desde 2004, deixar a vida pública em função da sua paixão pela arte literária. “Quero dedicar os últimos anos da minha vida à literatura”, disse ele na época. Mas, em razão de conchavos políticos a partir do Governo Lula, decidiu estender por mais alguns anos o fôlego de vida do poder político que ele sempre deteve ao longo de 50 anos. Diante da renúncia de Roseana Sarney, pairam no ar uma sequência de interrogações que parecem embair a possibilidade de esclarecer tudo em relação ao seu governo. Mencionada no escândalo da Petrobrás — por ter recebido cerca de R$ 6 milhões da estatal — Roseana sai de mansinho do governo para não ser investigada. Além disso, muita coisa ainda está oculta como, por exemplo, a morte do jornalista Décio Sá que nunca foi explicada de fato. Nunca disseram por que envolveram o nome do deputado Raimundo Cutrim, quando, na verdade, o deputado envolvido na morte do jornalista é outro. Os verdadeiros envolvidos ainda permanecem impunes sob proteção do pérfido segredo político do atual sistema. Com a morte de Décio Sá, caiu no esquecimento o caso do assassinato do líder do PT no Barra do Corda, a mando do irmão de um deputado, que não é Raimundo Cutrim. Esse caso foi denunciado por Décio Sá e, provavelmente, é um dos motivos de sua morte. Faltando 21 dias para terminar seu quarto mandato como governadora do Maranhão, Roseana Sarney anunciou, no dia 10 (quarta-feira), que sua renúncia do cargo ocorreu por “recomendações médicas”. Ao lado do pai, o senador José Sarney, e do marido, Jorge Murad, ela disse na carta de renúncia: “Me recolho para um descanso necessário, pelo bem da minha saúde”. No texto, Roseana diz ter cumprido, nos últimos meses, uma extensa agenda “de visitas, vistorias e inaugurações de obras”, em diversas cidades do Estado. Roseana Sarney deixou o governo e, com ele, uma lista enorme de problemas que não foram resolvidos ao longo de seu quarto mandato, como ela havia prometido quando ganhou, na justiça, o processo contra o então governador Jackson Lago. Ela deixa um dos piores índices sociais do país, um absurdo crescimento da violência, caos prisional e o maior número de pessoas vivendo abaixo da linha pobreza. Em meio século de caciquismo político, esta é a segunda vez que o governo do Maranhão será comandado por alguém eleito sem o apoio da família ou sem ser um dos Sarney. Flávio Dino (PC do B) venceu Edison Lobão Filho (PMDB) e, agora, tem um universo sem fim de desafios para enfrentar. Um deles é fazer uma reengenharia na cultura mental da população maranhense, principalmente dos líderes políticos que se formaram “PhD” em corrupção na escola política do grupo Sarney. Quem não aprendeu a ser corrupto na escola dos Sarney, não aprende mais em lugar nenhum do mundo. A ‘herança’ infame deixada por Roseana registra um Estado com mais miseráveis. Assim como todo o país, o Maranhão reduziu o número de pessoas miseráveis desde 2004, é bem verdade. Mesmo assim, segundo o Ipea, em 2013 eram 1.174.693 pessoas que viviam abaixo da linha da pobreza no Estado, isto é, 17,3% da população. A média é a maior entre os estados do Brasil e três vezes a média nacional, que é de 5,2%. Com ela, a violência ganhou absoluto destaque. Nos últimos anos, o Maranhão viveu uma explosão de violência incomensurável, visto que, entre 2002 e 2012, a taxa de homicídios cresceu 162%, chegando a 26 por cada 100 mil habitantes — ainda menor que a média nacional, que é de 29 por 100 mil habitantes — segundo dados do Mapa da Violência 2014. Nessa década, o Maranhão foi o terceiro Estado com maior crescimento do período, atrás apenas de Rio Grande do Norte e Bahia. No governo Roseana, houve um verdadeiro caos prisional. No início de 2014, o mundo conheceu a barbárie no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, em São Luís. Em 2013, foram 60 mortes, algumas com decapitações. Nenhum Estado teve tantas mortes como foi registrado em Pedrinhas. Neste ano, já foram 19 assassinatos dentro do complexo. Líder em mortalidade infantil, na última década o Maranhão ultrapassou Alagoas na “disputa” pela lanterna em relação à mortalidade infantil. O Estado, segundo o estudo Tábua da Vida, do IBGE, teve a maior taxa em 2013. Foram 24,7 por mil nascidos vivos. A mortalidade na infância também é maior no Maranhão: 28,2 por mil crianças. No quesito habitação, o Maranhão tem o maior deficit habitacional do país entre todos os Estados. Em 2008, quando Roseana assumiu pela segunda vez o mandato de governadora, após a cassação de Jackson Lago (1934-2011), a taxa de pessoas sem moradia era de 25,2% em relação a todos os domicílios. Em 2012, os dados indicam que essa taxa caiu para 21,2%. Outra precariedade é quando o assunto é justiça. Os moradores do Maranhão têm o pior acesso do país à Justiça, de acordo com estudo divulgado pelo Ministério da Justiça no final do ano passado. O índice leva em conta o número de profissionais, como advogados, defensores públicos e juízes. Também se leva em conta o IDH. Boa parte disso se deve à falta de defensores públicos, que só atuam em uma defensoria a cada quatro municípios do Estado. É a menor expectativa de vida. O Maranhão é o lugar onde se vive menos no Brasil. O Estado é o único em que a expectativa de vida não chega aos 70 anos e ficou, em 2013, em 69,7 anos. No Brasil, essa taxa, em 2013, era de 74,9 anos. Entre os homens, a expectativa era ainda menor no Maranhão, isto é, 66 anos. Já entre as mulheres, essa esperança chega a 73,7 anos. Com grande potencial e pouco investimento, o Maranhão registra que a renda por aqui é menos de 40% da média brasileira. Os maranhenses têm o pior rendimento entre os Estados, conforme indica o IDH Renda. O Estado também é o segundo pior PIB (Produto Interno Bruto) per capita do país, segundo dados das Contas Regionais, do IBGE. A população, em 2012, tinha um PIB per capita de R$ 8.760,34, à frente apenas do Piauí (R$ 8.137,51). No Brasil, a renda per capita é quase três vezes maior que a maranhense: R$ 22.645,86. Sobre saúde, outro problema. Sem conseguir atrair ou formar mais profissionais, o Maranhão — de acordo com dados do CFM (Conselho Federal de Medicina) — é o Estado brasileiro com o maior índice de habitantes por médico, com 5.390 profissionais para 6.794.301 habitantes. A média brasileira é de um médico para cada 1.260 pessoas. E o mínimo recomendado pela ONU é de pelo menos um médico para cada 1.000 pessoas. A educação, no estado, ainda engatinha. A PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) 2013, do IBGE, apontou que o Maranhão é o segundo estado com o maior número proporcional de analfabetos, com 19,9% do total da população sem saber ler ou escrever. O Estado estava à frente apenas de Alagoas (que teve taxa de 21,7%). O governador eleito Flávio Dino, frente a essa realidade social do Maranhão, terá que encarar a construção de um futuro que ainda está atolado na lama do presente. Portanto, ele vai ter que ver a derrota do grupo Sarney não como constelação de forças, mas, sim, como oportunidade de por qualidade na percepção do discurso político para fazer funcionar todas as práticas planejadas. A grande questão não é a derrota dos Sarney, mas o risco de desânimo e dissimulação intelectual da nova equipe diante do volume de problemas a ser enfrentado. O risco de fingir que cada passo para trás ou para o lado signifique dez passos para frente. Creio que Flávio Dino, no entanto, terá maturidade suficiente para, desta fez, dar um basta no tradicional oba-oba político que sempre foi proeminente no Maranhão.

Publicado por: Battista Soarez | novembro 27, 2014

DIREITOS HUMANOS E VIOLÊNCIA

Direitos Humanos e violência

BATTISTA SOAREZ

Jornalista, pedagogo e escritor, autor do livro A igreja cidadã, pela Arte Editorial (SP, 2007) e finalista no Prêmio Nacional de Literatura Areté 2008. É bacharel em Comunicação Social, Teologia, Direito e Sociologia.

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Nos últimos tempos, no Maranhão, a violência tem ganhado destaque na imprensa local, regional e nacional. Somente na capital São Luís, vem acontecendo, em média, 20 assassinatos apenas nos finais de semana, dados que as próprias autoridades do estado consideram alarmantes.

DireitosHumanos_2Durante o ano de 2014, 13 policiais foram assassinados por bandidos armados com armas de uso exclusivo da polícia.

Face a todo esse cenário de violência no estado, restam algumas perguntas para as quais a sociedade exige respostas claras e efetivas. O que está acontecendo com a segurança no estado? É uma problematicidade política ou fator sociológico? Quem são, de fato, esses bandidos que tanto aterrorizam a sociedade? Por que eles têm sede de matar? Por que usam armas de uso exclusivo da polícia? Como têm acesso a essas armas? Por que o governo não tem êxito no combate à violência? Por que, agora, esses bandidos se voltam para matar policiais? O que está por trás dos indicadores sociais e dos descasos governamentais em relação ao aumento da criminalidade? Por que as instituições oficiais criam normas de proteção ao crime como o ECA e outras legislações correlatas?

Respostas a tais perguntas perpassam pela análise das instituições sociais e de seus respectivos representantes, no âmbito de complexidades contemporâneas que situam uma posição ético-política diante da problemática da violência. Se a realidade social é uma exterioridade, a violência social se revela como um chamamento ético aos modos de lidar e enfrentar a problemática da violência como estrutura de sentido imersa na própria realidade social.

Desde que a governadora Roseana Sarney assumiu o governo do Maranhão, compreender a violência social no estado tem sido um desafio tão difícil quanto resolvê-la. Parece que os seres violentos estão punindo a sociedade maranhense por suas escolhas e por aceitar, sempre, a ideologia cinquentenária dos mandos e desmandos no estado. Ou, talvez, políticas oficiais maleáveis e românticas de proteção a criminosos sejam responsáveis pelo crescente nível de violência na sociedade.DireitosHumanos_1

A partir das temáticas de direitos humanos e de outras políticas sociais, discutir a problemática da violência social se tornaria, efetivamente, estratégia de desconstrução da violência e, enfim, de inclusão social. Mas, para isto, seria extremamente necessário rever todas as políticas públicas e sociais do trato com a violência e com a educação da sociedade. Haja vista que, sem educação e sem respeito a ela, não se tem êxito nenhum contra a violência.

Violência, normalmente, é resultado de valores sociais equivocados. Uma sociedade que não estuda, desconhece totalmente sua identidade sociocultural. E uma sociedade que desconhece sua identidade cultural, é uma sociedade violenta e de valores equivocados. De fato, é uma sociedade sem valor cultural porque, ainda, não se encontrou culturalmente, muito menos ideologicamente.

É interessante pensar que, para haver mudança de cenário, o Maranhão — a partir do novo governo, que começa em janeiro de 2015 — deve buscar dar visibilidade às relações entre os três segmentos que tecem as condições de sociabilidade: Estado, Mercado e ONGs, formando, assim, uma pluralidade de redes que possam ser a força motriz das ações de inclusão social e combate à violência.

Como funcionaria isto? Primeiramente, é preciso romper com a política burocrática no acesso aos recursos que contemplam projetos sociais. Segundamente, dentre outras coisas, é fundamental trabalhar as questões e temáticas da violência com as autoridades governamentais, civis, militares, sociais, comunitárias, religiosas, empresariais, educacionais e intelectuais em geral. Trata-se de uma diversidade de redes sociais unificadas em torno de um só propósito: reeducação da sociedade e combate à violência.

A unicidade harmoniosa e pacificadora de pessoas comuns, bem como de familiares, agentes penitenciários, policiais civis, militares e federais, técnicos das áreas da psicologia e da sociologia, operadores do direito, educadores, diretores de escolas públicas e privadas, igrejas, representantes do governo e das instituições privadas poderá ser a única estratégia eficaz para que a violência entre numa escala regressiva e de descontinuidade.

Não é possível avançar em qualquer política nesse sentido, sem possibilitar e promover o diálogo social, o qual parece ser condição sine qua non para mudar os rumos dos atuais fatos sociais. Isto envolve conhecimento por parte de internos e egressos do sistema penitenciário e seus familiares. O que os anseios da sociedade almejam não é somente possibilitar pensar na redução de suas vulnerabilidades pessoais, mas a sua própria inclusão nos movimentos de reivindicação e reintegração do tecido de sociabilidade como caminho de inclusão social e combate à violência.

A sociedade, que é a mais afetada pela violência, deve estar inserida em todos os diálogos sociais. Do jeito que o cenário social se encontra, não é suficiente eleger políticos como representantes do povo. Até porque não é mais confiável elegê-los, dado o volume de corrupção entranhado nas instituições políticas. A corrupção também é um tipo de violência que precisa ser combatido pela participação popular junto ao governo.

Em indivíduos e grupos humanos, num pensar mais sociológico, a violência surge como uma construção coercitiva que visa a sujeição. Nem a violência nem o poder são fenômenos naturais, isto é, uma manifestação do processo vital. Na verdade, eles pertencem ao âmbito político dos negócios humanos, cuja qualidade essencialmente humana é garantida pela faculdade do homem para agir. Surge, aí, a habilidade para começar algo novo.

Na visão francesa, conforme enfatiza Félix Guattari, em seu livro As Três Ecologias, a violência e a negatividade resultam sempre de agenciamentos subjetivos complexos: elas não estão intrinsecamente inscritas na essência da espécie humana. São, na verdade, construídas e sustentadas por múltiplos agenciamentos de enunciação.

Portanto, a violência não é algo da essência humana. Mas trata-se de um instrumental ou um agenciamento como meio de garantir uma estrutura de sentido em que é almejado desvelar o sentido da estrutura, tanto em termos da linguagem, como em termos do social, da troca, das relações homem-mulher e, enfim, da tomada de formas. Formas que cada vez mais se enrijecem e se coagulam.

Publicado por: Battista Soarez | junho 30, 2014

LITERATURA

ENTREVISTA: MAGNO PAGANELLI

A influência da literatura cristã no pensamento intelectual brasileiro

Por BATTISTA SOAREZ

Entrevista solicitada originalmente ao jornal Tribuna do Escritor

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MagnoPaganelli_5Em obediência à vocação e ao talento, o paulista Magno Paganelli, 47 anos, é um escritor que sabe definir, na ponta da pena, por que escolheu a missão de trilhar pelos caminhos das letras. Autor com mais de 30 livros publicados, Magno é criador e editor da Arte Editorial desde o ano de 2003. O autor nasceu em Araçatuba, interior de São Paulo, em 1967. Cresceu sob influência de uma vida jovial liberalista, experimentou a dura caminhada solta na efemeridade das drogas e, aos 23 anos, se converteu à igreja evangélica. Num lampejo metafísico, o autor diz acreditar que literatura é tudo aquilo que julgamos “ser” ela mesma a partir de fatos corriqueiros. “Dentro do rótulo ‘literatura’, podemos colocar tudo que as experiências humanas vislumbram em forma de texto”, pondera ele. Em 1995, publicou seu primeiro livro E então virá o fim e, dez anos depois, criou sua própria editora.

MagnoPaganelli_9A partir daí, Paganelli decidiu mergulhar por definitivo nos estudos cristãos, sua maior fonte de inspiração literária. Graduou-se, inicialmente, em Teologia e Pedagogia e, atualmente, está concluindo seu mestrado em Ciências da Religião pela Universidade Mackenzie de São Paulo. Profícuo pesquisador e autodidata, o autor é membro do GT Oriente Médio e Mundo Muçulmano na USP (Universidade de São Paulo), onde se prepara para o doutorado em História Social pela mesma universidade. É professor de teologia, palestrante, jornalista e escritor. Seus mais de 30 livros publicados incluem E então Virá o Fim (Prêmio ABEC), Islamismo e Apocalipse, Estive Preso mas não Estive Só (Prêmio Areté), O Livro dos Diáconos, É Cristã a Igreja Evangélica?, Conflitos na Família, Qual a Sua Função no Corpo de Cristo entre outros. Em 2003 criou a Arte Editorial, editora com perfil cristão cuja missão é publicar obras que contribuam com a cultura e com o desenvolvimento de valores cristãos e dar suporte e oportunidade à formação de novos autores nacionais.

MagnoPaganelli_11Em 2011, quando esteve em São Luís para uma palestra com escritores, concedeu entrevista à rádio Universidade FM, da UFMA. A conversa com o autor focaliza a influência da literatura cristã no pensamento intelectual brasileiro. O jornal Tribuna do Escritor escolheu ele para esta entrevista exatamente por sua versatilidade no âmbito da literatura como escritor, editor, jornalista, educador, pedagogo e teólogo. Em matéria de produção literária, o entrevistado é polivalente: edita, faz capa, diagrama e distribui. De São Paulo, onde mora com a esposa Roseli e o pequeno Magninho, filho do casal, Magno Paganelli concedeu a seguinte entrevista.

 

TRIBUNA DO ESCRITORCerta vez, o famoso sociólogo norte-americano Marshall McLuhan, falando para um grupo de escritores, disse que eles, escritores, eram nada mais nada menos do que os últimos sobreviventes de uma espécie em extinção, pois já não servem para nada escrever e publicar livros. Isto se aplicaria, também, aos escritores cristãos?

MAGNO PAGANELLI — Sim, no sentido em que ele fez referência. Escritores são escritores, independentemente do estilo que adotam ou do tema com o qual trabalhem. O escritor cristão faz abordagens cristãs de todos os temas que toquem a sua vida e a experiência humana. Mas discordo de que livros não sirvam “para nada mais”. As novas tecnologias têm melhorado o produto “livro” e, portanto, a experiência de se ler um livro, além de produzir novos suportes e mecanismo mais democráticos para a existência e manutenção do livro.

TE — Mas você não acha que, em termos do “pensar literário”, a época em que se queimavam as pestanas à luz de lamparina não era mais produtiva, já que essas novas tecnologias parecem ter facilitado demais as coisas e, portanto, roubado um pouco ou quase tudo dos esforços do pensar intelectual?

MP — Penso que não. Ao menos em um sentido. O escritor atento ao seu tempo saberá que não basta “ser mais um”. Para ser lido e ouvido será preciso trabalhar, refletir, queimar a pestana a fim de encontrar uma maneira de falar que “fale mais alto”. É a inovação que destaca no meio da massificação. Quem quiser ser mais um será; quem trabalhar mais poderá se destacar.

TE — O que podemos considerar, de fato, literatura?

MP — Penso que existem dezenas de definições de literatura. Como escritor, eu preciso experimentar estilos diferentes até encontrar o que mais se adeque ao que pretendo dizer ao público que almejo alcançar. Como editor, preciso considerar todo texto que chega até mim para ser avaliado, sem descartar inicialmente nenhum deles. Pois preciso compreender que cada autor que envia seu texto encontrou, em tese, o seu melhor estilo. Mas, acima de tudo, literatura é o meio pelo qual a experiência humana mais íntima toma contato com as mais amplas possibilidades de universalizar uma percepção da vida.

TE — Você falou em estilo e me faz entender que, por via da experiência humana, o escritor aguça sua percepção da vida a partir de um processo em que ele evoca, inicialmente, um princípio de busca “eu-ser-mundo”. E esta é a práxis no modus vivendi do contexto em que ele, como autor, quer construir seu texto. Neste sentido, a literatura depende de atitudes críticas para se fazer mais criativa? Ou ela simplesmente tira proveito de uma diversidade criacional livre, como propuseram os jovens escritores da semana de Arte Moderna, em 1922?

MP — Não acredito que se consiga “uma diversidade criacional livre” sem antes dominar uma experiência pessoal, de vivência “eu-ser-mundo”. Só se consegue ser criativo dominando o seu campo, salvo se você for um iluminado, a exceção. Mas quem é a exceção? Quantos Mark Zuckenberg você conhece? Quem de nós almoça ao lado do Pedro Bandeira todo dia? Ele vende mais que o Paulo Coelho, pelo menos quatro vezes mais!

TE  Que diríamos, então? A literatura cristã é um jogo? Um passatempo? Um produto de anacronismos? Ou, acima de tudo, uma atividade artística, de modulações pluralistas, que tem exprimido alegria e angústia, certezas e dúvidas, aprendizado e enigmas no homem moderno? Que você acha?

MP — Acho que dentro do rótulo “literatura” podemos colocar tudo isso e mais alguma coisa, porque, como disse, são experiências humanas em forma de texto. Então podemos catalogar experiências emocionais, intelectuais, científicas (mesmo cristãs ou com abordagem cristã), poesia, romances, história, ficção até. Enfim, não há tantas limitações. E não há anacronismos, pois estamos sempre lendo o passado, as experiências herdadas da própria humanidade e da Bíblia, que é um livro milenar de muitas culturas inspiradoras.

TE — Você acredita que o escritor cristão brasileiro é um produtor de conhecimento ou simplesmente um repassador de ideias e pensamentos já produzidos?

MP — Não penso que somos simples duplicadores, repetidores de discursos literários. Com criatividade, o escritor cristão precisa ler o seu tempo e ser imaginativo a ponto de poder dizer a mesma mensagem adequada à cultura e à linguagem do tempo presente. Como o homem sempre está produzindo conhecimento, o escritor cristão precisará acompanhar essa dinâmica fazendo ajustes necessários de acordo com as novas demandas. Por exemplo, quando se discute o aborto, que é uma discussão recente, o escritor cristão deverá produzir reflexões a partir da sua abordagem cristã para a vida. Que implicações terá o aborto? Que contribuição ou não trará para a humanidade? A sua fé poderá dar contribuições a essa reflexão ou ela não deverá interferir nas decisões legais e pessoais sobre o tema?

TE — Você está dizendo que o escritor é um “construtor” a partir de verdades catalogadas da realidade social? Como ele pode empreender isso e ainda “burilar” sua originalidade? De que maneira isso ocorre, uma vez que a literatura exige uma intelectualidade que maneje bem as circunlocuções em suas abordagens para obter o resultado que pretende, ao gosto do leitor a quem pensa se dirigir?

MP — Penso que aqui reside a questão do estilo pessoal. A verdade, como você diz, é “catalogada”, está posta. O leitor precisa ser tocado pelo autor, mas o leitor também está buscando algo e encontrará o que procura, o que busca, quando ouvir o eco da sua voz. Por que alguns autores são tão queridos por determinados nichos? Porque ele dá eco ao que aquele nicho precisava ouvir. Se for romancista, “fala ao coração”. Algo assim.

TE — Qual é a sua maior dificuldade como editor? Ao escolher uma obra, você avalia exatamente o quê? O que você, como editor, procura no espírito literário de um autor?

MP — No meu caso específico, eu procuro textos que tenham contribuições com a formação de uma reflexão e pensamento maduro para a Igreja, primeiro para os líderes, os que atuam no trabalho cristão em si. Em consequência, isso deve refletir na formação dos membros. Assim, a dificuldade é encontrar algo inovador, pois a maioria dos textos repete o que já foi dito. Falta o hábito de ler, método e prática de pesquisa, uma cultura mais rica de ler, refletir e produzir literatura. E penso que isso não é demérito do cristão brasileiro, mas em outro sentido é reflexo da cultura do país.

TE — Seria incorreto dizer, então, que essa procura pela cultura mais “rica” passa pela índole fragmentária do escritor em que, de fato, ele pudesse organizar perífrases realistas em função de uma política de conteúdo? E que isso tivesse padrões mais rígidos de comportamento impostos por via de uma moral essencialmente mais literária?

MP — Todo escritor amadurece e com isso mudará ou aprofundará as compreensões anteriores. Assim, a busca pela cultura mais “rica” permanece, tanto no escritor, quanto no editor. Todos queremos avançar. Um autor não poderá atender as exigências de determinada editora ou linha editorial porque não é o seu público ou porque não amadureceu a tal ponto. Mas num segundo ou terceiro momento isso poderá ser possível.

TE — Você acha que a safra de escritores nos anos que antecederam o advento da Internet era mais criativa? Sua intelectualidade era bem mais densa do que a de hoje?

MP — Eu penso que eram mais limitados. Hoje o acesso à informação ampliou-se muito, mas isso não produziu, ainda, um grupo, como você chamou, “mais criativo”. O acesso à Internet favoreceu o contato com novas e mais informações, mas muita gente ainda não tem o critério jornalístico que demanda pesquisa, apuração, cuidado com as fontes e com a verdade. O escritor pré-Internet precisava de ânimo para ir a uma biblioteca e hoje ele acessa a biblioteca sentado em sua cama. Mas ele não desenvolveu, ainda, um pensamento criterioso, salvo aqueles escritores que possuem maior formação acadêmica. Mas mesmo esses, em muitos casos, produzem enquanto estão nos ambientes da produção científica; são poucos os que levam isso à frente.

TE — Mas será que, com as novas tecnologias da informação, a mente das pessoas não ficou bem mais “preguiçosa” em relação ao exercício criacional e produtivo, principalmente no que tange ao quesito originalidade?

MP — A população mundial aumentou consideravelmente. O Brasil quase dobrou a sua população em quarenta anos. Com isso, certamente a massificação ocorreu, mas sempre haverá um nerd querendo cortar caminho, abrir caminho, inventar ou criar novos caminhos. Há 10 anos, o self publishing era um projeto promissor; hoje é uma realidade. E alguns diziam que as editoras quebrariam com esse modelo: hoje, os editores procuram autores que se publicaram para lançá-los. Veja, por exemplo, os 50 Tons de Cinza, que “criou” um novo gênero. Vai durar? Enquanto tiver leitores, sim. Penso que passará. Mas mobilizou parte da indústria do livro. No meio cristão, tivemos a onda da batalha espiritual. Cadê os livros do Daniel Mastral? Hoje estão no fundo da livraria. Depois, nem isso. Só nos sebos.

TE — Quase não se fala em escritores cristãos brasileiros do passado. Os que existiram, produziram pouco. Há alguém que teve alguma influência literária, além de alguns estrangeiros, é claro?

MP — A produção literária brasileira é relativamente recente. Tudo era muito caro. Até a década de 1980, por exemplo, era preciso imprimir 20 mil, 30 mil exemplares de uma obra para poder vendê-la a um preço justo. Quem poderia sustentar isso? Só poucos. Soma-se a isso o fato de uma tradição igualmente recente. O pensamento teológico cristão, por exemplo, era insipiente. Os missionários que controlavam os rumos da nossa Igreja não apoiavam facilmente o pensamento autóctone; preferiam trazer os seus autores e traduzi-los. Só de uns anos para cá os brasileiros passaram a controlar os meios de comunicação, mas também não tinham à sua disposição bons nomes para publicar; o recurso era manter autores estrangeiros. Mas no início dos anos 2000, simultaneamente, algumas editoras começaram a focalizar autores nacionais, desenvolvendo obras com reflexão sobre o caso e os problemas nossos, com a vivência local, para as demandas locais. Mas há mais um detalhe que, penso eu, faz com que os primeiros autores, das décadas passadas, não sejam tão lembrados como poderiam. A produção da informação recente demanda uma linguagem para o homem de hoje. Autores do passado eram mais simples, mais cultos, mais densos. O leitor de hoje não consegue acompanhar aquele pensamento, porque são mais rasos culturalmente — embora tenham acesso a um oceano de informação, são mais imediatistas, querem receitas prontas — ao passo que o escritor do passado escrevia para formação, e não apenas para informação.

TE — Por que que o gênero romance é pouco explorado pelos escritores cristãos?

MP — Penso que por dois motivos, pelo menos. Um, porque falta cultura de leitura, leitura de literatura geral, dos clássicos. Outro, porque o púlpito das igrejas demanda o conhecimento de um conteúdo que está organizado sistematicamente e, assim, as obras com cunho mais “técnico” tenham prevalência sobre a literatura do gênero romance, contos etc.

TE — Você escreveu um romance, o Estive preso, mas não estive só. Que, inclusive, ganhou o Prêmio Areté de Literatura! Em sendo um autor de ensaios cristãos, você teve dificuldade de organizar um romance? Na prática, qual foi o maior óbice para você se manter fiel ao gênero?

MP — Foi um romance baseado em fatos reais onde o personagem central era eu mesmo. Uma autobiografia na qual todos os nomes dos personagens, inclusive o meu, foram mudados, para preservar a privacidade das pessoas. Isso facilitou sobremodo a composição do texto, porque parte da dificuldade fora superada pelo fato de eu “ter” a história já experimentada em mim. Mas havia a dificuldade da construção de um texto com mais vozes; como você disse, eu escrevo ensaios. Assim, li alguns autores consagrados à procura de uma referência que pudesse funcionar com o que eu queria. Encontrei, notei que era uma receita simples, mas muito poderosa e o resultado agradou. Já encontrei dezenas de pessoas que disseram ter lido o livro em dois dias, porque a história as prendeu ao livro. O livro foi premiado por um júri experiente. Penso que acertei.

TE — Quem você aponta como um grande escritor cristão brasileiro? Alguém que realmente exerceu influência na literatura cristã nacional?

MP — Há gente que publicou muitos livros e deu uma importante contribuição com a disseminação do pensamento cristão, que foi o Caio Fabio. Seus sermões eram vertidos para livros e isso espalhou-se como fogo em mato seco, mas não significa que ele seja um grande escritor. De fato não é. Há autores mais novos que também venderam muito, mas sua obra é datada, souberam explorar a curiosidade latente do seu tempo, mas passados dez anos ninguém mais se interessa pelo que escreveram. Então não posso dizer que sejam grandes escritores. Eu penso que ainda vamos precisar de uns anos para poder dizer este ou aquele, de fato, foram homens à frente do seu tempo.

TE — O Caio Fábio, inclusive, escreveu um romance, o Nephilim. Apesar de a obra ser de boa qualidade, ele não voltou a escrever mais nada no gênero. Você acha que o público cristão brasileiro não aprecia muito ler romances? Ou está faltando uma política de incentivo à leitura mais acentuada?

PM — Um pouco de ambos, mais da primeira opção. Uma política de incentivo pode gerar bons resultados. Mas o público cristão demonstra maior interesse por livros de práxis cristã, que sejam as receitas (faça isto, experimente aquilo). Que seja um material mais teológico (não tão acadêmico, no sentido secularizado). Se um autor der uma palestra e comentar sobre um livro de testemunhos, o livro será procurado. Eventualmente, eu menciono a minha experiência no livro Estive Preso, mas Não Estive Só e as pessoas procuram no final da palestra. É um romance. Se eu der uma aula e falar do livro sobre tipologia bíblica, as pessoas irão querer o livro Onde Estava o Cristo. Elas precisam de um tutor experiente que diga o que há nos livros; então, irão atrás.

TE — Certos livros são muito conhecidos. Estão nas vitrines de qualquer livraria e todo mundo [que tem o hábito de ler] sabe dizer o nome de seus autores. Isso se deve a que, exatamente?

MP — Um motivo é o que apontei: autores que souberam explorar alguma demanda, alguma tendência ou moda. Então fizeram nome rapidamente. Outros alcançam isso porque têm uma máquina por trás, seja a denominação, seja a mídia como a televisão, que pode impulsionar um livro, sem que necessariamente esse livro seja realmente imprescindível. E outros têm a sorte de serem publicados por editoras fortes, ricas, influentes. Fora desse eixo, não vejo como um autor ganhar as vitrines de lojas e livrarias, embora possam ser bem aceitos pelo público que ouve suas palestras, aulas e estejam mais próximos a eles.

TE — Neste caso, o que está faltando? Os movimentos literários são tímidos, orgulhosos e melancólicos a ponto de não poderem se organizar em função de uma política literária mais patente?

MP — Eu não tenho respostas fáceis para essa questão. Há uma máquina em andamento e essa máquina é movida a dinheiro. Sem dinheiro não há muito o que fazer, salvo um evento sinérgico, que consiga reunir interesse do público por alguma demanda ou por alguma resposta, um grupo de promotores, editores, autores, facilitadores, e os meios que facilitem esse encontro de ambos os lados, o texto e o seu leitor. Precisamos de uma Semana de Arte Pós-moderna Cristã! (Risos).

TE — Numa ocasião, perguntaram ao escritor William Faulkner sobre que técnica empregava para chegar ao seu padrão na redação de um texto. Ele respondeu: “Que o escritor se dedique à cirurgia ou à profissão de pedreiro, se se interessar pela técnica. Não existe meio mecânico algum para se escrever. Nenhum atalho”. E em seguida explicou que o jovem escritor seria um tolo se seguisse uma teoria [literária]. Como Faulkner, você acha que a gente aprende pelos seus próprios erros? Que, como bom artista, possui a suprema vaidade de aprender errando?

MP — Hoje há cursos com especialistas em literatura que ensinam a produzir bons textos. E há aquele “escritor espermatozoide” que fura o bloqueio e se dá bem depois de passar por um curso desses, mas não são todos evidentemente. Acredito que a pessoa que sente vontade de destacar-se como autor deve começar a praticar e estudar os estilos possíveis até encontrar o seu próprio estilo. A prática da escrita leva a um estilo pessoal e isso vem de tentativas, erros e acertos. Penso que Faulkner quis dizer algo nesse sentido: exercite-se até desenvolver a sua própria técnica, até encontrar o seu estilo, ajustado ao seu mundo e aos seus propósitos. A simples organização de um texto com “começo-meio-e-fim” já indica uma técnica. Se o autor quiser fazer uma inversão dessa ordem, criará a sua própria técnica.

TE — O que você diria a respeito do discurso literário para o mundo de hoje? Que principais indagações ele faria e ao mesmo tempo seria capaz de responder?

MP — Sim, há o que dizer. Penso realmente que há muito o que dizer. Mas hoje é preciso pensar mais antes de sair “dizendo” o que se pensa. Cristãos, hoje, têm discurso para ser ouvido e lido em qualquer campo do conhecimento humano. E com relevância. Mas é preciso abandonar o simplismo — não a simplicidade. O reducionismo pode ser fatal, mas um discurso consistente e bem elaborado terá ouvidos atentos, ainda que a esse ouvido atento corresponda uma boca discordante. O “ouvido ouvirá” se o discurso for bem articulado, com simplicidade, relevância e coerência persuasiva. Se tocar em questões prementes e se colocar no seu devido lugar.

TE — Como manifestação artística, a literatura procura recriar a realidade. E cada autor tem sua visão fundamentada em seus próprios sentimentos reais, pontos de vista, seu estilo e sua maneira particular de proceder nas narrativas. No seu modo de ver, o que difere a literatura de outras manifestações artísticas?

MP — A literatura difere no suporte, apenas. Uma pessoa não pode, simplesmente, colorir uma tela para obter uma obra de arte. Ela precisa conhecer sobre composição de cores, luz e sombra, perspectiva, gênero e estilo pessoal. O escritor também precisa ter noções mínimas, ter vocabulário, saber manipular argumentos, construir raciocínios consistentes, contextualizar e, finalmente, persuadir. Todas as manifestações artísticas dependem de ferramentas próprias e a literatura tem as suas.

TE — Como se faria isso? Você está falando de um retorno à biopsicoética, para sermos mais específicos em matéria de literatura?

MP — Não, não. Não precisamos voltar, mas avançar. Não dá para resgatar movimentos passados, mas podemos usar um ou outro elemento que possa ser adequado ao movimento presente. Se as ferramentas e os suportes são novos, usemos as ferramentas e os suportes novos.

TE — Isso parece algo, digamos, mais genérico. Essa mesma regra e diferença se aplicam, também, à literatura cristã?

MP — Aplica-se enquanto é literatura. Mas o restringente “cristã” faz com que um ingrediente a mais esteja presente, que é a régua da Bíblia e até da tradição teológica do autor. O seu olhar passará, em algum momento, pelas lentes dadas pela sua abordagem “cristã” do assunto com o qual ele lida.

TE — O que diferiria, então, um texto “literário” de outro texto que não possui essa mesma característica?

MP — Penso que texto literário é texto literário. Costumo dizer que há gente para ler de tudo o que alguém possa escrever, basta ter uma bela capa e um bom vendedor. Mas a boa literatura é aquela que permanece na lembrança das pessoas, independente se ela cai ou não no gosto da crítica ou se ela segue ou não as regrinhas do jogo. A literatura precisa falar à alma dos seus leitores, sejam eles emotivos ou racionais, cultos ou simples [de senso comum]. Se conseguirmos escrever um texto que acelere o coração do leitor, que ilumine os seus pensamentos, que seja ele instrutivo nalgum ponto de sua vida, teremos conseguido um bom texto literário.

TE — Que parecer você daria para os jovens escritores e intelectuais que estão surgindo agora? Sobretudo para aqueles que estão nas universidades, como os estudantes do curso de letras, por exemplo?

MP — Que procurem dominar a técnica, mas não extingam o espírito, nunca. Num mundo técnico e tecnológico, você não terá lugar ao lado de ninguém se não dominar a técnica. Mas se quiser sobressair-se, se quiser ir à frente — e não somente ficar ao lado — mantenha aceso o espírito. É ele que fará de você um pensador criativo. E no encontro da técnica com a criatividade está a receita que todos procuram para se tornarem bons autores.

Publicado por: Battista Soarez | maio 27, 2014

GOVERNABILIDADE

O FUTURO DESCARTADO

A (não)consciência da governabilidade brasileira

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Nos últimos anos, os grandes acontecimentos da política brasileira foram acusações envolvendo corruptos, corruptores e corrupções das mais absurdas em todas as esferas e instituições de governo. Isto é o que a mídia divulga. Entretanto, por trás das cortinas midiáticas e políticas, imoralidade nas relações de governo, adultério e prostituição no Congresso Nacional e, ainda, comportamento sexual condenável envolvendo políticos de várias estirpes — alguns deles cristãos — têm tomado conta da sociedade.

Mas esses acontecimentos não esgotam os noticiários. Outras práticas ficam camufladas como, por exemplo, as mudanças e acréscimos nas taxas previdenciárias. O Brasil é um país absolutamente instável nas suas normas e nos seus estatutos. Isto torna o governo desequilibrado e sem estabilidade em todos os setores das políticas públicas.

Por outro lado, a política global ou a situação mundial tem se mostrado mais interessante, como diria Russell Jacoby, ou menos desalentadora, marcada pelos avanços em direção a uma União Europeia e, também, por fanatismo sanguinário e Estados em desintegração.

No cenário brasileiro, a política ficou chata, repugnante, até. Não tem mais nada de benigno. Principalmente quando se fala em distribuição de renda. Podemos dizer, até, que o sistema político-econômico brasileiro é despotismo e fratricida. Exagerei nas palavras? Creio que não. Senão, vejamos: o povo suporta as investidas das ações políticas e institucionais do governo, sem ter força para se defender. Ações administradas por uma “ideologia” retrógrada.

Na era da permissividade, na qual estruturamos nossas famílias, nossas vidas e nossas carreiras profissionais, temos pouca expectativa de futuro, isto é, de um futuro que venha ser diferente do modelo presente. Perdemos a noção de utopia. Perdemos a ideia de que o futuro de nossos filhos e netos será melhor. Perdemos a noção de que o futuro possa transcender o “formato” presente.

O povo brasileiro ainda alimenta uma crença de que o futuro pode superar fundamentalmente o presente. Entretanto, a textura vindoura da vida de cada brasileiro, do seu trabalho e mesmo da sua vida afetiva incorre num processo degradante, inclusive da família e do espírito comunitário. Quase não se vê mais solidariedade, muito menos o amor fraternal. Tenho visto “horrores” no convívio familiar que, a bem da realidade, são inexplicáveis.

Para alguns, a crença de que essa tal realidade mudará está morta. Pouca gente acredita que os dias de amanhã serão melhores. As perspectivas indicam dias piores em que, cada vez mais, os políticos perdem a vergonha e, portanto, ofuscam a possibilidade de se ter uma vida melhor.

As conclusões mais acadêmicas atestam que essa democracia brasileira, presente no cotidiano da nossa história, é uma pseudodemocracia. Ela representa um absurdo fracasso do desenvolvimento social integral do país. O Brasil, portanto, visto por este ângulo, não é uma comunidade nacional. E está longe de ser uma nação, de fato. Haja vista que “nação”, no seu sentido etimológico, é um povo unido por laços afetivos — ligado por uma natureza emocional étnica, que fala a mesma língua, tem os mesmos costumes, hábitos, tradições e uma mesma consciência social nacional.

A política, portanto, é exaustiva. O povo já está enojado com as atitudes políticas que regem nosso país. O pior de tudo é que estas atitudes permeiam toda a nossa vida e ainda cobram da população um preço absurdo por isso. Ou seja, além de sofrer com a pérfida administração pública, a população ainda tem de pagar caro por isso. Isto porque as leis são arbitrárias e, portanto, não respeitam a opinião e a vontade da soberania nacional: o povo.

Pelo que se percebe, por exemplo, o PSDB perdeu a batalha das ideias com o PT. E, agora, o PT acaba de perder a batalha das ideias com os seus admiradores. E o que seria uma política estruturante, acaba de perder a batalha das ideias para a corrupção. O espaço está todo dominado por fenômenos corruptos e corruptores.

De fato, os problemas políticos fundamentais da governabilidade brasileira já não dão margem ao debate ideológico. Este triunfo da democracia brasileira — a qual eu chamo de pseudodemocracia — põem fim à política interna de consciência para os intelectuais que precisam de ideologias para se sentirem estimulados à ação política.

Calamidades como os processos judiciais, os programas político-governamentais paternalistas e a opressão político-social ao povo formam uma cadeia de acontecimentos vergonhosos. Numa audiência trabalhista, por exemplo, o advogado — defendendo seu cliente oportunista — mente para o juiz e este aceita. E ambos olham para o empresário com cara de ódio, como se estivessem com ódio simplesmente pelo fato de ele ser empresário. Numa audiência de separação conjugal, o odiado é o pai de família que passa ser humilhado por estar desempregado, vivendo de bico. Enquanto isso, os programas de governo “formam” preguiçosos e delinquentes sociais, conformados em receberem migalhas para não trabalharem e nem estudarem. Por conseguinte, o governo oprime as pessoas com seus impostos, negação aos direitos sociais e com sua pungente maneira de governar.

Finalmente, é o fim do pensar ideológico e a morte da consciência social. As novas realidades políticas e econômicas vão sempre trilhar pelo velho viés de que os fins justificam os meios e, assim, legitimar o “assassinato” da esperança no coração e na mente da soberania nacional.

Publicado por: Battista Soarez | março 12, 2014

A CURA DA ALMA

A PSIQUIATRIA DO SENHOR NO SALMO 23

A imanência do consolo de Deus em momentos de erros, turbulência e aflição

Amor_Sonhos

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NO ANO PASSADO, em 2013, lancei o livro E assim o amor acontece: um diálogo puro e aberto sobre amor e sexo no ambiente da espiritualidade (Visão Global Editora/Arte Editorial, SP). Depois de conceder várias entrevistas nas quais sempre expliquei que se tratava de uma revisão ampliada do meu livro E os jovens se atraem (Edições Ame, SL, 1997), recebi dezenas de ligações de pessoas que estavam sofrendo algum problema na esfera sentimental.

Lembro de que um dia, depois de dar uma entrevista na rádio 92 FM, de São Luís, uma moça de 31 anos me ligou.

— Pastor — disse ela do outro lado da linha — preciso da sua ajuda. Meu marido foi embora de casa. Me trocou por uma garota de 18 anos. Eu estou sozinha com a minha filha de 9 anos. É muito ruim, pastor. Além disso, estou desempregada. E ele não me ajuda em nada, pastor.

— O que aconteceu, irmã? Por que vocês se separaram? — eu quis saber.

— Não sei, pastor. A única coisa que ele me disse foi que a garota era virgem. E eu não sou mais virgem. Estou me sentindo um lixo, pastor. Me ajude. Por favor.

— O que, irmã? Qual foi mesmo a justificativa que ele deu?

— Pois é, pastor. Ele disse que a garota era virgem. E eu não sou mais virgem.

— E o que você disse a ele?

— Disse apenas que quando ele me conheceu, eu também era virgem. E que perdi a virgindade com ele.

— O seu pastor já sabe disso?

— Sabe. Eu tenho dito tudo para ele. Ele acompanhou tudo.

— Além de orar, claro, o que ele disse para você?

— Que eu deva continuar orando e me humilhando para Deus e para o meu marido, para que ele volte. E estou fazendo conforme ele me instruiu.

— Quanto tempo faz isso, minha irmã?

— Já faz mais de um ano — afirmou ela.

— E o problema ainda não foi resolvido?

— Não, pastor. Cada vez mais me sinto arrasada, ferida, humilhada, triste e deprimida. Não estou conseguindo superar, pastor. Acredite.

— Minha irmã — disse eu a ela, depois de pensar por alguns segundos, buscando, em Deus, uma resposta coerente — Deus não é canalha. E por Ele não ser canalha, Ele não concorda com nenhum tipo de canalhice. Não seja cobaia de canalha nenhum, irmã. Não há razão para isso. Em lugar nenhum está escrito isso.

— Mas o meu pastor disse que Deus não aceita separação e divórcio.

— Claro, irmã. Deus não aceita e eu também não aceito. Mas desde que não haja canalhice pelo meio. Porque Deus não é canalha. E nem você é idiota. Nem deve ser idiota.

Aquela mulher estava vivendo uma situação de abandono, solidão e falta de tudo. Perdeu o marido. Estava desempregada. Triste e solitária. O sentimento de abandono e solidão pode nos levar a profunda depressão. Ou seja, pode nos levar a um estado mental caracterizado por tristeza, desespero e desestímulo quanto a qualquer atividade. O deprimido não tem prazer para nada na vida. A pessoa fica desorganizada, a casa fica suja, o carro vai se deteriorando. O indivíduo não tem nenhum prazer de arrumar nada. Nem de tomar banho. Foi o que percebi ao visitar a casa daquela mulher. Então, iniciamos uma terapia de apoio psicológico pastoral, em que utilizamos técnicas de aconselhamento espiritual.

— Irmã — disse eu — é óbvio que você acredita no que a Bíblia diz, não é? Senão não teria sentido ser cristã.

— Sim, pastor. Eu creio. Claro que creio. Creio sim.

— Muito bem. Então, vamos ler o Salmo 23. Ele é muito lido. E acho que você o lê constantemente. Não é verdade?

­— Claro. Eu o leio sempre.

— Certo! Só que desta vez você vai lê-lo de maneira diferente, devagar e meditativamente. Em vez de lê-lo simplesmente por ler, você vai lê-lo sob efeito de outra perspectiva. Com calma e assimilação. Você vai escutar a voz real de Deus nele. Certo?

— Sim, pastor. Aceito.

A terapia presente no Salmo 23

Primeiramente, fiz aquela mulher assimilar firme e serenamente que ela era crente em Jesus. Logo ela pertence ao Senhor. Também fiz ela entender, definitivamente, que ela é propriedade exclusiva de Deus (1Pedro 2.9). E, finalmente, levei ela entender que o Salmo 23 é uma das passagens mais consoladoras e conhecidas da Bíblia Sagrada. O texto é forte. E quando olhamos para o seu conteúdo, costumamos ver apenas a promessa nele contida. Deixando, assim, a condição de lado. O Senhor é o meu pastor; nada me faltará é uma expressão que, levada a sério no íntimo de nossa relação com Deus, nos remete a um momento de aflição e, ao mesmo tempo, de acalento.

1. “O Senhor é o meu pastor”. Aqui, a proposta inicial é um olhar para a condição. Tudo se inicia com o fato de a pessoa permitir que o Senhor seja, de fato e de verdade, o seu absoluto Pastor. Quando Davi disse “O Senhor é meu pastor”, ele estava sincera e verdadeiramente permitindo, convocando e se entregando — na condição de ovelha — à situação de o Senhor ser o seu Pastor. Significa, portanto, a condição de deixarmos que Ele seja o nosso Pastor. O pastor é aquele que se dedica em domesticar, guardar e alimentar animais, principalmente as ovelhas. Portanto ele cuida, alimenta e trata das ovelhas com o devido cuidado.

2. “Nada me faltará”. Depois de condicionados ao fato de sermos ovelhas do Senhor — de maneira que Ele seja, de fato, o nosso Pastor — aí, sim, nada nos faltará. A questão central aqui é um princípio, isto é, o princípio da condicionalidade: o Senhor sendo “o meu pastor”, logo, “nada me faltará”. Isto quer dizer que o Senhor não pode ser pastor de quem não aceita mental e praticamente esta condição. Mas se eu aceitei tal condição, então, agora, Ele é o meu Pastor. E se Ele é o meu Pastor, então Ele cuida de mim e, assim, não me faltarão:

a)      a oportunidade de aprender — porque o meu Pastor me ensinou a aprender;

b)      a oportunidade de plantar — porque eu aprendi a plantar aquilo que o meu Pastor, o Senhor, me ensinou;

c)      a oportunidade de colher — porque eu plantei aquilo que, com o Pastor, eu aprendi a plantar;

d)     a oportunidade de comemorar — porque o meu Pastor gerou em mim a alegria para eu me alegrar e fazer o banquete com o fruto daquilo que eu plantei.

Depois de refletir comigo sobre o Salmo 23, aquela irmã — abandonada pelo marido, que a trocou por uma mocinha virgem, de 18 anos — aprendeu que ser ovelha do Pastor, o Senhor, é assumir que, agora, ela vive sob os cuidados do Senhor, que é o Pastor! Ela absorveu a mensagem e entendeu que nada mais iria lhe faltar. Não faltarão as oportunidades e nem o aprendizado para que ela possa perceber o momento das oportunidades, o momento em que elas chegam em sendo dádivas do Senhor, o Pastor. Ela, então, entendeu que as promessas do Salmo 23 são lindas e, também, são verdadeiras. Mas que precisava de alguém no caminho para lhe conduzir à assimilação e ao aprendizado.

— Nossa, pastor! — sussurrou ela, depois de algum tempo, quando já tinha superado todo o momento de dor. — Faz uma enorme diferença quando alguém leva a gente entender o significado da Bíblia por um outro ângulo.

— E este outro ângulo, irmã — intervi — é interiorizar a certeza (a fé convicta) de que este SENHOR é uma pessoa real. E em sendo real, Ele cuida pessoalmente daqueles que são ovelhas do Senhor, que são propriedade exclusiva de Deus. Ninguém toca naquilo que é propriedade exclusiva de Deus, o Pastor Senhor.

3. “Deitar-me faz em verdes pastos”. Nos dias de Davi, o pastor beduíno cuidava muito bem das ovelhas. A atividade pastoril era muito importante e requeria dedicada responsabilidade. Davi tinha ciência disto. Por isso escreveu este salmo. Pasto é “pastoreio”, lugar onde o pastor trata das ovelhas, para que elas se sintam alimentadas e seguras. E por que as ovelhas, no pastoreio, se sentem seguras? Obviamente, é porque, no pastoreio, o pastor está sempre por perto, vigiando-as para que elas nunca se dispersem. “Verdes pastos” expressam um pastoreio robusto, isto é, um lugar de muito vigor, virtudes e agradabilidade. Logo, o texto está falando de um ambiente tranquilo, onde o entendimento entre pastor e ovelha é absolutamente adequado para aliviar ou curar dores e mágoas. Pastor que não consegue tratar e aliviar as dores das ovelhas não é pastor coisa nenhuma. Pastor que não proporciona um ambiente tranquilo e saudável para as ovelhas, é mais impostor do que pastor. Davi disse: “o Senhor é o meu pastor…; Ele me faz repousar em pastos verdejantes”. Ou seja, Ele, o Pastor Senhor, me faz descansar [ou relaxar] em ambiente de muita robustez, de muito vigor, saudável, tranquilo, de força e vitalidade. Nele e com Ele eu me sinto seguro.

4. Guia-me mansamente a águas tranquilas. Para entender o significado e a importância desta expressão, é preciso considerar as palavras “mansamente” e “águas tranquilas”. No contexto bíblico, a palavra “mansamente” denota sensatez, cordialidade, ausência de arrogância e estupidez. “Águas tranquilas” são palavras sem rumores de acusação. Há líderes cujas palavras são verdadeiros ferrões. Mas Davi está dizendo que o Pastor Senhor o conduz “mansamente a águas tranquilas”. Isto quer dizer que o pastor trata a ovelha ferida com palavras mansas, palavras de orientação segura, edificante e consoladora. O pastor não pode ser ríspido nas suas palavras. Precisa ser ponderado. A palavra aconselhamento dá um sentido literário de “acolhimento”, isto é, acolhimento com palavras e nas palavras. Palavras de sabedoria e sensatez, é claro. A pessoa com problema já está ferida pela situação. Portanto, ela não está precisando de palavras duras, do tipo:

a)      “você está em pecado” — a pessoa que errou já sabe disso, ela quer ouvir é uma palavra de como resolver a situação gerada;

b)      “você precisa se humilhar para Deus” — ela já está humilhada, ferida, machucada pela própria situação; em Deus não há sadismo (tendência de uma pessoa que busca sentir prazer em impor o sofrimento físico e moral a outra pessoa), nem masoquismo (tendência em uma pessoa que busca sentir prazer em receber o sofrimento físico e moral de outra pessoa); o fato de, por vezes, o cristão sofrer não quer dizer que Deus seja sádico; e o fato de Jesus ter se dado ao sofrimento, não significa que Deus seja masoquista; o cristão sofre porque há situações em que o homem só aprende pela disciplina do sofrimento; Jesus sofreu simplesmente para evitar que a alma humana sofresse por toda a eternidade;

c)      “você é desobediente” — não é o caso; a pessoa só caiu, cometeu um ato falho; isto quer dizer que ela é um ser humano, revestida de humanidade; seres humanos erram; nos humanos, erros e acertos são o equilíbrio; tem alguma coisa que a levou a cair; procure essa coisa e trate dela; você está em pé é para isso;

d)     “você tem demônio” — nem sempre quem erra tem demônio; e se tiver, expulse-o pelo poder do nome de Jesus; é para isto que você está revestido da palavra de Deus; foi para isto que você nasceu de novo; todo ser revestido de humanidade está propenso ao erro, mas também pode acertar;

e)      “você é um fraco” — ore por ela e com ela; a Bíblia orienta a sermos tolerantes com os fracos na fé e orar por eles.

— Pastor, o que eu faço? Como eu faço? — perguntou, certa vez, a irmã abandonada.

— Apenas siga a palavra mansa do Pastor, no ato de Ele lhe conduzir a águas tranquilas — respondi. — Não desperdice as oportunidades. Esteja atenta ao momento em que elas aparecerem. Seja perceptiva ao agir do Senhor, o Pastor. Permita Ele ser o seu pastor de fato. Ele está cuidando mansamente de você.

Ela me olhou por um pouco, desviando o olhar em seguida.

— O fato de você estar separada, abandonada — continuei — já é um sinal libertador, um sinal do “agir” condutor [mansamente] do Pastor Senhor. Pode ser que o Senhor, o Pastor, esteja libertando você das “garras” de um canalha e lhe conduzindo a um ambiente novo, de calmaria, alívio e conforto. A situação de dor pela qual você está passando não é dor coisa nenhuma, mas uma situação de aprendizagem emocional, moral e psicológica.

Aí ela chorou. Pôs as duas mãos no rosto, abaixando a cabeça enquanto continuava chorando.

— Chore, minha irmã — disse eu. — Que essas lágrimas que estão saindo dos seus olhos, agora, possam lavar toda dor da sua alma. Que elas possam lavar toda trave, toda sujeira do seu olhar espiritual, dando lugar à verdadeira alegria do Espírito no seu espírito. Logo tudo ficará claro. Logo virá o refrigério. Fique tranquila!

Eu esperei ela terminar de chorar. E sabe o que ela me disse depois que terminou de chorar? Veja:

— Sabe, pastor. Preciso lhe dizer algo. Eu convivo com esse homem há 13 anos. Ele nunca quis casar comigo. Gerou em mim uma filha, mas nunca quis resolver nossa situação conjugal. Mesmo assim, ele nunca falou em separação, pastor. Mas, agora, depois que aceitei a Jesus como meu Senhor e Salvador, ele fez isso comigo. Foi trabalhar no interior, procurou uma garota virgem e simplesmente me ligou dizendo que não viria mais para casa. Aí, foi como se o mundo desabasse sobre a minha cabeça. Eu choro todos os dias, pastor.

— Não falei que o Pastor Senhor resolve tudo? Ele está tirando de você aquilo que não é seu. Ele está guiando você mansamente a águas tranquilas. Está tirando você das garras de um predador e lhe conduzindo a redil seguro, de serenidade e paz.

5. Refrigera a minha alma. Quando passamos por turbulências, as faculdades da alma são as que mais sofrem. Chega ao ponto de a dor da alma se transformar em dor física. No Salmo 32 (v. 3), Davi admite que enquanto calou o seu pecado, envelheceram-se os seus ossos pelo bramido da sua alma em todo o dia. O sentimento de culpa lhe abatia de dia e de noite. A culpa afeta bruscamente nossas estruturas emocionais, psíquicas, físicas e espirituais. Causa doenças no corpo, na alma e no espírito. O complexo de culpa pode causar leucemia, diabetes, doenças no fígado e no estômago. Também pode, com o tempo, causar distúrbios mentais de várias maneiras, impotência sexual e outros danos existenciais. E ainda provoca uma turvação no sentido da vida. Faz-nos perder o foco de tudo. E nos cega perante as oportunidades. A culpa, enfim, é uma profunda dor moral e na alma. E Davi viveu tal situação. Em meio à turbulência da culpa, ele disse: “o meu humor se tornou em sequidão de estio” [verão] (Salmo 32.4b). Sua fisionomia só expressava angústia e tristeza. Sua face ficou envelhecida. Seu sorriso fechou-se. Seu olhar não conseguia mais focar o alto, muito menos o Altíssimo. E, envergonhado, Davi só conseguia olhar para o chão. O pecado (agente da culpa) causa uma vergonha desgraçada na alma, um obscurecimento espiritual sem tamanho. Qualquer psicólogo ou pastor experiente conseguem perceber isso. E é aí que a alma precisa de refrigério. E sabe qual foi o remédio para a dor moral de Davi? No Salmo 32.5, ele explica: “Confessei-te o meu pecado e a minha maldade não encobri (…); e tu perdoaste a maldade do meu pecado”. No versículo 7, ele conclui: “Tu és o lugar em que me escondo; tu me preservas da angústia; tu me cinges de alegres cantos de livramento”. Aí, a alma de Davi se encheu de refrigério e ele, então, superou toda aquela dor.

Depois de algum tempo — aproximadamente uns cinco meses — a irmã abandonada pelo marido me ligou, dizendo:

— Alô! Pastor! Boa noite! Quero lhe dizer que “caiu a ficha”.

— Como assim, irmã?

— Segui as suas orientações, pastor. Li o Salmo 23 muitas vezes. Depois, fui me aprofundando noutros textos da Bíblia. Integrei-me na igreja. E agora sinto uma profunda alegria na minha alma. Já faço parte do grupo de oração. Agora estou fazendo teatro com um grupo de jovens. Pastor, não sei como explicar. Mas a intimidade que o senhor falou para eu buscar em Deus eu fiz. Agora não sinto tristeza nenhuma. Parece que eu nunca vivi aquela situação. Não sinto raiva do meu ex-marido. Pelo contrário, oro por ele, para que ele encontre, em Deus, a mesma paz que estou sentindo agora.

6. “Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome”. A justiça de Deus é sempre defesa. Defesa do seu povo. Defesa daquele a quem ele ama. Há um velho ditado popular que diz: “Deus é amor, mas também é justiça”. Não é isto que o Salmo 23 nos assegura. Ele diz (v. 3b): “Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome”. No Antigo Testamento, em que a palavra “justiça” é “defesa”, a expressão veredas da justiça quer dizer uma caminho seguro sob a proteção (ou defesa) de Deus. Em seguida, ele acrescenta à palavra justiça a expressão por amor do seu nome. Logo, a justiça de Deus não pode ser contrária ao amor dele. Pelo contrário, a justiça de Deus é um princípio fundamentado no amor dele. Porque Ele [o Pastor Senhor] nos ama, guia-nos por caminhos seguros, onde caminhamos sub sua proteção e guarda fiel.

— Irmã — disse eu à mulher desprezada pelo marido, depois de oito meses de aconselhamento pastoral — Deus lhe deu um livramento seguro. Você, talvez, iria passar por um vexame ainda pior. Um vexame bem mais doloroso. A justiça dele agiu em seu favor. O amor dele a abraçou. E, agora, você está sendo alicerçada no Espírito para fazer a vontade do Senhor numa dimensão bem maior.

— Eu acredito, pastor. Quase toda noite sonho sendo batizada no Espírito Santo. E sei que o Senhor tem, mais á frente, um marido ideal para mim, segundo sua maravilhosa e perfeita vontade.

— Que bom que você tem essa compreensão, irmã. Deus a abençoe. Certamente a vontade do Senhor, o Pastor, será feita em sua vida.

7. “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam”. Diz-se que, nos tempos de Davi, o trajeto entre o lugar de pastagem das ovelhas e o riacho de água fria — aonde elas iam beber todos os dias — era uma região montanhosa, íngreme e, portanto, perigosa. Era um trajeto que ia do Mar Morto ao Rio Jordão, passando por um pedaço de mato onde tinha uma ribanceira bem à beira do caminho. Lá embaixo, tinham muitas feras que — sabendo que era certa a passagem das ovelhas por ali — diariamente, sempre por volta do meio dia, ficavam escondidas no local à espera de que alguma ovelha caísse para que pudessem devorá-la. Ao passar por ali, o pastor beduíno ficava atento, pois era comum alguma das ovelhas cair lá embaixo e ser tragada por algum leão, onça e outras feras. Por isso, aquele lugar era chamado de “vale da sombra da morte”. O pastor, normalmente, se punha à frente das ovelhas para que elas o seguissem. Mas, ao chegar àquele local, o pastor mudava de posição. Colocava as ovelhas à sua frente para que tivesse melhor visão de cada uma delas. Ele andava sempre com o cajado e vara. O cajado tinha três metros de cumprimento e a ponta enrolada em forma de meio arco. Já a vara era um pedaço de madeira roliço, maciço e medindo dois metros de cumprimento. Assim, quando uma ovelha caía ribanceira abaixo, ele conseguia perceber imediatamente. As feras logo se aproximavam. Mas o pastor beduíno era rápido em socorrer a ovelha caída: com a vara, ele batia na cabeça do animal feroz, o qual se afastava para longe; e com o cajado, ele laçava rapidamente a ovelha ao meio, mais ou menos na região do tórax, e a puxava de volta para o caminho. Assim a viagem prosseguia até à fonte de água fresca.

— Pastor, apesar de sentir carência de ter um homem ao meu lado, para suprir minhas necessidades afetivas, alegra-me em esperar no Senhor. Sei que a sua Palavra e a vontade de cada vez mais crescer nele e para Ele me consolam. A certeza de que Ele é o meu pastor me alegra e me faz esperar.

8. Preparas uma mesa para mim na presença dos meus inimigos. Davi era muito perseguido, invejado e havia muita gente que não gostava dele. O próprio Saul, enquanto viveu, o perseguia. Queria matá-lo. Enquanto isto, Davi lutava usando as estratégias espirituais fundamentadas em Deus: humildade, intimidade, louvor, adoração e oração intensiva. Com isso, ele obtinha vitórias sobre todas as lutas. Entre a sequência de vitórias, incluía o reconhecimento dos inimigos. Aí era feito um banquete em que eles, os inimigos, participavam. Davi, então, era exaltado perante seus adversários.

9. Unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda. Diz-se que, na antiga cultura oriental, era costume entre os sacerdotes ungir os convidados de um banquete com óleo. Este óleo era aromático e exalava um cheiro muito agradável. Também era esperado que os anfitriões protegessem seus convidados a qualquer custo ou em qualquer situação. Ao fazer esta analogia, Davi está dizendo que o Pastor Senhor oferece sua proteção aos seus servos, mesmo quando este está cercado de inimigos. Ele nos guarda dos inimigos, de maneira que ficamos seguros e nenhuma ação maligna nos atingirá.

— Pastor — disse-me a irmã abandonada pelo marido — todos os irmãos da igreja gostam de mim e me ajudam. Parece que o Senhor move o coração deles para me abençoarem. Sinto-me totalmente protegida, pastor. Estou completamente curada.

10. Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida. O cristão que se permite ser pastoreado pelo Senhor tem o seu coração quebrantado. Ele se torna uma pessoa bondosa, misericordiosa e amável. Sua transformação é completa, inteiriça e duradoura. A bondade do Senhor move o coração dele por toda a vida.

— Cada vez mais, pastor, sinto a vontade de fazer a obra de Deus. O meu coração se enche de alegria, sempre que estou evangelizando.

Aquela mulher, hoje, faz parte de um grupo de evangelização da sua igreja. Todos os sábados ela se encontra evangelizando nos sinais de trânsito em algum ponto da cidade: na praia, nas avenidas e outros. Recentemente, ela foi suprida com um emprego numa rede hospitalar nacional. Agora, ela tem seu sustento proveniente do seu próprio trabalho.

11. E habitarei Casa do Senhor por longos dias. E se a pessoa continuar na condição de ovelha, permitindo que o Senhor seja o seu Pastor, habitará com Deus para sempre. Ele, o perfeito Pastor e anfitrião, prometeu guiar-nos e proteger-nos ao longo de nossa vida e conduzir-nos á sua morada eterna.

A condição de ovelha e seu significado na psicologia bíblica

Ovelha é um animal que enxerga apenas oito metros de distância. Ela é míope. Tem cerca de 7,5 graus de miopia. Isso a torna um animal vulnerável a predadores. Na igreja, há aquelas ovelhas do Senhor que não enxergam muito bem. Umas porque não querem enxergar. Outras porque têm um conhecimento raso da palavra de Deus. E ainda outras porque nunca se permitiram receberem a visão de Deus. Por isso, às vezes fazem escolhas erradas. E, no geral, escolhemos com base naquilo que enxergamos.

Samuel era um profeta do Senhor, mas, em certo momento do seu ministério, ousou fazer escolhas erradas. Ao ver, por exemplo, o primogênito da casa de Jessé, logo pensou: certamente estamos de frente com o ungido do Senhor. Na sua visão humana, se baseou na bela aparência do rapaz. E não conseguiu ver, de imediato, a capacidade do filho caçula. Outras vezes caímos em ciladas malignas porque não conseguimos ver o mal que nos cerca. Aí precisamos ser direcionados pelo pastor, para nossa segurança e proteção.

1. Ovelhas ouvem a voz do pastor. Por não enxergarem bem, as ovelhas são recompensadas com uma audição peculiar. Elas conseguem discernir bem a voz de seu pastor. Na igreja de Jesus, a exemplo da ovelha, é necessário saber ouvir melhor a palavra de Deus. Saber diferenciar a voz do nosso Pastor Senhor. Estando atentos à voz do verdadeiro Pastor, podemos estar livres das muitas vozes que são direcionadas contra nós. Vozes de falsos pastores. Vozes de acusadores. Vozes de falsos amigos. E tantas outras vozes que causam confusão e podem os tirar do foco.

2. As ovelhas seguem o pastor. Normalmente, por não enxergarem bem e terem uma boa audição, as ovelhas andam atrás do pastor. Usando a voz, o pastor vai na frente guiando o rebanho até o alimento ou ao lugar seguro. Na igreja de Jesus Cristo, as ovelhas que ouvem bem a voz do Pastor Senhor, pelo aprendizado da palavra, mantêm-se imunes de ataques malignos. Quando permitimos que Jesus ande à nossa frente, nunca erramos o caminho, embora no caminho não estejamos propenso a erros. Mas a boa ovelha sabe que no caminho a gente pode errar, cometer atos falhos, mas jamais podemos errar o caminho.

3. As ovelhas vivem sempre juntas. Por questão de segurança, as ovelhas andam sempre próximas umas das outras. Pessoas que são ovelhas na igreja, são fáceis de serem reconhecidas. Elas não têm problemas de ficarem próximas umas das outras, em saudável relacionamento e harmonia. Não se isolam, não alimentam orgulho besta no coração, evitam fofocas e não ficam de atrito entre si. As ovelhas que não ficam juntas uma das outras, se tornam vulneráveis ao ataque do mal.

4. As ovelhas aceitam disciplina. Disciplina é ensino, orientação, correção. Uma das características mais comuns nas ovelhas é que quando elas são levadas ao abate, diferentes dos outros animais, elas são silenciosas. Mesmo na hora do sacrifício, elas se mantêm caladas, como se aceitando tudo sem dizer nada. Na igreja sempre há aquela pessoa que aceita correção, ensino, disciplina. Ela não murmura e se sacrifica em favor do Reino, porque sabe que na sua administração aquele Pastor Senhor em que ela pode confiar, que o guarda e o livra.

5. Ovelhas se adaptam facilmente a qualquer ambiente. A espécie ovelha existe em todas as partes do mundo. Está presente nos cinco continentes. Quer em vales ou em regiões montanhosas, a ovelha se adapta facilmente. Quer em regiões de deserto ou em lugares de climas temperados, as ovelhas conseguem viver. No reino de Deus, aqueles que aceitam o desafio de serem ovelhas do Pastor Senhor, também serão levados, por amor ao evangelho, a diferentes lugares do mundo, se adaptando a diferentes climas e situações transculturais. A ovelha humana que ama o seu Pastor Senhor, não rejeita o chamado. Vai a qualquer lugar: de frio ou de calor, de cidade ou povoado, de vilarejo ou de campo, de agrovilas ou de matagal. Ela não reclama e, ainda, agradece pela vida que o Criador lhe deu, pela oportunidade de poder estar seguindo ao Pastor, de poder estar servindo a Ele. Podem até ter dias difíceis, sol quente ou chuvas torrenciais, mas aquele que tem consciência de que é ovelha do Senhor e de que Ele é o seu Pastor, vai e faz o serviço do mesmo jeito. Nos dias agradáveis, louvam e agradecem a Deus. Nos dias difíceis, oram e buscam a face do Altíssimo. Para a ovelha fiel, as montanhas da vida são lugares ambientados de adoração e louvor, os dias turbulentos são momentos de oportunidades e ação. Quem é consciente de que o Senhor é o seu Pastor, em nenhum momento deixa de ser ovelha.

6. Ovelhas preferem solos de planície e depressão. As ovelhas preferem lugares de planície e depressão alongada porque, normalmente, são lugares onde existe rios, riachos e ribeirões. Assim, em volta às pastagens, elas podem encontrar facilmente água fresca para beber. Além disso, a ovelha consegue reproduzir melhor em climas temperados que há nos solos baixos. Ali, os alimentos são melhores. No aprisco de Deus, as ovelhas são as pessoas que passaram pela experiência do novo nascimento. E quem passou por esta experiência, gosta de se alimentar da palavra de Deus. Gosta de estudar e ouvir a palavra da sabedoria. Quanto mais profundo o ensino, mais ela muda de vida, mais ele cresce na graça e no conhecimento. Aí, ela se torna uma pessoal espiritual e sólida. Quem nasceu em Cristo, é ovelha de Jesus, pastoreada por ele, e gosta de se alimenta da palavra que realmente sai da boca do Senhor: palavra profunda, temperada e cheia do poder de transformação.

— Pastor — disse a irmã que ilustra este artigo — eu comecei a ler o Salmo 23, passei para outros pontos da Bíblia e, agora, sinto um desejo profundo de servir a Deus.

7. Ovelhas ruminam o alimento absorvido no pasto. As ovelhas pertencem à classificação de animais ruminantes. Os animais ruminantes são caracterizados por um estômago com quatro compartimentos. As quatro partes são o rúmen, o retículo, o omaso e abomaso. Diz-se que os ruminantes têm quatro estômagos. Mas, na verdade, o seu “estômago” tem quatro partes. Então, vamos considerar que as ovelhas têm “quatro” estômagos e, portanto, comportamento “ruminar-mascar”. Isto quer dizer que as ovelhas vivem sempre mascando. Vale explicar que a ruminação é um bolo alimentar que foi regurgitado. As ovelhas, no pastor, engolem gramíneas e ervas, armazenando-as no sistema rúmen, que ocupa uma grande porcentagem da cavidade abdominal do animal ruminante. Na hora do repouso, a ovelha regurgita e mastiga novamente os alimentos que voltam do estômago à boca. Ovelhas pertencem ao grupo de animais herbívoros e pastadores. Mas são mais herbívoras que pastadores. A orientação dos especialistas é de que tudo entra pela boca: saúde, vigor, doenças, lucros e prejuízos. Então, eles dizem, é preciso estar sempre atento ao que desce pela garganta das ovelhas. No aprisco de Deus, as ovelhas humanas precisam saber do que estão se alimentando, para se livrarem de enfermidades espirituais no seu processo de crescimento também espiritual. A exemplo das ovelhas ruminantes, as ovelhas do Senhor têm a “memória-rúmen”. Isto quer dizer que devem guardar os ensinamentos do Pastor Senhor para, depois, ficarem mastigando, mastigando, mastigando até chegarem à maturidade espiritual. A vida espiritual adulta é aquela que não dar trabalho na igreja. Em vez disto, ela trabalha, ganha outras ovelhas para o Reino e faz outros crentes crescerem na fé. Grandes problemas na caminhada cristã poderiam ser evitados se as ovelhas forem bem alimentadas e devidamente tratadas “gramíneas” e “ervas” nutritivas e saudáveis espiritualmente. Ovelhas que são bem tratadas espiritualmente, não são egocêntricas. Um bom discipulado pode prevenir várias doenças espirituais no crescimento cristão.

Conclusão: a psiquiatria do Senhor aplicada à cura da alma

O Salmo 23 é um texto de remédios de eficácia comprovada para as enfermidades da alma e do espírito. Assim como uma prescrição médica pode ser aviada nas drogarias, também estas “receitas” podem ser levadas ao consultório divino, que está sempre aberto para todos de alma abatida, machucada e cansada.

Deus, o maior psiquiatra das nossas almas, nos convida chegar até Ele e receber consulta gratuita. O tratamento é simples:

a)      Um retorno à fé;

b)      Permitir que o Senhor seja o seu Pastor;

c)      Buscar intimidade nele e com Ele;

d)     Abrir o jogo sobre seus traumas, decepções e problemas específicos;

e)      Manter sempre leitura cuidadosa, feita com meditação e em espírito de oração, do Salmo 23, dos Dez Mandamentos, do Pai Nosso e das Bem-Aventuranças.

f)       Fazer exercícios: físicos, mentais, espirituais e emocionais.

São exercícios simples mas que requerem disciplinas. Em vez de você se empanturrar de sedativos, antibióticos e analgésicos, consulte a Deus e busque o sentido da vida nele. É isto que o Salmo 23 propõe.

A palavra psiquiatria resulta da junção de dois vocábulos gregos: psyche e iatreia. Juntas, formam o vocábulo composto psyche-iatreia. A palavra psyche significa pessoa, mas também pode ser traduzida como fôlego, alma, mente, razão, etc. O termo iatreia significa tratamento, cura, restauração, etc. Unindo as duas palavras, temos: a cura da mente ou, como disse o rei Davi, a restauração da alma.

Então, psiquiatria significa tratamento médico ou tratamento levado a efeito por um médico. Mas pode ter outros significados também. Pensando bem, a psiquiatria não deve ser limitada apenas à ciência médica. Muitas vezes, um ministro do evangelho tem que ser um verdadeiro psiquiatra, ao lidar não apenas com a mente das pessoas, mas com a sua alma.

Por conseguinte, a função essencial da vida cristã é conseguir um perfeito equilíbrio e/ou ajustamento entre a mente e a alma humana. O Santo Agostinho dizia: “Minha alma está inquieta, e sempre estará, enquanto não encontrar seu repouso em ti, ó Deus”. Davi disse: “Refrigera a minha alma” (Salmo 23.3).

Davi, na condição de ovelha do Senhor, parece estar sugerindo que curar a alma significa levar a ovelha ou o paciente a um entrosamento correto com as leis físicas, mentais e espirituais de Deus.

Um psiquiatra é uma espécie de ministro da parte de Deus. Todas as verdadeiras pesquisas científicas são, na realidade, esforços organizados para se conhecer as leis de Deus, e descobrir como é que elas funcionam.

Um pastor de igreja é um ministro de Deus que aprende a lidar com leis e princípios espirituais. Ele sabe como as coisas funcionam no que concerne a isto. Quem ensina também é um ministro de Deus. A tarefa do professor é simplesmente treinar a mente do aluno para este aprenda. Toda mente que raciocina erradamente é uma mente enferma. Então, o que um pastor-conselheiro faz realmente é aplicar aos seus aconselhandos os benefícios de uma parte da vasta ciência que é a psiquiatria.

Entretanto, o cuidado do cristão está acima do cuidado do corpo e da mente. A tarefa do ministro do evangelho se relaciona com a alma da pessoa humana. Ele crê que se a alma estiver enferma, então todo o homem estará doente. E ele lida com o conceito que só Deus pode curar a alma ferida.

— Pastor, estou completamente feliz — gritou, ao telefone, a irmã abandonada pelo marido. — Sinto uma alegria tão profunda que não sei explicar. Tenho o maior prazer de ir à igreja, me envolver, orar, louvar e falar de Deus às pessoas. Estou emprega e vivendo super-feliz com a minha filha.

Finalmente, a terapia principal, a mais importante, é a da psiquiatria de Deus. Nela a essência está revelada em quatro das passagens mais conhecidas da Bíblia: Salmo 23, Dez Mandamentos, o Pai Nosso e as Bem-Aventuranças. Neste artigo, tratamos apenas do Salmo 23, mas os outros textos mencionados são igualmente terapêuticos.

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BATTISTA SOAREZ é autor do livro E assim o amor acontece: um diálogo puro e aberto sobre amor e sexo no ambiente da espiritualidade (Visão Global Editora/Arte Editorial, SP, 2012).

Publicado por: Battista Soarez | fevereiro 20, 2014

EMPODERAMENTO

PRECISAMOS EMPREENDER O ESPÍRITO DE EMPODERAMENTO

 Através de ações de conscientização coletiva, a comunidade se fortalece em seus direitos e capacidade de se autogerir.

Empoderamento ou empowerment, em inglês, significa uma ação coletiva desenvolvida pelos indivíduos quando participam de espaços privilegiados de decisões, de consciência social dos direitos sociais. Essa consciência ultrapassa a tomada de iniciativa individual de conhecimento e superação de uma realidade em que se encontra.

O empoderamento possibilita a aquisição da emancipação individual e também da consciência coletiva necessária para a superação da dependência social e dominação política. O empoderamento devolve poder e dignidade a quem desejar o estatuto de cidadania, e principalmente a liberdade de decidir e controlar seu próprio destino com responsabilidade e respeito ao outro.

Relacionado com isso, está o empoderamento social que é dar poder a uma comunidade, fazer com que tudo seja mais democrático, que a população em geral tenha poder, que a comunidade tenha também mais riqueza e capacidade de gestão. O empoderamento social deve ser entendido como um processo pelo qual podem acontecer transformações nas relações sociais, culturais, econômicas e de poder.

Outro tipo de empoderamento é o feminino, que é o empoderamento das mulheres, que traz uma nova concepção de poder, assumindo formas democráticas, construindo novos mecanismos de responsabilidades coletivas, de tomada de decisões e responsabilidades compartilhadas. O empoderamento feminino é também um desafio às relações patriarcais, em relação ao poder dominante do homem e a manutenção dos seus privilégios de gênero, é uma mudança na dominação tradicional dos homens sobre as mulheres, garantindo-lhes a autonomia no que se refere ao controle dos seus corpos, da sua sexualidade, do seu direito de ir e vir.

Um outro sentido para empoderamento é o seu termo em inglês, empowerment , ou delegação de autoridade, que é uma abordagem a projetos de trabalho que se baseia na delegação de poderes de decisão, autonomia e participação dos funcionários na administração das empresas.

BATTISTA SOAREZ é autor dos livros A igreja cidadã (Arte Editorial, SP, 2007) e Por uma pedagogia existencial (Arte Editorial/Visão Global Editora, SP, 2010).

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