Publicado por: Battista Soarez | setembro 3, 2015

SOCIEDADE PERDIDA

Em que se tornou a sociedade atual

Battista Soarez

battistasoarez@gmail.com

O que vou escrever aqui não é nenhuma indireta a nenhum governo ou sistema. Nem desabafo. É apenas uma reflexão. Aliás, o ano de 2015 foi o ano em que mais decidi fazer reflexões. Várias delas. Reflexões sobre a família, sobre o conceito de comunidade, sobre política, sobre a fé, sobre a igreja, sobre a sociedade, sobre o que e como ela governa. E por quem ela é governada. Enfim, foi o ano em que resolvi fazer reflexões até mesmo sobre a minha vida e a cotidianidade em que ela caminha.

No âmbito da família, muitas decepções levaram-me a tecer um outro conceito sobre as pessoas que mais amamos e, então, ousei reconstruir minha visão sobre quem, de verdade, é família e principalmente no que tange àqueles que mais nos dão trabalho e despesa. Hoje, para mim, família é aquele ou aquela que se dispõe a nos ouvir sem apontar de dedos. Sentir e chorar conosco quando mais precisamos. Entretanto, as pessoas que mais dependem de nós são as que mais nos decepcionam e nos entristecem.

Em relação ao conceito de comunidade, entendo que as coisas estão bem diferentes dos dias de Émile Durkheim, quando o cientista criou o conceito de coesão e solidariedade. Ele dizia que a comunidade, inclusive a religião, era um sistema de forças que tinha a função de criar coesão social. Lançou olhar sobre as estruturas sociais e o comportamento individual. Um olhar honesto sobre a realidade atual nos leva a rever tudo o que acreditamos ser realmente comunidade (ou “comum-unidade”).

Sobre política, as ideologias primam apenas por interesses individuais e os eleitos constituem-se simplesmente um grupo dominante sobre os dominados. Nada mais que isso. Durkheim faz-me entender que a sociedade se perde sob fatos que intrigam nossas esperanças. Tristes esperanças! O cientista social faz saber que a coercitividade é a força que os fatos sociais exercem sobre os indivíduos, obrigando-os, através do constrangimento, a se conformarem com regras, normas e valores sociais vigentes. Na exterioridade, os fatos sociais são padrões exteriores aos indivíduos e independentes de sua consciência. E na generalidade, os fatos sociais são coletivos e permeiam toda a sociedade sobre a qual atuam. De um jeito ou de outro, portanto, a sociedade está perdida num universo de insensatez e opressões governamentais.

No que concerne à fé, percebo que ela só funciona direito na esteira perspicaz da espiritualidade autônoma. Aqui, o indivíduo tem mais liberdade de se relacionar com Deus, contar suas queixas a ele, sem a intermediação do homem tão pecador quanto qualquer um, ou até mais dependente de ajuda espiritual do que se pode imaginar.

No quesito igreja, meu conceito aumenta o volume da fúria porque surge, aí, uma série de perguntas que não cabe fazer aqui. Apenas digo que a Igreja invisível é a verdadeira, e a igreja visível uma ficção. O deus zombeteiro e instável dos homens vacilantes está muito aquém do verdadeiro Deus de amor do Evangelho. Cada denominação tem um “deus” de sua preferência — que lhe proporciona absoluto conforto — e cada “deus” denominacional desses dita uma teologia de normas e regras para o dono da sua denominação. Diante de tantos deuses, denominações religiosas e teologias preferenciais, sinto-me aprisionado na gaiola do medo. Medo que estremece e perturba a minha fé.

E, finalmente, no âmbito da sociedade, o meu conceito sobre ela não consegue mais ver justiça, pacificidade social, benevolência, senso de coletividade e tudo quanto diz respeito aos mecanismos estruturais dos seres humanos em seu estado gregário. Os homens que mais pregam sobre a ânsia de se ter uma sociedade justa, são os que mais nos traem com seus engodos político-sociais.

As reflexões que faço sobre mim mesmo normalmente focam sobre as coisas que eu sonhei para o mundo e, “finalmente”, nada do que pensei tem a ver com a realidade que a vida nos apresenta. Pensei que no mundo houvesse coesão social mas, por ironia do destino, parte das minhas frustrações está exatamente aí. Não há, de fato, uma garantia da existência de um conjunto de princípios que assegure os direitos que culminam em coesão. O que há é uma falsa moral ornada de regras, normas e burocracias borradas com todo tipo de injustiças. Diante de tanta pendularidade, Durkheim deve estar se remexendo no túmulo.

Enfim, a anomia tomou conta das nossas sociedades complexas e, num tom um pouco mais sociológico, há um enfraquecimento generalizado das normas que poderiam garantir uma necessária coesão social. Tudo o que o governo faz é nos punir quando não cumprimos o que é estabelecido pelos ditames da coercitividade. Mas a sociedade não tem força para punir o governo quando ele não faz o que é seu dever fazer. A sociedade está perdida!

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