Publicado por: Battista Soarez | julho 23, 2015

ENTRE A FÉ E A VIOLÊNCIA

A igreja ante a violência no Brasil

BATTISTA SOAREZ

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“Porque Deus a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos. Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e quão inescrutáveis, os seus caminhos!” (Rm 11.32,33).

O texto bíblico acima leva-nos a uma reflexão de contextura social que pode visualizar várias interpretações. Eu, por exemplo, vejo uma hermenêutica de essência sociológica entre a violência na contemporaneidade e a práxis da fé cristã. Vejamos: se a violência social é consequência substancial da desobediência generalizante de todos, a igreja é [agente] determinante funcional e principal da misericórdia de Deus para todos. Por quê? Porque, conforme o texto, a profundidade da riqueza, da sabedoria e do conhecimento do Criador está nisso. Os insondáveis juízos divinos, então, inclinam o homem social para “o” sentido de caminhos inescrutáveis. De um lado, a violência “é”. De outro, a igreja “é”. A violência “é” um mecanismo de desconstrução da ordem social. A igreja, por sua vez, “é” um determinante funcional e principal na reconstrução da ordem social. Ela pode ser, ainda, um agente de prevenção social.

Nos últimos tempos, no Brasil, a violência tem ganhado destaque em todos os meios de comunicação local, regional, nacional e mundial. Das menores às maiores cidades brasileiras, a violência campeia sem precedentes. Somente na capital maranhense São Luís, por exemplo, vem acontecendo, em média, 25 assassinatos apenas nos finais de semana, dados que as próprias autoridades do estado consideram alarmantes. E há finais de semana em que a violência passa da casa de 30 homicídios.

Durante 2014 e 2015, mais de 20 policiais já foram assassinados por bandidos armados com armas de uso exclusivo da polícia. Diariamente — quer no Maranhão quer em outras regiões do país — bandidos matam pais de família, motoristas de ônibus, transeuntes, mulheres e até crianças. Pessoas de bem que pagam com a própria vida por algo que nunca fizeram e sem sequer ter chance de defesa.

O que perguntar? O que responder?

Diante das instituições governamentais, das privadas e da igreja — face a todo esse cenário de violência no país — restam algumas perguntas para as quais a sociedade exige respostas claras e efetivas. O que está acontecendo com a segurança brasileira? É uma problematicidade política ou fator sociológico? Quem são, de fato, esses bandidos que tanto aterrorizam a sociedade? Por que eles têm sede de matar? Por que usam armas de uso exclusivo da polícia? Como têm acesso a essas armas? Por que o governo não tem êxito no combate à violência? Por que, agora, esses bandidos se voltam para matar policiais? O que está por trás dos indicadores sociais e dos descasos governamentais em relação ao aumento da criminalidade? Por que as instituições oficiais criam normas de proteção ao crime como o ECA e outras legislações correlatas? Por que a igreja não tem desempenhado o seu papel e a sua missão na horizontalidade da fé cristã em que o foco do evangelho de Jesus Cristo é o homem, pelo homem e com o homem?

Respostas a tais perguntas perpassam pela análise das instituições sociais e de seus respectivos representantes, no âmbito de complexidades contemporâneas que situam uma posição ético-política diante da problemática da violência. Se a realidade social é uma exterioridade, a violência social se revela como um chamamento ético aos modos de lidar e enfrentar a problemática da violência como estrutura de sentido imersa na própria realidade social. Se o foco do evangelho do Reino é o homem em sua integralidade espiritual, somática e sociológica a violência então se constitui matéria importante que deve mover o tecido igreja na esfera das transformações sócio-humanitárias. Por outro lado, o juridicismo que move os direitos humanos, somado a uma “visão de homem” distorcida, acaba se constituindo um estorvo nas conexões do diálogo social estruturante.

Desde que o governo democrático assumiu o comando do Brasil, compreender a violência social no país tem sido um desafio tão difícil quanto resolvê-la. Parece até que os seres violentos estão punindo a sociedade brasileira por suas escolhas e por aceitar, sempre, a ideologia política dos mandos e desmandos no país. Ou, talvez, políticas oficiais maleáveis e românticas de proteção a criminosos sejam responsáveis pelo crescente nível de violência na sociedade.

“Igreja-movimento”: desconstrução da violência

Mas, e a igreja? Onde, o que e como ela deve proceder para que seja de fato “igreja-movimento” e cumpra o seu papel de agente de transformação da realidade social face à violência no país?

A partir das temáticas de direitos humanos e de outras políticas sociais, discutir a problemática da violência social — inclusive nos cultos e nas escolas bíblicas dominicais — se tornaria, efetivamente, estratégia de desconstrução da violência e, enfim, um método importante e estratégico de inclusão social. Mas, para isto, seria extremamente necessário rever todas as políticas públicas e sociais do trato com a violência e com a educação da sociedade. Haja vista que, sem educação e sem respeito a ela, não se tem êxito nenhum contra a violência.

Violência, normalmente, é resultado de valores sociais equivocados. A igreja — como educadora da sociedade por meio dos princípios da justiça de Deus grafados na ética do evangelho de Cristo — tem a responsabilidade de reeducar a mentalidade dos atores sociais a respeito desses valores. Inconformada com os feitos fenomênicos deste mundo tenebroso (Rm 12.2a), ela deve projetar sua criatividade, tornando-se racionalmente funcional na objetividade transformadora da realidade social (Rm 12.2b). Logo, se a igreja se auto-conduzir por este prisma, a humanidade experimentará “a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2c).

Qual o instrumento de efetivação desses valores? Sem dúvida o primeiro deles é a prática educativa da igreja. Uma sociedade que não estuda e não ensina valores éticos e morais adequados, desconhece totalmente sua identidade sociocultural. E uma sociedade que desconhece sua identidade cultural, é uma sociedade violenta e de valores equivocados. De fato, é uma sociedade sem valor cultural porque, ainda, não se encontrou culturalmente, muito menos ideologicamente. Talvez a igreja deva discutir a violência a partir desta compressão.

Dialógica social: caminho de parcerias e inclusão

É interessante pensar que, para haver mudança de cenário, o Brasil — a partir de uma visível reengenharia de projetos sociais, governamentais e reestruturais — deve buscar dar visibilidade às relações entre os três segmentos que tecem as condições de sociabilidade: estado, mercado e ONGs, formando, assim, uma pluralidade de redes que possam ser a força motriz das ações de inclusão social e combate à violência. A igreja, neste ponto, é uma dos principais agentes nesse movimento de reestruturação das políticas sociais.

Como funcionaria isto? Primeiramente, é preciso romper com a política burocrática no acesso aos recursos que contemplam projetos sociais e atividades sócio-comunitárias desenvolvidas pela sociedade civil por meio de associações, fundações e outras entidades de interesse social. Segundo, dentre outras coisas, é fundamental trabalhar as questões e temáticas da violência com as autoridades governamentais, civis, militares, sociais, comunitárias, religiosas, empresariais, educacionais e intelectuais em geral. Trata-se de uma diversidade de redes sociais unificadas em torno de um só propósito: reeducação da sociedade no combate à violência.

A unicidade harmoniosa e pacificadora de pessoas comuns, bem como de familiares, agentes penitenciários, policiais civis, militares e federais, técnicos das áreas da psicologia e da sociologia, operadores do direito, educadores, diretores de escolas públicas e privadas, igrejas, representantes do governo e das instituições privadas poderá ser a única estratégia eficaz para que a violência entre numa escala regressiva e de descontinuidade. A igreja é um parceiro fundamental porque ela tem força espiritual. E a violência é, também, uma questão espiritual. E mais: é uma questão espiritual de alta complexidade.

Não é possível avançar em qualquer política nesse sentido, sem possibilitar e promover o diálogo social, o qual parece ser condição sine qua non para mudar os rumos dos atuais fatores sociais. Isto envolve conhecimento por parte de internos e egressos do sistema penitenciário e seus familiares. O que os anseios da sociedade almejam não é somente possibilitar pensar na redução de suas vulnerabilidades pessoais, mas a sua própria inclusão nos movimentos de reivindicação e reintegração do tecido de sociabilidade como caminho de inclusão social e combate à violência.

Corrupção: um enxerto de violência social

A sociedade, que é a mais afetada pela violência, deve estar inserida em todos os diálogos sociais. Do jeito que o cenário social se encontra, não é suficiente eleger políticos como representantes do povo, se eles nada fazem pela paz social. Até porque não é mais confiável elegê-los, dado o volume de corrupção entranhado nas instituições políticas. A corrupção também é um tipo de violência que precisa ser combatido pela participação popular junto ao governo. E o governo precisa governar levando em conta o respeito à opinião do povo.

Em indivíduos e grupos humanos, num pensar mais sociológico, a violência surge como uma construção coercitiva que visa a sujeição. Nem a violência nem o poder são fenômenos naturais, isto é, uma manifestação do processo vital. Na verdade, eles pertencem ao âmbito político dos negócios humanos, cuja qualidade essencialmente humana é garantida pela faculdade do homem para agir. Surge, aí, a habilidade para começar algo novo.

Finalmente!

Na visão francesa, conforme enfatiza Félix Guattari em seu livro As Três Ecologias, a violência e a negatividade resultam sempre de agenciamentos subjetivos complexos: elas não estão intrinsecamente inscritas na essência da espécie humana. São, na verdade, construídas e sustentadas por múltiplos agenciamentos de enunciação.

Neste aspecto, igreja, estado e defensores dos direitos humanos precisam sentar, jogar as cartas na mesa, dialogar e dar sentido ao que de fato é direitos humanos. Definir quem são os realmente humanos e quem são simplesmente monstros sociais, aterrorizadores da vida humana. Definir, enfim, os racionais que têm respeito pelo outro e os (in)racionais que estão interessados apenas em destruir a vida do outro.

Portanto, a violência não é algo da essência humana. Mas trata-se de um instrumental ou um agenciamento como meio de garantir uma “estrutura de sentido” em que é almejado desvelar o “sentido da estrutura”, tanto em termos da linguagem, como em termos do social, da troca, das relações homem-mulher e, enfim, da tomada de formas. Formas que cada vez mais se enrijecem e se coagulam.

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