Publicado por: Battista Soarez | dezembro 19, 2014

ENTRE O PODER E A GANÂNCIA

Entre o poder e a ganância

Battista Soarez (Jornal Itaqui-Bacanga)

Os países que têm grandes reservas de petróleo, entre eles o Brasil, enfrentam uma verdadeira maratona de ganância pelo poder e pela riqueza fácil. E isso é um problema muito estranho e comprometedor porque, normalmente, os governantes deixam de investir e visualizar outras maneiras de produzir riqueza. Além disso, o autoritarismo exacerbado de alguns governantes causa total perturbação no comportamento da economia mundial. Os gastos desses países são descontrolados e exorbitantes. A revista Veja, na semana passada, fez uma entrevista com o cientista político americano Michael Ross, autor do recente livro The Oil Curse (A maldição do petróleo), ainda não publicado no Brasil, em que Ross disse que a queda no preço do petróleo é um antídoto para a democracia, porque permite a ascensão de movimentos democráticos. Mas a coisa é bem mais complexa do que se imagina.

Petrobras01No Brasil, por exemplo, nenhum político foi indiciado no relatório da CPI que investiga a Operação Lava-Jato. As 52 pessoas que foram indiciadas vão ter de responder na Justiça pelo que fizeram e por que fizeram, sem poder citar nomes de quem mandou. Porque quem mandou sempre é alguém do alto escalão dentro da política brasileira. Tudo isso tem a ver com acordos pós-período eleitoral entre PSDB e PT. Foi só começar aparecer nomes de políticos do PSDB no escândalo da Petrobras, para as coisas mudarem de rumo. A verdade é que acima da oposição entre tucanos e petistas estão interesses políticos muito fortes. Um deles é manter em segredo os atos da cleptocracia que todos cometem quando estão na situação do poder.

Petrobras02A Petrobras é a maior empresa estatal brasileira e, também, a que mais é saqueada pela ganância do poder. As divisas obtidas com o petróleo normalmente são muito elevadas. Isso gera dois principais problemas. Um é que o petróleo acaba drenando os investimentos e, com isso, a mão de obra de outros setores também é drenada. O outro problema é que isso acende uma valorização da moeda local que acaba barateando as importações. Consequentemente, produtos como alimentação, roupas e máquinas — produzidos internamente — acabam ficando mais caros e, aí, as empresas fecham suas portas.

Toda essa equivocação política afeta a agricultura e as fábricas. Com isso, a economia fica mais dependente do petróleo. Em países exportadores de petróleo, segundo Ross, o Estado controla uma fração do PIB 50% maior que em outras nações. Essa concentração, enfim, gera um desequilíbrio de poder, em que os governos se tornam ricos e poderosos demais. E os seus cidadãos ficam cada vez mais pobres e fragilizados. Em síntese, as estatais ficam nas mãos dos governantes e eles fazem o que bem entendem com elas.

O sofrimento do Brasil com essa penosa realidade é tão elevado que os efeitos políticos são catastróficos na contribuição da economia para o desenvolvimento do país. Em 2002, o preço do petróleo era consideravelmente baixo. Apenas a gasolina manteve o preço estabilizado por 12 anos, durante o governo do PT. Os outros preços foram absurdos. Essa política abusiva de preços permite que o governo tenha mais dinheiro em caixa. Mas ele não investe em desenvolvimento. Ao invés disso, usa a dinheirama toda para comprar apoio popular e de partidos políticos. O derramamento de “barris” de dinheiro em manobras eleitoreiras e tramas políticas permite que os governantes vençam eleições pelo atalho das facilidades e alimentam alinhavos de corrupção. A verdade é que nenhum partido da situação tira dinheiro do próprio bolso para gastar em campanha política. Todos se utilizam do dinheiro público para se dar bem na vida pública e, obviamente, as empresas estatais são o canal perfeito para isso.

O nome de Roseana Sarney, que renunciou ao cargo de governadora no último dia 9, aparece nas investigações do escândalo da Petrobras desde quando a operação foi deflagrada em março passado. Segundo a revista Veja (edição da semana passada), o doleiro Alberto Youssef, preso pela Polícia Federal em São Luís, diga-se de passagem, disse que autoridades do governo maranhense exigiu 6 milhões de reais em propina “para liberarem parcelas de uma dívida de 120 milhões de reais do governo maranhense com a empreiteira Constran, também envolvida com o cartel da Petrobras”. Youssef era quem mediava os acertos. Outro que também mencionou o nome de Roseana Sarney como beneficiária de propina foi o ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa. Parte da propina paga para a então governadora do Maranhão, no valor de 900 mil reais, foi entregue pelo habilidoso doleiro Rafael Ângelo, que fez três viagens a São Luís, trazendo na roupa 300 mil reais de cada vez. Segundo o doleiro, o suborno foi entregue ao então chefe da Casa Civil, João Abreu, no interior do Palácio dos Leões, sede do governo e residência oficial do executivo estadual.

A renúncia de Roseana, portanto, parece representar uma fuga das investigações da Operação Lava-Jato, que tem uma quadrilha organizada de executivos formados na escola superior da corrupção brasileira, a maior do mundo. Esses executivos pertencem a empresas que, segundo o Ministério Público, lideravam o esquema criminoso instalado no cérebro da Petrobras.

É um verdadeiro clube de elite da corrupção, composto por empresas como Engevix, Galvão Engenharia e as famosas Mendes Júnior, Camargo Corrêa e OAS. Essas empresas drenavam bilhões do caixa da petrolífera brasileira em esquema de grandes fraudes nas licitações. Após ganharem as licitações, as empresas davam sequência a uma prática funesta de superfaturamentos em obras e serviços.

Os corruptos são tão cínicos que, enquanto a operação investigatória estava sendo realizada, eles continuavam lesando os cofres públicos, como cães famintos em cima de carne fresca. Só nesse período, a quantia chegou a aproximadamente 300 milhões de reais. Esse “barril” de dinheiro abasteceu contas de doleiros, lobistas e funcionários públicos, dentre estes estavam os funcionários da Petrobras. Agora, o MP apurou e quer que seja devolvido aos cofres públicos cerca de 1,2 bilhões de reais. Nada mais justo, quando se leva em conta apenas o prejuízo financeiro. O que não dá para recuperar facilmente é a ferida causada com isso na alma do povo brasileiro.

O mais doloroso é que, entre os indiciados no escândalo, nenhum político foi arrolado. Isso clareia o quanto a justiça brasileira, assim como a política, não é séria. Os rumores investigativos se assanham sempre que algum grupo partidário se acha insatisfeito, e se acalmam quando acordos políticos são costurados junto ao grupo da situação. Se a oposição tem participação na mesa do bolo, não há denúncia. Se não tem, ela se mobiliza, provoca a justiça (pagando, claro, membros do Ministério Público) para formular a denúncia e, depois, paga muito dinheiro para as principais empresas de comunicação — como, por exemplo, Rede Globo e revista Veja — jogarem a imagem da situação na lama do conhecimento público.

Pressionado, o governo se vê obrigado a chamar a oposição para um “cala-boca” e, então, os ânimos se contêm. Prejudicado mesmo quem fica é a população brasileira que tem de pagar altos impostos — criados pelos próprios corruptos — para cobrir o rombo descomunal nos cofres públicos. Rombo causado pela consagrada cultura de corrupção no governo de um país que está longe de funcionar honestamente.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: