Publicado por: Battista Soarez | dezembro 18, 2014

MARANHÃO

A RENÚNCIA DE ROSEANA

Battista Soarez (Jornal Itaqui-Bacanca)

O “luto” da família Sarney pela morte do seu caciquismo político no Maranhão ainda esconde os verdadeiros motivos de uma renúncia que, até agora, não explicou direito o porquê do declínio de uma extensa “vida-guerra” pelos interesses da coisa pública e, especificamente, pelo poder no Estado do Maranhão. Sarney, que é adepto de Maquiavel, alega motivos de senilidade e diz que vai se dedicar àquilo que sempre perseguiu sua alma de poeta: a literatura. Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e da Academia Maranhense de Letras (AML), Sarney já vinha ameaçando, desde 2004, deixar a vida pública em função da sua paixão pela arte literária. “Quero dedicar os últimos anos da minha vida à literatura”, disse ele na época. Mas, em razão de conchavos políticos a partir do Governo Lula, decidiu estender por mais alguns anos o fôlego de vida do poder político que ele sempre deteve ao longo de 50 anos. Diante da renúncia de Roseana Sarney, pairam no ar uma sequência de interrogações que parecem embair a possibilidade de esclarecer tudo em relação ao seu governo. Mencionada no escândalo da Petrobrás — por ter recebido cerca de R$ 6 milhões da estatal — Roseana sai de mansinho do governo para não ser investigada. Além disso, muita coisa ainda está oculta como, por exemplo, a morte do jornalista Décio Sá que nunca foi explicada de fato. Nunca disseram por que envolveram o nome do deputado Raimundo Cutrim, quando, na verdade, o deputado envolvido na morte do jornalista é outro. Os verdadeiros envolvidos ainda permanecem impunes sob proteção do pérfido segredo político do atual sistema. Com a morte de Décio Sá, caiu no esquecimento o caso do assassinato do líder do PT no Barra do Corda, a mando do irmão de um deputado, que não é Raimundo Cutrim. Esse caso foi denunciado por Décio Sá e, provavelmente, é um dos motivos de sua morte. Faltando 21 dias para terminar seu quarto mandato como governadora do Maranhão, Roseana Sarney anunciou, no dia 10 (quarta-feira), que sua renúncia do cargo ocorreu por “recomendações médicas”. Ao lado do pai, o senador José Sarney, e do marido, Jorge Murad, ela disse na carta de renúncia: “Me recolho para um descanso necessário, pelo bem da minha saúde”. No texto, Roseana diz ter cumprido, nos últimos meses, uma extensa agenda “de visitas, vistorias e inaugurações de obras”, em diversas cidades do Estado. Roseana Sarney deixou o governo e, com ele, uma lista enorme de problemas que não foram resolvidos ao longo de seu quarto mandato, como ela havia prometido quando ganhou, na justiça, o processo contra o então governador Jackson Lago. Ela deixa um dos piores índices sociais do país, um absurdo crescimento da violência, caos prisional e o maior número de pessoas vivendo abaixo da linha pobreza. Em meio século de caciquismo político, esta é a segunda vez que o governo do Maranhão será comandado por alguém eleito sem o apoio da família ou sem ser um dos Sarney. Flávio Dino (PC do B) venceu Edison Lobão Filho (PMDB) e, agora, tem um universo sem fim de desafios para enfrentar. Um deles é fazer uma reengenharia na cultura mental da população maranhense, principalmente dos líderes políticos que se formaram “PhD” em corrupção na escola política do grupo Sarney. Quem não aprendeu a ser corrupto na escola dos Sarney, não aprende mais em lugar nenhum do mundo. A ‘herança’ infame deixada por Roseana registra um Estado com mais miseráveis. Assim como todo o país, o Maranhão reduziu o número de pessoas miseráveis desde 2004, é bem verdade. Mesmo assim, segundo o Ipea, em 2013 eram 1.174.693 pessoas que viviam abaixo da linha da pobreza no Estado, isto é, 17,3% da população. A média é a maior entre os estados do Brasil e três vezes a média nacional, que é de 5,2%. Com ela, a violência ganhou absoluto destaque. Nos últimos anos, o Maranhão viveu uma explosão de violência incomensurável, visto que, entre 2002 e 2012, a taxa de homicídios cresceu 162%, chegando a 26 por cada 100 mil habitantes — ainda menor que a média nacional, que é de 29 por 100 mil habitantes — segundo dados do Mapa da Violência 2014. Nessa década, o Maranhão foi o terceiro Estado com maior crescimento do período, atrás apenas de Rio Grande do Norte e Bahia. No governo Roseana, houve um verdadeiro caos prisional. No início de 2014, o mundo conheceu a barbárie no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, em São Luís. Em 2013, foram 60 mortes, algumas com decapitações. Nenhum Estado teve tantas mortes como foi registrado em Pedrinhas. Neste ano, já foram 19 assassinatos dentro do complexo. Líder em mortalidade infantil, na última década o Maranhão ultrapassou Alagoas na “disputa” pela lanterna em relação à mortalidade infantil. O Estado, segundo o estudo Tábua da Vida, do IBGE, teve a maior taxa em 2013. Foram 24,7 por mil nascidos vivos. A mortalidade na infância também é maior no Maranhão: 28,2 por mil crianças. No quesito habitação, o Maranhão tem o maior deficit habitacional do país entre todos os Estados. Em 2008, quando Roseana assumiu pela segunda vez o mandato de governadora, após a cassação de Jackson Lago (1934-2011), a taxa de pessoas sem moradia era de 25,2% em relação a todos os domicílios. Em 2012, os dados indicam que essa taxa caiu para 21,2%. Outra precariedade é quando o assunto é justiça. Os moradores do Maranhão têm o pior acesso do país à Justiça, de acordo com estudo divulgado pelo Ministério da Justiça no final do ano passado. O índice leva em conta o número de profissionais, como advogados, defensores públicos e juízes. Também se leva em conta o IDH. Boa parte disso se deve à falta de defensores públicos, que só atuam em uma defensoria a cada quatro municípios do Estado. É a menor expectativa de vida. O Maranhão é o lugar onde se vive menos no Brasil. O Estado é o único em que a expectativa de vida não chega aos 70 anos e ficou, em 2013, em 69,7 anos. No Brasil, essa taxa, em 2013, era de 74,9 anos. Entre os homens, a expectativa era ainda menor no Maranhão, isto é, 66 anos. Já entre as mulheres, essa esperança chega a 73,7 anos. Com grande potencial e pouco investimento, o Maranhão registra que a renda por aqui é menos de 40% da média brasileira. Os maranhenses têm o pior rendimento entre os Estados, conforme indica o IDH Renda. O Estado também é o segundo pior PIB (Produto Interno Bruto) per capita do país, segundo dados das Contas Regionais, do IBGE. A população, em 2012, tinha um PIB per capita de R$ 8.760,34, à frente apenas do Piauí (R$ 8.137,51). No Brasil, a renda per capita é quase três vezes maior que a maranhense: R$ 22.645,86. Sobre saúde, outro problema. Sem conseguir atrair ou formar mais profissionais, o Maranhão — de acordo com dados do CFM (Conselho Federal de Medicina) — é o Estado brasileiro com o maior índice de habitantes por médico, com 5.390 profissionais para 6.794.301 habitantes. A média brasileira é de um médico para cada 1.260 pessoas. E o mínimo recomendado pela ONU é de pelo menos um médico para cada 1.000 pessoas. A educação, no estado, ainda engatinha. A PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) 2013, do IBGE, apontou que o Maranhão é o segundo estado com o maior número proporcional de analfabetos, com 19,9% do total da população sem saber ler ou escrever. O Estado estava à frente apenas de Alagoas (que teve taxa de 21,7%). O governador eleito Flávio Dino, frente a essa realidade social do Maranhão, terá que encarar a construção de um futuro que ainda está atolado na lama do presente. Portanto, ele vai ter que ver a derrota do grupo Sarney não como constelação de forças, mas, sim, como oportunidade de por qualidade na percepção do discurso político para fazer funcionar todas as práticas planejadas. A grande questão não é a derrota dos Sarney, mas o risco de desânimo e dissimulação intelectual da nova equipe diante do volume de problemas a ser enfrentado. O risco de fingir que cada passo para trás ou para o lado signifique dez passos para frente. Creio que Flávio Dino, no entanto, terá maturidade suficiente para, desta fez, dar um basta no tradicional oba-oba político que sempre foi proeminente no Maranhão.

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