Publicado por: Battista Soarez | junho 30, 2014

LITERATURA

ENTREVISTA: MAGNO PAGANELLI

A influência da literatura cristã no pensamento intelectual brasileiro

Por BATTISTA SOAREZ

Entrevista solicitada originalmente ao jornal Tribuna do Escritor

.

MagnoPaganelli_5Em obediência à vocação e ao talento, o paulista Magno Paganelli, 47 anos, é um escritor que sabe definir, na ponta da pena, por que escolheu a missão de trilhar pelos caminhos das letras. Autor com mais de 30 livros publicados, Magno é criador e editor da Arte Editorial desde o ano de 2003. O autor nasceu em Araçatuba, interior de São Paulo, em 1967. Cresceu sob influência de uma vida jovial liberalista, experimentou a dura caminhada solta na efemeridade das drogas e, aos 23 anos, se converteu à igreja evangélica. Num lampejo metafísico, o autor diz acreditar que literatura é tudo aquilo que julgamos “ser” ela mesma a partir de fatos corriqueiros. “Dentro do rótulo ‘literatura’, podemos colocar tudo que as experiências humanas vislumbram em forma de texto”, pondera ele. Em 1995, publicou seu primeiro livro E então virá o fim e, dez anos depois, criou sua própria editora.

MagnoPaganelli_9A partir daí, Paganelli decidiu mergulhar por definitivo nos estudos cristãos, sua maior fonte de inspiração literária. Graduou-se, inicialmente, em Teologia e Pedagogia e, atualmente, está concluindo seu mestrado em Ciências da Religião pela Universidade Mackenzie de São Paulo. Profícuo pesquisador e autodidata, o autor é membro do GT Oriente Médio e Mundo Muçulmano na USP (Universidade de São Paulo), onde se prepara para o doutorado em História Social pela mesma universidade. É professor de teologia, palestrante, jornalista e escritor. Seus mais de 30 livros publicados incluem E então Virá o Fim (Prêmio ABEC), Islamismo e Apocalipse, Estive Preso mas não Estive Só (Prêmio Areté), O Livro dos Diáconos, É Cristã a Igreja Evangélica?, Conflitos na Família, Qual a Sua Função no Corpo de Cristo entre outros. Em 2003 criou a Arte Editorial, editora com perfil cristão cuja missão é publicar obras que contribuam com a cultura e com o desenvolvimento de valores cristãos e dar suporte e oportunidade à formação de novos autores nacionais.

MagnoPaganelli_11Em 2011, quando esteve em São Luís para uma palestra com escritores, concedeu entrevista à rádio Universidade FM, da UFMA. A conversa com o autor focaliza a influência da literatura cristã no pensamento intelectual brasileiro. O jornal Tribuna do Escritor escolheu ele para esta entrevista exatamente por sua versatilidade no âmbito da literatura como escritor, editor, jornalista, educador, pedagogo e teólogo. Em matéria de produção literária, o entrevistado é polivalente: edita, faz capa, diagrama e distribui. De São Paulo, onde mora com a esposa Roseli e o pequeno Magninho, filho do casal, Magno Paganelli concedeu a seguinte entrevista.

 

TRIBUNA DO ESCRITORCerta vez, o famoso sociólogo norte-americano Marshall McLuhan, falando para um grupo de escritores, disse que eles, escritores, eram nada mais nada menos do que os últimos sobreviventes de uma espécie em extinção, pois já não servem para nada escrever e publicar livros. Isto se aplicaria, também, aos escritores cristãos?

MAGNO PAGANELLI — Sim, no sentido em que ele fez referência. Escritores são escritores, independentemente do estilo que adotam ou do tema com o qual trabalhem. O escritor cristão faz abordagens cristãs de todos os temas que toquem a sua vida e a experiência humana. Mas discordo de que livros não sirvam “para nada mais”. As novas tecnologias têm melhorado o produto “livro” e, portanto, a experiência de se ler um livro, além de produzir novos suportes e mecanismo mais democráticos para a existência e manutenção do livro.

TE — Mas você não acha que, em termos do “pensar literário”, a época em que se queimavam as pestanas à luz de lamparina não era mais produtiva, já que essas novas tecnologias parecem ter facilitado demais as coisas e, portanto, roubado um pouco ou quase tudo dos esforços do pensar intelectual?

MP — Penso que não. Ao menos em um sentido. O escritor atento ao seu tempo saberá que não basta “ser mais um”. Para ser lido e ouvido será preciso trabalhar, refletir, queimar a pestana a fim de encontrar uma maneira de falar que “fale mais alto”. É a inovação que destaca no meio da massificação. Quem quiser ser mais um será; quem trabalhar mais poderá se destacar.

TE — O que podemos considerar, de fato, literatura?

MP — Penso que existem dezenas de definições de literatura. Como escritor, eu preciso experimentar estilos diferentes até encontrar o que mais se adeque ao que pretendo dizer ao público que almejo alcançar. Como editor, preciso considerar todo texto que chega até mim para ser avaliado, sem descartar inicialmente nenhum deles. Pois preciso compreender que cada autor que envia seu texto encontrou, em tese, o seu melhor estilo. Mas, acima de tudo, literatura é o meio pelo qual a experiência humana mais íntima toma contato com as mais amplas possibilidades de universalizar uma percepção da vida.

TE — Você falou em estilo e me faz entender que, por via da experiência humana, o escritor aguça sua percepção da vida a partir de um processo em que ele evoca, inicialmente, um princípio de busca “eu-ser-mundo”. E esta é a práxis no modus vivendi do contexto em que ele, como autor, quer construir seu texto. Neste sentido, a literatura depende de atitudes críticas para se fazer mais criativa? Ou ela simplesmente tira proveito de uma diversidade criacional livre, como propuseram os jovens escritores da semana de Arte Moderna, em 1922?

MP — Não acredito que se consiga “uma diversidade criacional livre” sem antes dominar uma experiência pessoal, de vivência “eu-ser-mundo”. Só se consegue ser criativo dominando o seu campo, salvo se você for um iluminado, a exceção. Mas quem é a exceção? Quantos Mark Zuckenberg você conhece? Quem de nós almoça ao lado do Pedro Bandeira todo dia? Ele vende mais que o Paulo Coelho, pelo menos quatro vezes mais!

TE  Que diríamos, então? A literatura cristã é um jogo? Um passatempo? Um produto de anacronismos? Ou, acima de tudo, uma atividade artística, de modulações pluralistas, que tem exprimido alegria e angústia, certezas e dúvidas, aprendizado e enigmas no homem moderno? Que você acha?

MP — Acho que dentro do rótulo “literatura” podemos colocar tudo isso e mais alguma coisa, porque, como disse, são experiências humanas em forma de texto. Então podemos catalogar experiências emocionais, intelectuais, científicas (mesmo cristãs ou com abordagem cristã), poesia, romances, história, ficção até. Enfim, não há tantas limitações. E não há anacronismos, pois estamos sempre lendo o passado, as experiências herdadas da própria humanidade e da Bíblia, que é um livro milenar de muitas culturas inspiradoras.

TE — Você acredita que o escritor cristão brasileiro é um produtor de conhecimento ou simplesmente um repassador de ideias e pensamentos já produzidos?

MP — Não penso que somos simples duplicadores, repetidores de discursos literários. Com criatividade, o escritor cristão precisa ler o seu tempo e ser imaginativo a ponto de poder dizer a mesma mensagem adequada à cultura e à linguagem do tempo presente. Como o homem sempre está produzindo conhecimento, o escritor cristão precisará acompanhar essa dinâmica fazendo ajustes necessários de acordo com as novas demandas. Por exemplo, quando se discute o aborto, que é uma discussão recente, o escritor cristão deverá produzir reflexões a partir da sua abordagem cristã para a vida. Que implicações terá o aborto? Que contribuição ou não trará para a humanidade? A sua fé poderá dar contribuições a essa reflexão ou ela não deverá interferir nas decisões legais e pessoais sobre o tema?

TE — Você está dizendo que o escritor é um “construtor” a partir de verdades catalogadas da realidade social? Como ele pode empreender isso e ainda “burilar” sua originalidade? De que maneira isso ocorre, uma vez que a literatura exige uma intelectualidade que maneje bem as circunlocuções em suas abordagens para obter o resultado que pretende, ao gosto do leitor a quem pensa se dirigir?

MP — Penso que aqui reside a questão do estilo pessoal. A verdade, como você diz, é “catalogada”, está posta. O leitor precisa ser tocado pelo autor, mas o leitor também está buscando algo e encontrará o que procura, o que busca, quando ouvir o eco da sua voz. Por que alguns autores são tão queridos por determinados nichos? Porque ele dá eco ao que aquele nicho precisava ouvir. Se for romancista, “fala ao coração”. Algo assim.

TE — Qual é a sua maior dificuldade como editor? Ao escolher uma obra, você avalia exatamente o quê? O que você, como editor, procura no espírito literário de um autor?

MP — No meu caso específico, eu procuro textos que tenham contribuições com a formação de uma reflexão e pensamento maduro para a Igreja, primeiro para os líderes, os que atuam no trabalho cristão em si. Em consequência, isso deve refletir na formação dos membros. Assim, a dificuldade é encontrar algo inovador, pois a maioria dos textos repete o que já foi dito. Falta o hábito de ler, método e prática de pesquisa, uma cultura mais rica de ler, refletir e produzir literatura. E penso que isso não é demérito do cristão brasileiro, mas em outro sentido é reflexo da cultura do país.

TE — Seria incorreto dizer, então, que essa procura pela cultura mais “rica” passa pela índole fragmentária do escritor em que, de fato, ele pudesse organizar perífrases realistas em função de uma política de conteúdo? E que isso tivesse padrões mais rígidos de comportamento impostos por via de uma moral essencialmente mais literária?

MP — Todo escritor amadurece e com isso mudará ou aprofundará as compreensões anteriores. Assim, a busca pela cultura mais “rica” permanece, tanto no escritor, quanto no editor. Todos queremos avançar. Um autor não poderá atender as exigências de determinada editora ou linha editorial porque não é o seu público ou porque não amadureceu a tal ponto. Mas num segundo ou terceiro momento isso poderá ser possível.

TE — Você acha que a safra de escritores nos anos que antecederam o advento da Internet era mais criativa? Sua intelectualidade era bem mais densa do que a de hoje?

MP — Eu penso que eram mais limitados. Hoje o acesso à informação ampliou-se muito, mas isso não produziu, ainda, um grupo, como você chamou, “mais criativo”. O acesso à Internet favoreceu o contato com novas e mais informações, mas muita gente ainda não tem o critério jornalístico que demanda pesquisa, apuração, cuidado com as fontes e com a verdade. O escritor pré-Internet precisava de ânimo para ir a uma biblioteca e hoje ele acessa a biblioteca sentado em sua cama. Mas ele não desenvolveu, ainda, um pensamento criterioso, salvo aqueles escritores que possuem maior formação acadêmica. Mas mesmo esses, em muitos casos, produzem enquanto estão nos ambientes da produção científica; são poucos os que levam isso à frente.

TE — Mas será que, com as novas tecnologias da informação, a mente das pessoas não ficou bem mais “preguiçosa” em relação ao exercício criacional e produtivo, principalmente no que tange ao quesito originalidade?

MP — A população mundial aumentou consideravelmente. O Brasil quase dobrou a sua população em quarenta anos. Com isso, certamente a massificação ocorreu, mas sempre haverá um nerd querendo cortar caminho, abrir caminho, inventar ou criar novos caminhos. Há 10 anos, o self publishing era um projeto promissor; hoje é uma realidade. E alguns diziam que as editoras quebrariam com esse modelo: hoje, os editores procuram autores que se publicaram para lançá-los. Veja, por exemplo, os 50 Tons de Cinza, que “criou” um novo gênero. Vai durar? Enquanto tiver leitores, sim. Penso que passará. Mas mobilizou parte da indústria do livro. No meio cristão, tivemos a onda da batalha espiritual. Cadê os livros do Daniel Mastral? Hoje estão no fundo da livraria. Depois, nem isso. Só nos sebos.

TE — Quase não se fala em escritores cristãos brasileiros do passado. Os que existiram, produziram pouco. Há alguém que teve alguma influência literária, além de alguns estrangeiros, é claro?

MP — A produção literária brasileira é relativamente recente. Tudo era muito caro. Até a década de 1980, por exemplo, era preciso imprimir 20 mil, 30 mil exemplares de uma obra para poder vendê-la a um preço justo. Quem poderia sustentar isso? Só poucos. Soma-se a isso o fato de uma tradição igualmente recente. O pensamento teológico cristão, por exemplo, era insipiente. Os missionários que controlavam os rumos da nossa Igreja não apoiavam facilmente o pensamento autóctone; preferiam trazer os seus autores e traduzi-los. Só de uns anos para cá os brasileiros passaram a controlar os meios de comunicação, mas também não tinham à sua disposição bons nomes para publicar; o recurso era manter autores estrangeiros. Mas no início dos anos 2000, simultaneamente, algumas editoras começaram a focalizar autores nacionais, desenvolvendo obras com reflexão sobre o caso e os problemas nossos, com a vivência local, para as demandas locais. Mas há mais um detalhe que, penso eu, faz com que os primeiros autores, das décadas passadas, não sejam tão lembrados como poderiam. A produção da informação recente demanda uma linguagem para o homem de hoje. Autores do passado eram mais simples, mais cultos, mais densos. O leitor de hoje não consegue acompanhar aquele pensamento, porque são mais rasos culturalmente — embora tenham acesso a um oceano de informação, são mais imediatistas, querem receitas prontas — ao passo que o escritor do passado escrevia para formação, e não apenas para informação.

TE — Por que que o gênero romance é pouco explorado pelos escritores cristãos?

MP — Penso que por dois motivos, pelo menos. Um, porque falta cultura de leitura, leitura de literatura geral, dos clássicos. Outro, porque o púlpito das igrejas demanda o conhecimento de um conteúdo que está organizado sistematicamente e, assim, as obras com cunho mais “técnico” tenham prevalência sobre a literatura do gênero romance, contos etc.

TE — Você escreveu um romance, o Estive preso, mas não estive só. Que, inclusive, ganhou o Prêmio Areté de Literatura! Em sendo um autor de ensaios cristãos, você teve dificuldade de organizar um romance? Na prática, qual foi o maior óbice para você se manter fiel ao gênero?

MP — Foi um romance baseado em fatos reais onde o personagem central era eu mesmo. Uma autobiografia na qual todos os nomes dos personagens, inclusive o meu, foram mudados, para preservar a privacidade das pessoas. Isso facilitou sobremodo a composição do texto, porque parte da dificuldade fora superada pelo fato de eu “ter” a história já experimentada em mim. Mas havia a dificuldade da construção de um texto com mais vozes; como você disse, eu escrevo ensaios. Assim, li alguns autores consagrados à procura de uma referência que pudesse funcionar com o que eu queria. Encontrei, notei que era uma receita simples, mas muito poderosa e o resultado agradou. Já encontrei dezenas de pessoas que disseram ter lido o livro em dois dias, porque a história as prendeu ao livro. O livro foi premiado por um júri experiente. Penso que acertei.

TE — Quem você aponta como um grande escritor cristão brasileiro? Alguém que realmente exerceu influência na literatura cristã nacional?

MP — Há gente que publicou muitos livros e deu uma importante contribuição com a disseminação do pensamento cristão, que foi o Caio Fabio. Seus sermões eram vertidos para livros e isso espalhou-se como fogo em mato seco, mas não significa que ele seja um grande escritor. De fato não é. Há autores mais novos que também venderam muito, mas sua obra é datada, souberam explorar a curiosidade latente do seu tempo, mas passados dez anos ninguém mais se interessa pelo que escreveram. Então não posso dizer que sejam grandes escritores. Eu penso que ainda vamos precisar de uns anos para poder dizer este ou aquele, de fato, foram homens à frente do seu tempo.

TE — O Caio Fábio, inclusive, escreveu um romance, o Nephilim. Apesar de a obra ser de boa qualidade, ele não voltou a escrever mais nada no gênero. Você acha que o público cristão brasileiro não aprecia muito ler romances? Ou está faltando uma política de incentivo à leitura mais acentuada?

PM — Um pouco de ambos, mais da primeira opção. Uma política de incentivo pode gerar bons resultados. Mas o público cristão demonstra maior interesse por livros de práxis cristã, que sejam as receitas (faça isto, experimente aquilo). Que seja um material mais teológico (não tão acadêmico, no sentido secularizado). Se um autor der uma palestra e comentar sobre um livro de testemunhos, o livro será procurado. Eventualmente, eu menciono a minha experiência no livro Estive Preso, mas Não Estive Só e as pessoas procuram no final da palestra. É um romance. Se eu der uma aula e falar do livro sobre tipologia bíblica, as pessoas irão querer o livro Onde Estava o Cristo. Elas precisam de um tutor experiente que diga o que há nos livros; então, irão atrás.

TE — Certos livros são muito conhecidos. Estão nas vitrines de qualquer livraria e todo mundo [que tem o hábito de ler] sabe dizer o nome de seus autores. Isso se deve a que, exatamente?

MP — Um motivo é o que apontei: autores que souberam explorar alguma demanda, alguma tendência ou moda. Então fizeram nome rapidamente. Outros alcançam isso porque têm uma máquina por trás, seja a denominação, seja a mídia como a televisão, que pode impulsionar um livro, sem que necessariamente esse livro seja realmente imprescindível. E outros têm a sorte de serem publicados por editoras fortes, ricas, influentes. Fora desse eixo, não vejo como um autor ganhar as vitrines de lojas e livrarias, embora possam ser bem aceitos pelo público que ouve suas palestras, aulas e estejam mais próximos a eles.

TE — Neste caso, o que está faltando? Os movimentos literários são tímidos, orgulhosos e melancólicos a ponto de não poderem se organizar em função de uma política literária mais patente?

MP — Eu não tenho respostas fáceis para essa questão. Há uma máquina em andamento e essa máquina é movida a dinheiro. Sem dinheiro não há muito o que fazer, salvo um evento sinérgico, que consiga reunir interesse do público por alguma demanda ou por alguma resposta, um grupo de promotores, editores, autores, facilitadores, e os meios que facilitem esse encontro de ambos os lados, o texto e o seu leitor. Precisamos de uma Semana de Arte Pós-moderna Cristã! (Risos).

TE — Numa ocasião, perguntaram ao escritor William Faulkner sobre que técnica empregava para chegar ao seu padrão na redação de um texto. Ele respondeu: “Que o escritor se dedique à cirurgia ou à profissão de pedreiro, se se interessar pela técnica. Não existe meio mecânico algum para se escrever. Nenhum atalho”. E em seguida explicou que o jovem escritor seria um tolo se seguisse uma teoria [literária]. Como Faulkner, você acha que a gente aprende pelos seus próprios erros? Que, como bom artista, possui a suprema vaidade de aprender errando?

MP — Hoje há cursos com especialistas em literatura que ensinam a produzir bons textos. E há aquele “escritor espermatozoide” que fura o bloqueio e se dá bem depois de passar por um curso desses, mas não são todos evidentemente. Acredito que a pessoa que sente vontade de destacar-se como autor deve começar a praticar e estudar os estilos possíveis até encontrar o seu próprio estilo. A prática da escrita leva a um estilo pessoal e isso vem de tentativas, erros e acertos. Penso que Faulkner quis dizer algo nesse sentido: exercite-se até desenvolver a sua própria técnica, até encontrar o seu estilo, ajustado ao seu mundo e aos seus propósitos. A simples organização de um texto com “começo-meio-e-fim” já indica uma técnica. Se o autor quiser fazer uma inversão dessa ordem, criará a sua própria técnica.

TE — O que você diria a respeito do discurso literário para o mundo de hoje? Que principais indagações ele faria e ao mesmo tempo seria capaz de responder?

MP — Sim, há o que dizer. Penso realmente que há muito o que dizer. Mas hoje é preciso pensar mais antes de sair “dizendo” o que se pensa. Cristãos, hoje, têm discurso para ser ouvido e lido em qualquer campo do conhecimento humano. E com relevância. Mas é preciso abandonar o simplismo — não a simplicidade. O reducionismo pode ser fatal, mas um discurso consistente e bem elaborado terá ouvidos atentos, ainda que a esse ouvido atento corresponda uma boca discordante. O “ouvido ouvirá” se o discurso for bem articulado, com simplicidade, relevância e coerência persuasiva. Se tocar em questões prementes e se colocar no seu devido lugar.

TE — Como manifestação artística, a literatura procura recriar a realidade. E cada autor tem sua visão fundamentada em seus próprios sentimentos reais, pontos de vista, seu estilo e sua maneira particular de proceder nas narrativas. No seu modo de ver, o que difere a literatura de outras manifestações artísticas?

MP — A literatura difere no suporte, apenas. Uma pessoa não pode, simplesmente, colorir uma tela para obter uma obra de arte. Ela precisa conhecer sobre composição de cores, luz e sombra, perspectiva, gênero e estilo pessoal. O escritor também precisa ter noções mínimas, ter vocabulário, saber manipular argumentos, construir raciocínios consistentes, contextualizar e, finalmente, persuadir. Todas as manifestações artísticas dependem de ferramentas próprias e a literatura tem as suas.

TE — Como se faria isso? Você está falando de um retorno à biopsicoética, para sermos mais específicos em matéria de literatura?

MP — Não, não. Não precisamos voltar, mas avançar. Não dá para resgatar movimentos passados, mas podemos usar um ou outro elemento que possa ser adequado ao movimento presente. Se as ferramentas e os suportes são novos, usemos as ferramentas e os suportes novos.

TE — Isso parece algo, digamos, mais genérico. Essa mesma regra e diferença se aplicam, também, à literatura cristã?

MP — Aplica-se enquanto é literatura. Mas o restringente “cristã” faz com que um ingrediente a mais esteja presente, que é a régua da Bíblia e até da tradição teológica do autor. O seu olhar passará, em algum momento, pelas lentes dadas pela sua abordagem “cristã” do assunto com o qual ele lida.

TE — O que diferiria, então, um texto “literário” de outro texto que não possui essa mesma característica?

MP — Penso que texto literário é texto literário. Costumo dizer que há gente para ler de tudo o que alguém possa escrever, basta ter uma bela capa e um bom vendedor. Mas a boa literatura é aquela que permanece na lembrança das pessoas, independente se ela cai ou não no gosto da crítica ou se ela segue ou não as regrinhas do jogo. A literatura precisa falar à alma dos seus leitores, sejam eles emotivos ou racionais, cultos ou simples [de senso comum]. Se conseguirmos escrever um texto que acelere o coração do leitor, que ilumine os seus pensamentos, que seja ele instrutivo nalgum ponto de sua vida, teremos conseguido um bom texto literário.

TE — Que parecer você daria para os jovens escritores e intelectuais que estão surgindo agora? Sobretudo para aqueles que estão nas universidades, como os estudantes do curso de letras, por exemplo?

MP — Que procurem dominar a técnica, mas não extingam o espírito, nunca. Num mundo técnico e tecnológico, você não terá lugar ao lado de ninguém se não dominar a técnica. Mas se quiser sobressair-se, se quiser ir à frente — e não somente ficar ao lado — mantenha aceso o espírito. É ele que fará de você um pensador criativo. E no encontro da técnica com a criatividade está a receita que todos procuram para se tornarem bons autores.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: