Publicado por: Battista Soarez | março 12, 2014

A CURA DA ALMA

A PSIQUIATRIA DO SENHOR NO SALMO 23

A imanência do consolo de Deus em momentos de erros, turbulência e aflição

Amor_Sonhos

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NO ANO PASSADO, em 2013, lancei o livro E assim o amor acontece: um diálogo puro e aberto sobre amor e sexo no ambiente da espiritualidade (Visão Global Editora/Arte Editorial, SP). Depois de conceder várias entrevistas nas quais sempre expliquei que se tratava de uma revisão ampliada do meu livro E os jovens se atraem (Edições Ame, SL, 1997), recebi dezenas de ligações de pessoas que estavam sofrendo algum problema na esfera sentimental.

Lembro de que um dia, depois de dar uma entrevista na rádio 92 FM, de São Luís, uma moça de 31 anos me ligou.

— Pastor — disse ela do outro lado da linha — preciso da sua ajuda. Meu marido foi embora de casa. Me trocou por uma garota de 18 anos. Eu estou sozinha com a minha filha de 9 anos. É muito ruim, pastor. Além disso, estou desempregada. E ele não me ajuda em nada, pastor.

— O que aconteceu, irmã? Por que vocês se separaram? — eu quis saber.

— Não sei, pastor. A única coisa que ele me disse foi que a garota era virgem. E eu não sou mais virgem. Estou me sentindo um lixo, pastor. Me ajude. Por favor.

— O que, irmã? Qual foi mesmo a justificativa que ele deu?

— Pois é, pastor. Ele disse que a garota era virgem. E eu não sou mais virgem.

— E o que você disse a ele?

— Disse apenas que quando ele me conheceu, eu também era virgem. E que perdi a virgindade com ele.

— O seu pastor já sabe disso?

— Sabe. Eu tenho dito tudo para ele. Ele acompanhou tudo.

— Além de orar, claro, o que ele disse para você?

— Que eu deva continuar orando e me humilhando para Deus e para o meu marido, para que ele volte. E estou fazendo conforme ele me instruiu.

— Quanto tempo faz isso, minha irmã?

— Já faz mais de um ano — afirmou ela.

— E o problema ainda não foi resolvido?

— Não, pastor. Cada vez mais me sinto arrasada, ferida, humilhada, triste e deprimida. Não estou conseguindo superar, pastor. Acredite.

— Minha irmã — disse eu a ela, depois de pensar por alguns segundos, buscando, em Deus, uma resposta coerente — Deus não é canalha. E por Ele não ser canalha, Ele não concorda com nenhum tipo de canalhice. Não seja cobaia de canalha nenhum, irmã. Não há razão para isso. Em lugar nenhum está escrito isso.

— Mas o meu pastor disse que Deus não aceita separação e divórcio.

— Claro, irmã. Deus não aceita e eu também não aceito. Mas desde que não haja canalhice pelo meio. Porque Deus não é canalha. E nem você é idiota. Nem deve ser idiota.

Aquela mulher estava vivendo uma situação de abandono, solidão e falta de tudo. Perdeu o marido. Estava desempregada. Triste e solitária. O sentimento de abandono e solidão pode nos levar a profunda depressão. Ou seja, pode nos levar a um estado mental caracterizado por tristeza, desespero e desestímulo quanto a qualquer atividade. O deprimido não tem prazer para nada na vida. A pessoa fica desorganizada, a casa fica suja, o carro vai se deteriorando. O indivíduo não tem nenhum prazer de arrumar nada. Nem de tomar banho. Foi o que percebi ao visitar a casa daquela mulher. Então, iniciamos uma terapia de apoio psicológico pastoral, em que utilizamos técnicas de aconselhamento espiritual.

— Irmã — disse eu — é óbvio que você acredita no que a Bíblia diz, não é? Senão não teria sentido ser cristã.

— Sim, pastor. Eu creio. Claro que creio. Creio sim.

— Muito bem. Então, vamos ler o Salmo 23. Ele é muito lido. E acho que você o lê constantemente. Não é verdade?

­— Claro. Eu o leio sempre.

— Certo! Só que desta vez você vai lê-lo de maneira diferente, devagar e meditativamente. Em vez de lê-lo simplesmente por ler, você vai lê-lo sob efeito de outra perspectiva. Com calma e assimilação. Você vai escutar a voz real de Deus nele. Certo?

— Sim, pastor. Aceito.

A terapia presente no Salmo 23

Primeiramente, fiz aquela mulher assimilar firme e serenamente que ela era crente em Jesus. Logo ela pertence ao Senhor. Também fiz ela entender, definitivamente, que ela é propriedade exclusiva de Deus (1Pedro 2.9). E, finalmente, levei ela entender que o Salmo 23 é uma das passagens mais consoladoras e conhecidas da Bíblia Sagrada. O texto é forte. E quando olhamos para o seu conteúdo, costumamos ver apenas a promessa nele contida. Deixando, assim, a condição de lado. O Senhor é o meu pastor; nada me faltará é uma expressão que, levada a sério no íntimo de nossa relação com Deus, nos remete a um momento de aflição e, ao mesmo tempo, de acalento.

1. “O Senhor é o meu pastor”. Aqui, a proposta inicial é um olhar para a condição. Tudo se inicia com o fato de a pessoa permitir que o Senhor seja, de fato e de verdade, o seu absoluto Pastor. Quando Davi disse “O Senhor é meu pastor”, ele estava sincera e verdadeiramente permitindo, convocando e se entregando — na condição de ovelha — à situação de o Senhor ser o seu Pastor. Significa, portanto, a condição de deixarmos que Ele seja o nosso Pastor. O pastor é aquele que se dedica em domesticar, guardar e alimentar animais, principalmente as ovelhas. Portanto ele cuida, alimenta e trata das ovelhas com o devido cuidado.

2. “Nada me faltará”. Depois de condicionados ao fato de sermos ovelhas do Senhor — de maneira que Ele seja, de fato, o nosso Pastor — aí, sim, nada nos faltará. A questão central aqui é um princípio, isto é, o princípio da condicionalidade: o Senhor sendo “o meu pastor”, logo, “nada me faltará”. Isto quer dizer que o Senhor não pode ser pastor de quem não aceita mental e praticamente esta condição. Mas se eu aceitei tal condição, então, agora, Ele é o meu Pastor. E se Ele é o meu Pastor, então Ele cuida de mim e, assim, não me faltarão:

a)      a oportunidade de aprender — porque o meu Pastor me ensinou a aprender;

b)      a oportunidade de plantar — porque eu aprendi a plantar aquilo que o meu Pastor, o Senhor, me ensinou;

c)      a oportunidade de colher — porque eu plantei aquilo que, com o Pastor, eu aprendi a plantar;

d)     a oportunidade de comemorar — porque o meu Pastor gerou em mim a alegria para eu me alegrar e fazer o banquete com o fruto daquilo que eu plantei.

Depois de refletir comigo sobre o Salmo 23, aquela irmã — abandonada pelo marido, que a trocou por uma mocinha virgem, de 18 anos — aprendeu que ser ovelha do Pastor, o Senhor, é assumir que, agora, ela vive sob os cuidados do Senhor, que é o Pastor! Ela absorveu a mensagem e entendeu que nada mais iria lhe faltar. Não faltarão as oportunidades e nem o aprendizado para que ela possa perceber o momento das oportunidades, o momento em que elas chegam em sendo dádivas do Senhor, o Pastor. Ela, então, entendeu que as promessas do Salmo 23 são lindas e, também, são verdadeiras. Mas que precisava de alguém no caminho para lhe conduzir à assimilação e ao aprendizado.

— Nossa, pastor! — sussurrou ela, depois de algum tempo, quando já tinha superado todo o momento de dor. — Faz uma enorme diferença quando alguém leva a gente entender o significado da Bíblia por um outro ângulo.

— E este outro ângulo, irmã — intervi — é interiorizar a certeza (a fé convicta) de que este SENHOR é uma pessoa real. E em sendo real, Ele cuida pessoalmente daqueles que são ovelhas do Senhor, que são propriedade exclusiva de Deus. Ninguém toca naquilo que é propriedade exclusiva de Deus, o Pastor Senhor.

3. “Deitar-me faz em verdes pastos”. Nos dias de Davi, o pastor beduíno cuidava muito bem das ovelhas. A atividade pastoril era muito importante e requeria dedicada responsabilidade. Davi tinha ciência disto. Por isso escreveu este salmo. Pasto é “pastoreio”, lugar onde o pastor trata das ovelhas, para que elas se sintam alimentadas e seguras. E por que as ovelhas, no pastoreio, se sentem seguras? Obviamente, é porque, no pastoreio, o pastor está sempre por perto, vigiando-as para que elas nunca se dispersem. “Verdes pastos” expressam um pastoreio robusto, isto é, um lugar de muito vigor, virtudes e agradabilidade. Logo, o texto está falando de um ambiente tranquilo, onde o entendimento entre pastor e ovelha é absolutamente adequado para aliviar ou curar dores e mágoas. Pastor que não consegue tratar e aliviar as dores das ovelhas não é pastor coisa nenhuma. Pastor que não proporciona um ambiente tranquilo e saudável para as ovelhas, é mais impostor do que pastor. Davi disse: “o Senhor é o meu pastor…; Ele me faz repousar em pastos verdejantes”. Ou seja, Ele, o Pastor Senhor, me faz descansar [ou relaxar] em ambiente de muita robustez, de muito vigor, saudável, tranquilo, de força e vitalidade. Nele e com Ele eu me sinto seguro.

4. Guia-me mansamente a águas tranquilas. Para entender o significado e a importância desta expressão, é preciso considerar as palavras “mansamente” e “águas tranquilas”. No contexto bíblico, a palavra “mansamente” denota sensatez, cordialidade, ausência de arrogância e estupidez. “Águas tranquilas” são palavras sem rumores de acusação. Há líderes cujas palavras são verdadeiros ferrões. Mas Davi está dizendo que o Pastor Senhor o conduz “mansamente a águas tranquilas”. Isto quer dizer que o pastor trata a ovelha ferida com palavras mansas, palavras de orientação segura, edificante e consoladora. O pastor não pode ser ríspido nas suas palavras. Precisa ser ponderado. A palavra aconselhamento dá um sentido literário de “acolhimento”, isto é, acolhimento com palavras e nas palavras. Palavras de sabedoria e sensatez, é claro. A pessoa com problema já está ferida pela situação. Portanto, ela não está precisando de palavras duras, do tipo:

a)      “você está em pecado” — a pessoa que errou já sabe disso, ela quer ouvir é uma palavra de como resolver a situação gerada;

b)      “você precisa se humilhar para Deus” — ela já está humilhada, ferida, machucada pela própria situação; em Deus não há sadismo (tendência de uma pessoa que busca sentir prazer em impor o sofrimento físico e moral a outra pessoa), nem masoquismo (tendência em uma pessoa que busca sentir prazer em receber o sofrimento físico e moral de outra pessoa); o fato de, por vezes, o cristão sofrer não quer dizer que Deus seja sádico; e o fato de Jesus ter se dado ao sofrimento, não significa que Deus seja masoquista; o cristão sofre porque há situações em que o homem só aprende pela disciplina do sofrimento; Jesus sofreu simplesmente para evitar que a alma humana sofresse por toda a eternidade;

c)      “você é desobediente” — não é o caso; a pessoa só caiu, cometeu um ato falho; isto quer dizer que ela é um ser humano, revestida de humanidade; seres humanos erram; nos humanos, erros e acertos são o equilíbrio; tem alguma coisa que a levou a cair; procure essa coisa e trate dela; você está em pé é para isso;

d)     “você tem demônio” — nem sempre quem erra tem demônio; e se tiver, expulse-o pelo poder do nome de Jesus; é para isto que você está revestido da palavra de Deus; foi para isto que você nasceu de novo; todo ser revestido de humanidade está propenso ao erro, mas também pode acertar;

e)      “você é um fraco” — ore por ela e com ela; a Bíblia orienta a sermos tolerantes com os fracos na fé e orar por eles.

— Pastor, o que eu faço? Como eu faço? — perguntou, certa vez, a irmã abandonada.

— Apenas siga a palavra mansa do Pastor, no ato de Ele lhe conduzir a águas tranquilas — respondi. — Não desperdice as oportunidades. Esteja atenta ao momento em que elas aparecerem. Seja perceptiva ao agir do Senhor, o Pastor. Permita Ele ser o seu pastor de fato. Ele está cuidando mansamente de você.

Ela me olhou por um pouco, desviando o olhar em seguida.

— O fato de você estar separada, abandonada — continuei — já é um sinal libertador, um sinal do “agir” condutor [mansamente] do Pastor Senhor. Pode ser que o Senhor, o Pastor, esteja libertando você das “garras” de um canalha e lhe conduzindo a um ambiente novo, de calmaria, alívio e conforto. A situação de dor pela qual você está passando não é dor coisa nenhuma, mas uma situação de aprendizagem emocional, moral e psicológica.

Aí ela chorou. Pôs as duas mãos no rosto, abaixando a cabeça enquanto continuava chorando.

— Chore, minha irmã — disse eu. — Que essas lágrimas que estão saindo dos seus olhos, agora, possam lavar toda dor da sua alma. Que elas possam lavar toda trave, toda sujeira do seu olhar espiritual, dando lugar à verdadeira alegria do Espírito no seu espírito. Logo tudo ficará claro. Logo virá o refrigério. Fique tranquila!

Eu esperei ela terminar de chorar. E sabe o que ela me disse depois que terminou de chorar? Veja:

— Sabe, pastor. Preciso lhe dizer algo. Eu convivo com esse homem há 13 anos. Ele nunca quis casar comigo. Gerou em mim uma filha, mas nunca quis resolver nossa situação conjugal. Mesmo assim, ele nunca falou em separação, pastor. Mas, agora, depois que aceitei a Jesus como meu Senhor e Salvador, ele fez isso comigo. Foi trabalhar no interior, procurou uma garota virgem e simplesmente me ligou dizendo que não viria mais para casa. Aí, foi como se o mundo desabasse sobre a minha cabeça. Eu choro todos os dias, pastor.

— Não falei que o Pastor Senhor resolve tudo? Ele está tirando de você aquilo que não é seu. Ele está guiando você mansamente a águas tranquilas. Está tirando você das garras de um predador e lhe conduzindo a redil seguro, de serenidade e paz.

5. Refrigera a minha alma. Quando passamos por turbulências, as faculdades da alma são as que mais sofrem. Chega ao ponto de a dor da alma se transformar em dor física. No Salmo 32 (v. 3), Davi admite que enquanto calou o seu pecado, envelheceram-se os seus ossos pelo bramido da sua alma em todo o dia. O sentimento de culpa lhe abatia de dia e de noite. A culpa afeta bruscamente nossas estruturas emocionais, psíquicas, físicas e espirituais. Causa doenças no corpo, na alma e no espírito. O complexo de culpa pode causar leucemia, diabetes, doenças no fígado e no estômago. Também pode, com o tempo, causar distúrbios mentais de várias maneiras, impotência sexual e outros danos existenciais. E ainda provoca uma turvação no sentido da vida. Faz-nos perder o foco de tudo. E nos cega perante as oportunidades. A culpa, enfim, é uma profunda dor moral e na alma. E Davi viveu tal situação. Em meio à turbulência da culpa, ele disse: “o meu humor se tornou em sequidão de estio” [verão] (Salmo 32.4b). Sua fisionomia só expressava angústia e tristeza. Sua face ficou envelhecida. Seu sorriso fechou-se. Seu olhar não conseguia mais focar o alto, muito menos o Altíssimo. E, envergonhado, Davi só conseguia olhar para o chão. O pecado (agente da culpa) causa uma vergonha desgraçada na alma, um obscurecimento espiritual sem tamanho. Qualquer psicólogo ou pastor experiente conseguem perceber isso. E é aí que a alma precisa de refrigério. E sabe qual foi o remédio para a dor moral de Davi? No Salmo 32.5, ele explica: “Confessei-te o meu pecado e a minha maldade não encobri (…); e tu perdoaste a maldade do meu pecado”. No versículo 7, ele conclui: “Tu és o lugar em que me escondo; tu me preservas da angústia; tu me cinges de alegres cantos de livramento”. Aí, a alma de Davi se encheu de refrigério e ele, então, superou toda aquela dor.

Depois de algum tempo — aproximadamente uns cinco meses — a irmã abandonada pelo marido me ligou, dizendo:

— Alô! Pastor! Boa noite! Quero lhe dizer que “caiu a ficha”.

— Como assim, irmã?

— Segui as suas orientações, pastor. Li o Salmo 23 muitas vezes. Depois, fui me aprofundando noutros textos da Bíblia. Integrei-me na igreja. E agora sinto uma profunda alegria na minha alma. Já faço parte do grupo de oração. Agora estou fazendo teatro com um grupo de jovens. Pastor, não sei como explicar. Mas a intimidade que o senhor falou para eu buscar em Deus eu fiz. Agora não sinto tristeza nenhuma. Parece que eu nunca vivi aquela situação. Não sinto raiva do meu ex-marido. Pelo contrário, oro por ele, para que ele encontre, em Deus, a mesma paz que estou sentindo agora.

6. “Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome”. A justiça de Deus é sempre defesa. Defesa do seu povo. Defesa daquele a quem ele ama. Há um velho ditado popular que diz: “Deus é amor, mas também é justiça”. Não é isto que o Salmo 23 nos assegura. Ele diz (v. 3b): “Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome”. No Antigo Testamento, em que a palavra “justiça” é “defesa”, a expressão veredas da justiça quer dizer uma caminho seguro sob a proteção (ou defesa) de Deus. Em seguida, ele acrescenta à palavra justiça a expressão por amor do seu nome. Logo, a justiça de Deus não pode ser contrária ao amor dele. Pelo contrário, a justiça de Deus é um princípio fundamentado no amor dele. Porque Ele [o Pastor Senhor] nos ama, guia-nos por caminhos seguros, onde caminhamos sub sua proteção e guarda fiel.

— Irmã — disse eu à mulher desprezada pelo marido, depois de oito meses de aconselhamento pastoral — Deus lhe deu um livramento seguro. Você, talvez, iria passar por um vexame ainda pior. Um vexame bem mais doloroso. A justiça dele agiu em seu favor. O amor dele a abraçou. E, agora, você está sendo alicerçada no Espírito para fazer a vontade do Senhor numa dimensão bem maior.

— Eu acredito, pastor. Quase toda noite sonho sendo batizada no Espírito Santo. E sei que o Senhor tem, mais á frente, um marido ideal para mim, segundo sua maravilhosa e perfeita vontade.

— Que bom que você tem essa compreensão, irmã. Deus a abençoe. Certamente a vontade do Senhor, o Pastor, será feita em sua vida.

7. “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam”. Diz-se que, nos tempos de Davi, o trajeto entre o lugar de pastagem das ovelhas e o riacho de água fria — aonde elas iam beber todos os dias — era uma região montanhosa, íngreme e, portanto, perigosa. Era um trajeto que ia do Mar Morto ao Rio Jordão, passando por um pedaço de mato onde tinha uma ribanceira bem à beira do caminho. Lá embaixo, tinham muitas feras que — sabendo que era certa a passagem das ovelhas por ali — diariamente, sempre por volta do meio dia, ficavam escondidas no local à espera de que alguma ovelha caísse para que pudessem devorá-la. Ao passar por ali, o pastor beduíno ficava atento, pois era comum alguma das ovelhas cair lá embaixo e ser tragada por algum leão, onça e outras feras. Por isso, aquele lugar era chamado de “vale da sombra da morte”. O pastor, normalmente, se punha à frente das ovelhas para que elas o seguissem. Mas, ao chegar àquele local, o pastor mudava de posição. Colocava as ovelhas à sua frente para que tivesse melhor visão de cada uma delas. Ele andava sempre com o cajado e vara. O cajado tinha três metros de cumprimento e a ponta enrolada em forma de meio arco. Já a vara era um pedaço de madeira roliço, maciço e medindo dois metros de cumprimento. Assim, quando uma ovelha caía ribanceira abaixo, ele conseguia perceber imediatamente. As feras logo se aproximavam. Mas o pastor beduíno era rápido em socorrer a ovelha caída: com a vara, ele batia na cabeça do animal feroz, o qual se afastava para longe; e com o cajado, ele laçava rapidamente a ovelha ao meio, mais ou menos na região do tórax, e a puxava de volta para o caminho. Assim a viagem prosseguia até à fonte de água fresca.

— Pastor, apesar de sentir carência de ter um homem ao meu lado, para suprir minhas necessidades afetivas, alegra-me em esperar no Senhor. Sei que a sua Palavra e a vontade de cada vez mais crescer nele e para Ele me consolam. A certeza de que Ele é o meu pastor me alegra e me faz esperar.

8. Preparas uma mesa para mim na presença dos meus inimigos. Davi era muito perseguido, invejado e havia muita gente que não gostava dele. O próprio Saul, enquanto viveu, o perseguia. Queria matá-lo. Enquanto isto, Davi lutava usando as estratégias espirituais fundamentadas em Deus: humildade, intimidade, louvor, adoração e oração intensiva. Com isso, ele obtinha vitórias sobre todas as lutas. Entre a sequência de vitórias, incluía o reconhecimento dos inimigos. Aí era feito um banquete em que eles, os inimigos, participavam. Davi, então, era exaltado perante seus adversários.

9. Unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda. Diz-se que, na antiga cultura oriental, era costume entre os sacerdotes ungir os convidados de um banquete com óleo. Este óleo era aromático e exalava um cheiro muito agradável. Também era esperado que os anfitriões protegessem seus convidados a qualquer custo ou em qualquer situação. Ao fazer esta analogia, Davi está dizendo que o Pastor Senhor oferece sua proteção aos seus servos, mesmo quando este está cercado de inimigos. Ele nos guarda dos inimigos, de maneira que ficamos seguros e nenhuma ação maligna nos atingirá.

— Pastor — disse-me a irmã abandonada pelo marido — todos os irmãos da igreja gostam de mim e me ajudam. Parece que o Senhor move o coração deles para me abençoarem. Sinto-me totalmente protegida, pastor. Estou completamente curada.

10. Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida. O cristão que se permite ser pastoreado pelo Senhor tem o seu coração quebrantado. Ele se torna uma pessoa bondosa, misericordiosa e amável. Sua transformação é completa, inteiriça e duradoura. A bondade do Senhor move o coração dele por toda a vida.

— Cada vez mais, pastor, sinto a vontade de fazer a obra de Deus. O meu coração se enche de alegria, sempre que estou evangelizando.

Aquela mulher, hoje, faz parte de um grupo de evangelização da sua igreja. Todos os sábados ela se encontra evangelizando nos sinais de trânsito em algum ponto da cidade: na praia, nas avenidas e outros. Recentemente, ela foi suprida com um emprego numa rede hospitalar nacional. Agora, ela tem seu sustento proveniente do seu próprio trabalho.

11. E habitarei Casa do Senhor por longos dias. E se a pessoa continuar na condição de ovelha, permitindo que o Senhor seja o seu Pastor, habitará com Deus para sempre. Ele, o perfeito Pastor e anfitrião, prometeu guiar-nos e proteger-nos ao longo de nossa vida e conduzir-nos á sua morada eterna.

A condição de ovelha e seu significado na psicologia bíblica

Ovelha é um animal que enxerga apenas oito metros de distância. Ela é míope. Tem cerca de 7,5 graus de miopia. Isso a torna um animal vulnerável a predadores. Na igreja, há aquelas ovelhas do Senhor que não enxergam muito bem. Umas porque não querem enxergar. Outras porque têm um conhecimento raso da palavra de Deus. E ainda outras porque nunca se permitiram receberem a visão de Deus. Por isso, às vezes fazem escolhas erradas. E, no geral, escolhemos com base naquilo que enxergamos.

Samuel era um profeta do Senhor, mas, em certo momento do seu ministério, ousou fazer escolhas erradas. Ao ver, por exemplo, o primogênito da casa de Jessé, logo pensou: certamente estamos de frente com o ungido do Senhor. Na sua visão humana, se baseou na bela aparência do rapaz. E não conseguiu ver, de imediato, a capacidade do filho caçula. Outras vezes caímos em ciladas malignas porque não conseguimos ver o mal que nos cerca. Aí precisamos ser direcionados pelo pastor, para nossa segurança e proteção.

1. Ovelhas ouvem a voz do pastor. Por não enxergarem bem, as ovelhas são recompensadas com uma audição peculiar. Elas conseguem discernir bem a voz de seu pastor. Na igreja de Jesus, a exemplo da ovelha, é necessário saber ouvir melhor a palavra de Deus. Saber diferenciar a voz do nosso Pastor Senhor. Estando atentos à voz do verdadeiro Pastor, podemos estar livres das muitas vozes que são direcionadas contra nós. Vozes de falsos pastores. Vozes de acusadores. Vozes de falsos amigos. E tantas outras vozes que causam confusão e podem os tirar do foco.

2. As ovelhas seguem o pastor. Normalmente, por não enxergarem bem e terem uma boa audição, as ovelhas andam atrás do pastor. Usando a voz, o pastor vai na frente guiando o rebanho até o alimento ou ao lugar seguro. Na igreja de Jesus Cristo, as ovelhas que ouvem bem a voz do Pastor Senhor, pelo aprendizado da palavra, mantêm-se imunes de ataques malignos. Quando permitimos que Jesus ande à nossa frente, nunca erramos o caminho, embora no caminho não estejamos propenso a erros. Mas a boa ovelha sabe que no caminho a gente pode errar, cometer atos falhos, mas jamais podemos errar o caminho.

3. As ovelhas vivem sempre juntas. Por questão de segurança, as ovelhas andam sempre próximas umas das outras. Pessoas que são ovelhas na igreja, são fáceis de serem reconhecidas. Elas não têm problemas de ficarem próximas umas das outras, em saudável relacionamento e harmonia. Não se isolam, não alimentam orgulho besta no coração, evitam fofocas e não ficam de atrito entre si. As ovelhas que não ficam juntas uma das outras, se tornam vulneráveis ao ataque do mal.

4. As ovelhas aceitam disciplina. Disciplina é ensino, orientação, correção. Uma das características mais comuns nas ovelhas é que quando elas são levadas ao abate, diferentes dos outros animais, elas são silenciosas. Mesmo na hora do sacrifício, elas se mantêm caladas, como se aceitando tudo sem dizer nada. Na igreja sempre há aquela pessoa que aceita correção, ensino, disciplina. Ela não murmura e se sacrifica em favor do Reino, porque sabe que na sua administração aquele Pastor Senhor em que ela pode confiar, que o guarda e o livra.

5. Ovelhas se adaptam facilmente a qualquer ambiente. A espécie ovelha existe em todas as partes do mundo. Está presente nos cinco continentes. Quer em vales ou em regiões montanhosas, a ovelha se adapta facilmente. Quer em regiões de deserto ou em lugares de climas temperados, as ovelhas conseguem viver. No reino de Deus, aqueles que aceitam o desafio de serem ovelhas do Pastor Senhor, também serão levados, por amor ao evangelho, a diferentes lugares do mundo, se adaptando a diferentes climas e situações transculturais. A ovelha humana que ama o seu Pastor Senhor, não rejeita o chamado. Vai a qualquer lugar: de frio ou de calor, de cidade ou povoado, de vilarejo ou de campo, de agrovilas ou de matagal. Ela não reclama e, ainda, agradece pela vida que o Criador lhe deu, pela oportunidade de poder estar seguindo ao Pastor, de poder estar servindo a Ele. Podem até ter dias difíceis, sol quente ou chuvas torrenciais, mas aquele que tem consciência de que é ovelha do Senhor e de que Ele é o seu Pastor, vai e faz o serviço do mesmo jeito. Nos dias agradáveis, louvam e agradecem a Deus. Nos dias difíceis, oram e buscam a face do Altíssimo. Para a ovelha fiel, as montanhas da vida são lugares ambientados de adoração e louvor, os dias turbulentos são momentos de oportunidades e ação. Quem é consciente de que o Senhor é o seu Pastor, em nenhum momento deixa de ser ovelha.

6. Ovelhas preferem solos de planície e depressão. As ovelhas preferem lugares de planície e depressão alongada porque, normalmente, são lugares onde existe rios, riachos e ribeirões. Assim, em volta às pastagens, elas podem encontrar facilmente água fresca para beber. Além disso, a ovelha consegue reproduzir melhor em climas temperados que há nos solos baixos. Ali, os alimentos são melhores. No aprisco de Deus, as ovelhas são as pessoas que passaram pela experiência do novo nascimento. E quem passou por esta experiência, gosta de se alimentar da palavra de Deus. Gosta de estudar e ouvir a palavra da sabedoria. Quanto mais profundo o ensino, mais ela muda de vida, mais ele cresce na graça e no conhecimento. Aí, ela se torna uma pessoal espiritual e sólida. Quem nasceu em Cristo, é ovelha de Jesus, pastoreada por ele, e gosta de se alimenta da palavra que realmente sai da boca do Senhor: palavra profunda, temperada e cheia do poder de transformação.

— Pastor — disse a irmã que ilustra este artigo — eu comecei a ler o Salmo 23, passei para outros pontos da Bíblia e, agora, sinto um desejo profundo de servir a Deus.

7. Ovelhas ruminam o alimento absorvido no pasto. As ovelhas pertencem à classificação de animais ruminantes. Os animais ruminantes são caracterizados por um estômago com quatro compartimentos. As quatro partes são o rúmen, o retículo, o omaso e abomaso. Diz-se que os ruminantes têm quatro estômagos. Mas, na verdade, o seu “estômago” tem quatro partes. Então, vamos considerar que as ovelhas têm “quatro” estômagos e, portanto, comportamento “ruminar-mascar”. Isto quer dizer que as ovelhas vivem sempre mascando. Vale explicar que a ruminação é um bolo alimentar que foi regurgitado. As ovelhas, no pastor, engolem gramíneas e ervas, armazenando-as no sistema rúmen, que ocupa uma grande porcentagem da cavidade abdominal do animal ruminante. Na hora do repouso, a ovelha regurgita e mastiga novamente os alimentos que voltam do estômago à boca. Ovelhas pertencem ao grupo de animais herbívoros e pastadores. Mas são mais herbívoras que pastadores. A orientação dos especialistas é de que tudo entra pela boca: saúde, vigor, doenças, lucros e prejuízos. Então, eles dizem, é preciso estar sempre atento ao que desce pela garganta das ovelhas. No aprisco de Deus, as ovelhas humanas precisam saber do que estão se alimentando, para se livrarem de enfermidades espirituais no seu processo de crescimento também espiritual. A exemplo das ovelhas ruminantes, as ovelhas do Senhor têm a “memória-rúmen”. Isto quer dizer que devem guardar os ensinamentos do Pastor Senhor para, depois, ficarem mastigando, mastigando, mastigando até chegarem à maturidade espiritual. A vida espiritual adulta é aquela que não dar trabalho na igreja. Em vez disto, ela trabalha, ganha outras ovelhas para o Reino e faz outros crentes crescerem na fé. Grandes problemas na caminhada cristã poderiam ser evitados se as ovelhas forem bem alimentadas e devidamente tratadas “gramíneas” e “ervas” nutritivas e saudáveis espiritualmente. Ovelhas que são bem tratadas espiritualmente, não são egocêntricas. Um bom discipulado pode prevenir várias doenças espirituais no crescimento cristão.

Conclusão: a psiquiatria do Senhor aplicada à cura da alma

O Salmo 23 é um texto de remédios de eficácia comprovada para as enfermidades da alma e do espírito. Assim como uma prescrição médica pode ser aviada nas drogarias, também estas “receitas” podem ser levadas ao consultório divino, que está sempre aberto para todos de alma abatida, machucada e cansada.

Deus, o maior psiquiatra das nossas almas, nos convida chegar até Ele e receber consulta gratuita. O tratamento é simples:

a)      Um retorno à fé;

b)      Permitir que o Senhor seja o seu Pastor;

c)      Buscar intimidade nele e com Ele;

d)     Abrir o jogo sobre seus traumas, decepções e problemas específicos;

e)      Manter sempre leitura cuidadosa, feita com meditação e em espírito de oração, do Salmo 23, dos Dez Mandamentos, do Pai Nosso e das Bem-Aventuranças.

f)       Fazer exercícios: físicos, mentais, espirituais e emocionais.

São exercícios simples mas que requerem disciplinas. Em vez de você se empanturrar de sedativos, antibióticos e analgésicos, consulte a Deus e busque o sentido da vida nele. É isto que o Salmo 23 propõe.

A palavra psiquiatria resulta da junção de dois vocábulos gregos: psyche e iatreia. Juntas, formam o vocábulo composto psyche-iatreia. A palavra psyche significa pessoa, mas também pode ser traduzida como fôlego, alma, mente, razão, etc. O termo iatreia significa tratamento, cura, restauração, etc. Unindo as duas palavras, temos: a cura da mente ou, como disse o rei Davi, a restauração da alma.

Então, psiquiatria significa tratamento médico ou tratamento levado a efeito por um médico. Mas pode ter outros significados também. Pensando bem, a psiquiatria não deve ser limitada apenas à ciência médica. Muitas vezes, um ministro do evangelho tem que ser um verdadeiro psiquiatra, ao lidar não apenas com a mente das pessoas, mas com a sua alma.

Por conseguinte, a função essencial da vida cristã é conseguir um perfeito equilíbrio e/ou ajustamento entre a mente e a alma humana. O Santo Agostinho dizia: “Minha alma está inquieta, e sempre estará, enquanto não encontrar seu repouso em ti, ó Deus”. Davi disse: “Refrigera a minha alma” (Salmo 23.3).

Davi, na condição de ovelha do Senhor, parece estar sugerindo que curar a alma significa levar a ovelha ou o paciente a um entrosamento correto com as leis físicas, mentais e espirituais de Deus.

Um psiquiatra é uma espécie de ministro da parte de Deus. Todas as verdadeiras pesquisas científicas são, na realidade, esforços organizados para se conhecer as leis de Deus, e descobrir como é que elas funcionam.

Um pastor de igreja é um ministro de Deus que aprende a lidar com leis e princípios espirituais. Ele sabe como as coisas funcionam no que concerne a isto. Quem ensina também é um ministro de Deus. A tarefa do professor é simplesmente treinar a mente do aluno para este aprenda. Toda mente que raciocina erradamente é uma mente enferma. Então, o que um pastor-conselheiro faz realmente é aplicar aos seus aconselhandos os benefícios de uma parte da vasta ciência que é a psiquiatria.

Entretanto, o cuidado do cristão está acima do cuidado do corpo e da mente. A tarefa do ministro do evangelho se relaciona com a alma da pessoa humana. Ele crê que se a alma estiver enferma, então todo o homem estará doente. E ele lida com o conceito que só Deus pode curar a alma ferida.

— Pastor, estou completamente feliz — gritou, ao telefone, a irmã abandonada pelo marido. — Sinto uma alegria tão profunda que não sei explicar. Tenho o maior prazer de ir à igreja, me envolver, orar, louvar e falar de Deus às pessoas. Estou emprega e vivendo super-feliz com a minha filha.

Finalmente, a terapia principal, a mais importante, é a da psiquiatria de Deus. Nela a essência está revelada em quatro das passagens mais conhecidas da Bíblia: Salmo 23, Dez Mandamentos, o Pai Nosso e as Bem-Aventuranças. Neste artigo, tratamos apenas do Salmo 23, mas os outros textos mencionados são igualmente terapêuticos.

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BATTISTA SOAREZ é autor do livro E assim o amor acontece: um diálogo puro e aberto sobre amor e sexo no ambiente da espiritualidade (Visão Global Editora/Arte Editorial, SP, 2012).

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