Publicado por: Battista Soarez | julho 14, 2013

MISSÃO CRISTÃ E CIDADANIA

A PRÁTICA DA CIDADANIA COMO ESTRATÉGIA MISSIONÁRIA

ProjetoNovaAlcantara

Escola do Projeto Nova Alcântara, no Maranhão, inspirado no livro A IGREJA CIDADÃ

O DESENVOLVIMENTO DAS SOCIEDADES e a sua complexidade em diferentes áreas (econômica, política, cultural, intelectual, religiosa) assentam-se no aprofundamento de um fosso de desigualdades que têm gerado inúmeros contingentes de “viúvas” e “órfãos” destituídos dos direitos mais elementares necessários à vida digna: moradia, trabalho, educação, saúde, alimentação etc. Em diversas nações, os números aumentam. O que dizer do Brasil, onde os desfavorecidos somam 32 milhões (ou mais)? O Brasil campeia os primeiros lugares em termos de desigualdade e concentração de renda.2 E, que nos diz a Palavra de Deus a esse respeito?

Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram as vossas terras e que por vós foi diminuído clama; e os clamores dos que ceifaram entraram nos ouvidos do Senhor dos Exércitos (Tg 5.4).

E esse clamor Deus tem levado à sua igreja (em diferentes denominações). Deus tem, também, clamado pela justiça de seu povo. Esse clamor expressa-se no olhar de crianças na rua à mercê da criminalidade e da prostituição, no desespero de pais e mães de família desempregados e sem qualquer fonte de renda, no abandono e na luta dos sem-teto e sem-terra.

O mundo, historicamente, desenvolve-se e se moderniza à custa da exploração, da espoliação e da exclusão. E o que fazer?

A palavra de Deus afirma, exortando-nos: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2). O texto evidencia a necessidade de um novo entendimento, de uma nova concepção que fundamente a construção de um novo mundo, um novo reino onde impere a vontade de Deus com seu poder e sabedoria.

Nesse sentido, indagamos, e a igreja? Qual tem sido a sua atuação na construção do reino de igualdade e justiça? Reservamo-nos a ousadia de algumas considerações críticas. Quantos recursos investidos na construção de templos e concessão de privilégios a lideranças! Não seriam mais bem aplicados na recuperação de vidas estraçalhadas pelos efeitos da fome e da miséria, na restauração dos “verdadeiros templos” do Espírito Santo? Jesus afirmou: “Derribai este templo, e em três dias o levantarei” (Jo 2.19). A limitada compreensão humana associou o Templo com a imensa construção de pedras que levara anos para ser edificada. Jesus referia-se, porém, ao seu corpo: templo perfeito do Espírito Santo, morto e ressuscitado em três dias a fim de nos resgatar para a verdadeira vida.

“Eu vim para que tenham vida e a tenham com abundância” (Jo 10.10). Vida com abundância é o mesmo que vida plena, digna em todos os sentidos. Observamos assim que o templo verdadeiro é o corpo de Cristo, e quem renasce em Jesus torna-se templo verdadeiro, templo de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo: “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo” (1Co 3.16,17).

A palavra é clara e leva-nos a refletir sobre os milhares de templos de Deus que vêm sendo destruídos em todo o mundo, em função da cobiça, da ganância, do egoísmo e da obediência cega a dois perigosos deuses: o dinheiro e o poder.

Em tese, a justiça de Deus, por ação do Espírito Santo que habita no cristão consciente de seu papel, clama para a reversão desse quadro, impelindo a igreja a refletir sobre o verdadeiro sentido de sua missão, sobre o conteúdo de sua evangelização. Para tanto, até que ponto ela entende o seu papel (ou missão) de agente social entre Deus e os homens? Será que a igreja tem noção de sua alta responsabilidade e que essa responsabilidade deve ser socializada em um contexto de justiça e igualdade, no âmbito das necessidades humanas? É o que tentaremos mostrar neste trabalho de reflexão socioteológica.

A igreja, bem como a sociedade de modo geral, tem presenciado e vivido momentos de fortes e históricas conturbações, tanto no âmbito sóciopolítico-cultural quanto no religioso. Isso se deve, entre outros fatores, à decadência moral daquele que se diz racional: o ser humano, no seu complexo universal.

Diante disso, resta-nos algumas interrogações. Que espírito animará o brasileiro no século xxi? Estará ele disposto a rever conceitos, a reformular pontos de vista, a reconquistar a dimensão espiritual de sua existência, que a competição e o individualismo da sociedade moderna acabaram por lhe roubar? Acreditará ele que a sociedade do futuro não se assentará em bases puramente materialistas, mas em uma junção de esforços em que os valores do espírito terão papel significante? Dentre as respostas a tais questionamentos, apontamos a atuação da igreja como parte da sociedade consciente e planificada por Deus, a qual deve planejar a evangelização dos povos sob uma perspectiva diferenciada, avançada e coerente com as questões que se colocam à sociedade. Deve ter consciência de que a expressão “Reino de Deus” vai além de pregar e orar.

É de fundamental importância, pois, que a igreja assuma a sua posição dentro da sociedade organizada e inicie um programa de superação das injustiças e desigualdades, com base nos critérios da palavra de Deus. É preciso mexer nas estruturas sociais — provocar o impacto que o poder da graça, ou evangelho, possa causar nos segmentos geralmente manipulados por interesses espúrios — a partir de uma mentalidade que se digne promover a evangelização do futuro mediante uma interpretação dos caminhos da consciência humana na avidez de compreender a si mesma para, então, compreender os rumos da própria existência.

A evangelização moderna ainda tem muito que aprender de Jesus, com base no que ele ensinou nos evangelhos, durante a sua caminhada entre os homens na terra. Isso no sentido coletivo: alguém vendo o “outro”, este vendo o “outro” e esse “outro” vendo as necessidades daquele “outro” (Mt 7.12). Assim, é preciso entender que todos devem trabalhar em função de todos, isto é, do bem comum. E essa conscientização “para o coletivo” é também tarefa da igreja.

A nossa contribuição apóia-se no argumento exposto acima. Digo contribuição porque penso que o leitor estará mais apto a compreender a fé e a exercê-la, utilizando o conhecimento obtido para recuperar vidas a serem integradas no Reino do Deus Todo-Poderoso, o Criador do ser humano em sua complexidade existencial.

__________

1Sendo uma instituição social, a igreja pode desenvolver vários programas de desenvolvimento sustentável, administrando projetos sociais junto a comunidades carentes. Algumas igrejas criaram associações ou fundações para facilitar o seu trabalho na busca de recursos nacionais e estrangeiros. No nosso caso, temos o Instituto de Pesquisa Ensino e Ressociabilização (IPER), que viabiliza a busca de projetos sociais para implementar em comunidades carentes a recuperação de drogados e prostitutas e outras iniciativas.
2Estudos mostram que a concentração de renda no Brasil é o principal fator gerador da pobreza. Não havendo distribuição adequada, o dinheiro da população fica acumulado nas mãos de apenas 10% dos habitantes, representados pelas classes dos políticos, empresários e funcionários de alto escalão. Somados a isso, vêm os impostos que, por serem muito altos, agravam a situação da população de baixa renda, impedindo condições econômicas administráveis.
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