Publicado por: Battista Soarez | junho 30, 2013

ORGULHO GAY X ORGULHO EVANGÉLICO

ORGULHO GAY VERSUS  ORGULHO EVANGÉLICO

Onde vai parar essa guerra?

Por BATTISTA SOAREZ

Liberdade escondida [na noite]

Quem anda pela avenida São Luís Rei de França, na capital maranhense, após as 7:00h da noite, pode ver em cada esquina alguém como R.C.T, de 23 anos, chamando a atenção de quem passa. Ele está quase nu, de bunda virada para a avenida, onde passam milhares de carros em velocidade média ou baixa.

Orgulho gay

R.C.T. está vestido de maneira no mínimo inusitada: um biquíni fio dental, sem outra peça por cima, peitos volumosos siliconados, de fora, cabelos longos, sobrancelhas pintadas e o rosto cheio de brilhos. As botas são pretas e têm salto alto. Ele aceita conversar conosco, sem saber, inicialmente, que se trata de um jornalista. Mas logo depois…

— Ai, gente! Você é jornalista, é? — espanta-se ele. — Tá gravando alguma coisa aí?

— Não — garanti.

— Tem câmera escondida? — ainda quis saber ele.

— Também não. Fique tranquilo. Só quero saber algumas coisas importantes para fazer minha matéria. Não vai prejudicar você em nada.

R.C.T. mostra-se preocupado com a presença de jornalista por um simples motivo: é profissional, trabalha de carteira assinada numa grande empresa de São Luís. Ele teme sofrer algum tipo de represália.

Há cinco anos, “R.” trabalha nas esquinas das avenidas da capital maranhense e usa o dinheiro que ganha para ajudar nas despesas domésticas, pagar o aluguel e luxar. Pergunto o que ele acha do movimento LGBT. O jovem faz fricção nas maçãs do rosto, usando delicadamente as duas mãos.

— Ai, gente — diz ele. — Eu participo, sabe? Mas sou diferente de algumas colegas. Não gosto de balbúrdia. Espalhafato não combina comigo.

“R.” teme o preconceito ainda existente, critica o deputado Marcos Feliciano e diz que a sociedade segue a passos lentos quando se trata de diversidade sexual.

Como “R.”, milhares de homossexuais têm saído às ruas para proclamarem o “orgulho gay”. Orgulho que nos últimos tempos tem provocado polêmica, protestos e muita confusão, inclusive no Congresso Nacional. Orgulho que incita provocações e rebuliços entre políticos, ativistas defensores do movimento gay e ativistas religiosos.

Orgulho evangélico

Por outro lado, outro orgulho exacerbado: o evangélico. O “orgulho evangélico” põe o grito nas ruas e disputa espaço no cenário da mediocridade com o “orgulho gay”. Uma guerra que não se sabe até aonde vai parar.

— Sou evangélico e não posso admitir nenhuma coisa do diabo como certa —disse-me um certo pastor enquanto discutíamos sobre o assunto.

— Mas, pastor — intervi. — Não seria mais interessante se a igreja revesse sua postura e pensasse numa resposta melhor quanto à questão da homossexualidade? Tudo se atualiza, só a igreja não. Por que?

— Não me diga que você concorda com ativismo gay. Isso é coisa do diabo — esbravejou ele.

— Não, não! — retruquei. — Não concordo. Mas o “ativismo evangélico” é tão chato quanto o “ativismo gay”. Em vez de juntar, espalha. Você não acha?

E, assim, essa é a postura da igreja. É tudo o que ela tem para oferecer diante de um mundo com mais ou menos oito bilhões de habitantes que gritam por salvação. O mundo avança na ciência, na tecnologia, nas questões sociais etc., mas a igreja permanece dogmática e estática, sem saber o que fazer com a missão que ela tem de evangelizar o mundo. Para a igreja, evangelizar ainda é “protestar”. E protestantizando, ela ainda ilude-se de que pode mudar o mundo.

“Orgulho evangélico” X “orgulho gay”

Alguns ativistas evangélicos tentam convencer os gays a aceitarem a si mesmos na condição de homem ou mulher. Eles indicam que o caminho certo é Jesus (e de fato o é). Porém, para converterem os gays a Cristo, impõem um evangelho de acusação e ódio, ou seja, de violência psicológica. E esse não é o caminho orientado pelo Senhor Jesus Cristo. O caminho de Jesus é o da aceitação, da amizade, do diálogo, da compreensão, do amor humano, da fraternidade e, por fim, da comunhão.

Ivo Navarro, da igreja batista e um dos ex-homossexuais que integram o movimento evangélico, afirmava recentemente em São Paulo:

— Aqui [no mundo] é um momento de diversão passageira, vazia. É uma alegria repleta de vícios, bebida e sexo livre. Depois que passa tudo isso, o que fica? A frustração. A verdadeira alegria é Jesus.

Ele disse que, antes, buscava esse tipo de vida. Mas quando descobriu Jesus viu que a vida não é isso. E afirmou repetidas vezes que o homossexualismo é uma atuação de satanás.

— Se você ler a palavra de Deus, vai ver que Ele não aceita a homossexualidade — disse ele, instruindo sobre a união familiar segundo a Palavra de Deus, enfatizando não estar de acordo com a união entre pessoas do mesmo sexo. — Não sou a favor. Você tem útero, vagina? Deus te fez homem. Você deve se aceitar assim.

Uma colega do grupo de Ivo Navarro, que não quis se identificar, afirmou ter abandonado o lesbianismo após entrar na igreja.

— Tinha 20 anos — disse ela — e só me relacionava com mulheres. Daí me encontrei com Deus. Foi de repente. A vida que eu estava levando era vazia. Tive um sonho que abriu meus olhos. O namoro homossexual sempre dura pouco.

Ela explica que o seu relacionamento mais longo durou apenas um ano e meio. E recebe apoio de outra integrante do grupo, Maria Grisante, 48, que faz trabalho de conversão de travestis em Santo André.

E assim o “orgulho evangélico” vai tentando converter o “orgulho gay”. Uma cana-de-braço cheia de conflitos e desgastes. Durante a evangelização, a maioria não aceita os panfletos com mensagens bíblicas, exceto quando é em troca de camisinha.

Interessante notar que outros, declarados “evangélicos” da Igreja Cristã Evangelho para Todos, contudo, apoiaram recentemente, em São Paulo, a atitude homossexual. Eles alegam que o amor é universal e independe da opção sexual. Para eles, o importante é seguir os ensinamentos de bondade e caridade em Cristo.

Parada gay. O que faz sentido?

A verdade é que a igreja omite a justiça do Evangelho do Reino. Por isso a “parada gay” faz sentido. Não aquele sentido que banaliza tudo. A banalização já existe — e não se banaliza aquilo que já está banalizado, assim como não se mata aquele que já está morto. Quem está morto, precisa agora é reviver; o que já está banalizado, agora precisa é de desbanalização. — Mas faz sentido no que diz respeito ao próprio sentido da situação gay. Os homossexuais sofrem e clamam por respostas:

  • Resposta por seu direito de proteção à vida.
  • Resposta por seu direito de expressar seus sentimentos.
  • Resposta por seu direito de amar e ser amado — e ter segurança emocional e psicológica.
  • Resposta por seu direito de desfrutar da sua liberdade.
  • Resposta por seu direito de viver, igual a todo mundo.
  • Resposta por seu direito de entrar e viver no Reino de Deus.
  • Os homossexuais não são diabos, são gente como a gente.

Diferente dos anos anteriores, nos quais alguns críticos apontavam uma certa “despolitização”, a Parada Gay 2013 foi marcada por um tom político mais forte. Com o tema “Para o armário, nunca mais! União e Conscientização na luta contra homofobia”, a manifestação representou um protesto contra a ofensiva promovida por setores conservadores contra direitos já conquistados pela comunidade LGBT. Direitos que deveriam ser apoiados pela igreja por ser esta uma comunidade de justiça. Se “alguém” deve fazer justiça no mundo, esse “alguém” é a igreja. Por que? Porque ela, ao seguir Jesus Cristo, logo se propôs a pregar o Evangelho da Justiça de Deus. Justiça da qual os homossexuais são dignitários (não no sentido de “cargo”, mas de dignidade).

Os próprios gays tonificam isso nas suas falas.

— Não queremos voltar a viver em guetos ou ter nossas relações não reconhecidas — afirmou Fernando Quaresma, presidente da Associação da Parada do Orgulho GLBT (APOGLBT), em São Paulo. — Para o armário a gente não volta mais. Para a clandestinidade e a marginalidade não voltamos mais — completou.

Em outras palavras, os homossexuais querem ser “aceitos”, querem ser amados. E este — isto é, a aceitação e o amor — é o primeiro passo para o processo de “cura”, já que estão querendo propor isso. O juridicismo não cura nem traumas de casamento rompido. Pelo contrário, traumatiza ainda mais. Forçar conduzir gays à cura, é uma violência psicológica com severas consequências de traumas e insatisfações doentias. Essa é uma escolha deles, sem forçação de barra.

Quaresma tem fala bem mais sensata que os “ativistas” evangélicos. Para ele, em vez de retrocessos, o movimento reivindica avanços.

— Queremos melhorias e a igualdade de direitos prevista em Constituição — afirma.

Casamento gay: afetividade ou justiça?

Uma das conquistas mais recentes da população LGBT foi a decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em maio, que proíbe cartórios de todo o país de recusar a celebração do casamento civil de pessoas do mesmo sexo ou de negar a conversão de união estável de homossexuais em casamento.

Casamento oficial (ou cartorial) é apenas um contrato social que garante direitos iguais (direito romano) para ambos os lados. E isso é uma questão de justiça. No casamento entre heterossexuais, o princípio é o mesmo. Numa sociedade empresarial, é a mesma coisa. Não tem nada a ver com afetividade. Com cartório ou sem cartório, os gays vão continuar com suas relações homo-afetivas, assim como os heterossexuais vão continuar com suas relações homem-mulher, efetivamente. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Muitos estrangeiros, por exemplo, casam com pessoas de outros países afim de obterem o direito à cidadania daquela nação pretendida. Muitos deles sequer têm relações sexuais. Celebram o ato legal pensando apenas no direito que vão ter.

Os “chamados” e os “escolhidos”

Diante disso tudo, tem-se a verdadeira missão da Igreja (com “I” maiúsculo): clarividenciar a proposição do Evangelho do reino para o mundo. Um mundo cheio de homens e mulheres que têm Cristo, mas Cristo não os tem. Eles e elas podem contar com o Senhor Jesus — o mundo criado por Deus Pai é para todos — mas, infelizmente, o Senhor Jesus não pode contar com a maioria deles e delas.

Mas a verdadeira Igreja não pode se esquivar do “ide por todo o mundo…”. Os desafios são incontáveis, sabemos, mas os verdadeiros “escolhidos” têm o compromisso de apenas pregar o Evangelho do reino a toda criatura. Sem exceção. No meio do mundo de “toda criatura” estão os “muitos chamados”. E no meio dos “chamados”, estão “os escolhidos”. E é a estes “escolhidos” que Jesus dirige a sua ordem: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer já está condenado” (Marcos 16.15,16).

Os que creem [segundo as Escrituras], portanto, são os escolhidos. E estes escolhidos são, ao mesmo tempo, os comissionados. Pois são estes que formam a Igreja com “I” maiúsculo. E qual é, evidentemente, o papel desta Igreja? Sem dúvida, seu papel e dever é: lançar a rede do Evangelho ao mundo de toda criatura — ou das criaturas. Fazendo isto, vai acontecer naturalmente o seguinte:

1 – Os chamados virão.

2 – Os escolhidos creem e permanecerão — o Espírito Santo se revelará a eles.

3 – Os não-chamados, nem virão; e jamais acreditação.

Formada, portanto, pelos escolhidos, a Igreja finalmente não pode desgastar-se “brigando” com criaturas não-escolhidas. Mas deve servir a todos com a missão do reino: cuidar das criaturas, de todas as gentes. E deixar a escolha com Deus. É dele essa responsabilidade. Não é papel da igreja escolher, e sim cuidar. Quando ela entender isto, vai deixar de brigar por “cura gay”, e passará a amar e servir a todos, inclusive os homossexuais.

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