Publicado por: Battista Soarez | maio 3, 2013

ROMANCE

UM PÁSSARO NA MINHA JANELA

BATTISTA SOAREZ

 

O PÁSSARO, A JANELA E EU

Passaro_janela_rusticaCOMECEI ESCREVER Um Pássaro Na Minha Janela ― meu novo livro, um romance ― na segunda metade do ano de 2003. Na época, uma enxurrada de fatos desagradáveis acontecia ao redor do mundo e, ao mesmo tempo, do lado de dentro da minha vida pessoal. Coisas repulsivas, de um lado, desestabilizavam minha estrutura emocional. Desastres no céu, na terra e no mar, de outro, chocavam o mundo de maneira apocalíptica e também desumana. Nas florestas, queimadas assustadoras ameaçavam a respiração do planeta. Enchentes incríveis e tsunamis destruidores preenchiam as páginas dos principais meios de comunicação no mundo inteiro. Que lástima! Dentro da minha própria casa, indiferenças e estupidez partiam meu coração aos pedaços. Ofensas inusitadas, palavreados ferinos e, finalmente, uma cultura tosca pairavam no céu da minha cabeça e eram coisas tão turvas que teciam uma teia perversa de feitos incoerentes. Esta era uma realidade que nunca explicou seus motivos de existência. Nunca disse porquê tinha que ser assim.

— Isso acontece porque você é um escolhido de Deus para dizer algo ao mundo que ninguém nunca disse — preconizavam algumas pessoas à minha volta.

— Você deve estar em falta diante de Deus — diziam outros, religiosos fatalistas, mesmo sem raciocinar direito sobre o que estavam falando.

Meu amor pela esposa e pelo meu filho Gabriel estava profundamente perturbado, ferido, machucado, dilacerado. Por forças bem maiores que a minha capacidade de suportar [e governar as coisas], fui arrancado de dentro da minha própria casa e… Como um cão sem dono, fui jogado na rua do destino, sem destino. Na rua da amargura, da solidão, da falta de amparo, da carência de ter alguém, do meu lado, para me consolar.

Sem esposa, sem filho e sem um lar referencial, lembrava, então, da minha família, da época de infância, do colo da minha mãe. Mas ela não estava aqui, perto de mim, para me dar colo e me prestar seu apoio. Minha mãe! Estava distante, agora! E, depois de algum tempo, foi embora para sempre, deixando saudades eternas e um rastro de boas lições para eu seguir.

De repente, eu me vi enfurnado dentro de um labirinto de acusações infundadas. Do lado de dentro da igreja evangélica, organização cristã a que pertenço, uma avalanche de acusações perturbava minha mente. Do lado de fora dela, paradoxalmente, encontrava ombros amigos complacentes, palavras animadoras, ares e sorrisos condescendentes e sábia admiração. Isso confundia — e ainda confunde — minha inteligência espiritual. Até hoje, fico em profunda dúvida, me perguntando quem de fato é seguidor do Cristo: se os religiosos que estão dentro da igreja administrando palavras e atos conflituosos [ofensivos] em nome da fé ou se as pessoas que estão lá fora, no mundo, fazendo caridade e acolhendo gentes necessitadas em nome da boa vontade.

Sempre me perguntei quem, de fato, é a criatura que representa o Deus da justiça no planeta terra: se o fariseu [crente] impiedoso ou o amável samaritano [pecador] cheio de complacência.

Do lado de fora da minha vida pessoal, mais fatos chocantes perturbavam a visão de realidade no planeta e chamavam a atenção do mundo. Na Ásia, especificamente na Indonésia, por exemplo, um tsunami desastroso vitimou milhares de pessoas. Depois, mais outro — desta vez no Japão — despejava toda a sua fúria, como num ato de vingança, contra a mais poderosa tecnologia do mundo.

O mar fica bravo. A natureza se agita. A terra esquenta, como um caldeirão gigante. E estremece. Geleiras se derretem. Furacões derramam toda a sua fúria contra cidades inteiras, em várias partes do mundo, sem explicar o porquê. Aviões se desintegram no ar e caem, matando centenas de pessoas.

Se, de um lado, tecnologias falhas punem os homens nas suas tentativas limitadas de brincar de Deus, de outro é a resposta da natureza pelo que estão fazendo com o planeta.

— Deus! — espantam-se as pessoas estarrecidas por cada fato novo em cada momento em que a história se constrói na evolução do tempo.

No Brasil, milhares de toneladas de peixes morriam no rio Amazonas. Um desastre ecológico como nunca houve antes na história do país. Ninguém conseguia explicar. A violência chegava a causar náusea em quem ainda tem um pouco de consciência. Dava nojo. Dava arrepios. Os seres humanos estão sempre retroagindo no tempo, no seu processo civilizatório, à medida que a ciência avança e a tecnologia explode em um desenvolvimento inexplicavelmente assustador e fascinante. Fascinante mas ao mesmo tempo perigoso e triste. Triste, mas ao mesmo tempo necessário para a atual conjuntura tecnológica do mundo. Um perigo que poucos percebem. Uma tristeza que não se pode entender muito dela.

Para que a tecnologia possa crescer, sacrificam-se outros mecanismos da vida. A humanidade paga um preço descomunal por isso. O aquecimento global preocupava especialistas, enquanto o senso comum, na sua inocência, continuava desmatando para conseguir algum capital e, assim, não sucumbir na inanição. A miséria ri da situação das pessoas, das suas vítimas: os necessitados. Os necessitados também são cobaias de poderosos e gananciosos. Na verdade, são usados pela classe política por meio da força coercitiva do voto.

No Brasil, quem não vota sofre consequências graves. É a ditadura do poder democrático encurralando os homens no mundo. Um mundo melancólico e complexo demais! E a democracia é a pior ditadura que tem, porque ela é silenciosa, como um câncer. Vive do povo e adoece o povo. Suas armas são a burocracia, o superfaturamento, a compra de votos e o discurso enganoso. Em 2003 era isto que se instalava na sociedade brasileira.

Na época o presidente Lula, ainda no início do seu governo, sofria perseguição por parte da oposição. Forças internacionais invadiam o Iraque. Saddam Hussein foi enforcado. Outras guerras, ainda, eclodiam no Oriente Médio. O mar pegava fogo e milhares de espécies eram mortas por causa do derramamento de petróleo sobre as águas do Golfo do México.

— O mundo vai se acabar — algumas pessoas comentavam, desesperadas, nas esquinas e nos bares. — O fim dos tempos chegou.

— Não é verdade — diziam os céticos, que procuravam dar explicação científica para o que a ciência não pode explicar.

— Os sinais estão se cumprindo, mas o fim do mundo não vai acontecer assim — tentavam esclarecer os teólogos, se fundamentando apenas na teologia da esperança.

Embora seja uma palavra que já não trás tanto conforto assim, esperança, aliás, é o que ainda tem alimentado a fé das pessoas num mundo cada vez mais desesperançado. A violência, a falsidade, a hipocrisia e a falta de amor formam uma cotidianidade social no mínimo apocalíptica. E anunciam o fim dos tempos. Mesmo que seja o fim dos tempos da esperança, quando as pessoas não esperam mas nada, não acreditam mais que o mundo possa mudar para melhor, nem creem mais em regeneração. É o fim principalmente de um mundo sem conflitos. Insta-se um mundo sem paz, sem aconchego, tão violento quanto a própria violência.

Nunca se venderam tantos filmes sobre o apocalipse. Livros sobre o fim dos tempos vendiam milhões de cópias.

— É melhor se preparar — preconizavam os escatólogos.

Evidentemente, o que se sabia, de fato, era que as temperaturas elevadas geravam mudanças climáticas no planeta. E as mudanças ocasionadas alteravam os padrões das chuvas, que caiam ácidas sobre o solo maltratado pelos homens. E, assim, tudo isso se espalhava pelo universo, gerando oportunidades e ao mesmo tempo catástrofes. Aliás, oportunidades e catástrofes se misturavam, gerando proveitos capitalistas para uns e desgraça fenomenológica para outros.

A vida, no meio disso tudo, no plano humano, era uma mistura de alguma coisa com quase nada. No Norte e no Nordeste do Brasil a miséria andava solta. Naquela época, a falta de água, de comida e de qualidade de vida eram os principais assuntos do dia. O mundo, de fato, passava por mudanças em todas as estruturas.

Eu pensava. Refletia. Imaginava coisas. Minha imaginação de autor inquieto dizia que eu devia escrever Um pássaro na minha janela, diante de tudo que acontecia. Primeiro foi uma poesia. E tudo começou aí. Depois, um pequeno conto. E peguei gosto pela coisa. As palavras, então, se fertilizaram ao impulso de uma imaginação inspirada na dor emocional por conta do doloroso rompimento de laços familiares.

— Battista, família é uma instituição falida — disse-me o professor Petrus Johanny Von Ool, ex-padre holandês radicado no Brasil desde a década de 1960.

Petrus foi aluno do filósofo existencialista Jean-Paul Sartre e do pai da psicologia analítica Carl Gustav Jung. Com ele eu convivi durante algum tempo (no período de universidade) e aprendi que o existencialismo, ao contrário do que diz certa ala da crítica cristã, é um caminho intelectual mirado na realidade da vida.

— Seu romance é um romance existencialista — diziam-me alguns amigos que leram os originais.

Existencialista? Não sei! Naturalista? Talvez! Devo dizer, apenas, que a história do pássaro, no início do livro, é real. Uma situação no mínimo inusitada aconteceu de fato e inspirou a história inicial. Peguei, então, o gancho do pássaro e busquei, a partir daí, outros fatos que enriqueceram a obra no seu todo.

Eu tinha mudado de bairro e fui morar numa casa cercada de árvores e pássaros no quintal. Eram muitas espécies. Tinha a felicidade — poeticamente indubitável — de acordar de manhã cedo ao som cantarolado por eles, os pássaros, e vivenciar aquele clima ainda neblinado pelos últimos orvalhos de uma boa noite de sono. Confesso que aquelas gotículas da umidade atmosférica, pousadas sobre a grama verde, me inspiram a pensar. Eu, então, punha mais emoção no texto romanesco. Ora mais rápido, ora mais devagar. Houve momentos em que levantei no meio da madrugada para escrever algum pensamento que perturbava, naquela hora, a minha imaginação.

Depois de muito escrever, conclui a obra no final de 2010. Ficara uma história emocionante. Um romance ecológico de alto nível, segundo os meus críticos particulares. Todavia, no dia 4 de abril de 2011, quando então fazia a última revisão da obra, um fato extremamente desagradável aconteceu. Estacionei o carro à sombra de uma mangueira frondosa. E, enquanto trancava as portas, caiu uma manga à minha frente. Olhei-a. Agachei-me. Peguei-a. Cheirei-a. Percebi que a fruta estava madura. Uma delícia. Não relutei em descasca-la e comer imediatamente.

Sujei as mãos com o conteúdo suculento da fruta e, por isso, tive de ir ao banheiro antes de entrar no meu escritório de trabalho. Para lavar as mãos, arriei a bolsa com o notebook no chão, ao lado. Somente por um pouco. Depois de lavar as mãos, procurei um papel para enxugá-las, mas, infelizmente, não encontrei. Nisso esqueci a bolsa com o notebook e todos os acessórios. No maldito banheiro, só estávamos eu e outro rapaz, que trabalhava no escritório ao lado. Ele saiu por último e levou minha bolsa com tudo o que estava dentro.

Mais tarde, eu o procurei, mas ele se recusou devolver os objetos, negando que tinha pegado a bolsa.

— Eu falei com um rapaz ali que levou seu notebook — disse ele. — Mas ele me disse que seu notebook foi formatado e a pessoa responsável está com vergonha de devolver.

Caso perdido. Tratei de comprar outro notebook. E assim iniciei o trabalho de reconstruir Um pássaro na minha janela. Mas percebi que já não era a mesma fluidez. Minha mente ficava o tempo todo pensando no texto anterior. Não era mais a mesma inspiração. Não eram mais as mesmas palavras. Não era o mesmo contentamento. Nem a primeira empolgação.

Os escritores de romance fazem o papel de “deus”, no sentido de criar personagens. Dar vida a eles. Criar o “mundo” deles. Mas é num momento como este — em que se perdem os originais de um livro — que nos sentimos limitados. Temos a sabedoria de criar personagens, mas não temos a onisciência de saber onde estão os originais perdidos, nem quem é a pessoa que nos roubou. Não somos onipresentes para evitar o roubo. Nem temos a onipotência de recriar a história exatamente como era a primeira versão: o mesmo texto, as mesmas palavras, as mesmas frases, a mesma emoção.

Tudo o que pude fazer foi avançar no projeto de refazer tudo de novo. E foi o que fiz, trabalhando com mais pressa e mais habilidade. Depois de algum tempo, já estava com a obra quase toda pronta novamente.

Todavia, quando já tinham mais de 100 páginas, um ladrão abriu meu carro — enquanto estacionei no Aeroporto Internacional Cunha Machado para embarcar um amigo que ia viajar para o Rio de Janeiro — e levou o segundo notebook. Perdi mais de duas mil horas de trabalho pela segunda vez. E desta vez, os bandidos levaram dinheiro e outros objetos. Mais uma vez o livro e todas as cópias em pendrive se foram. Entrei em desespero. Investiguei os bandidos e descobri o mapa dos criminosos. Peguei os nomes dos marginais e fui à delegacia de roubos e furtos.

— Delegado, peguei os nomes dos bandidos e sei onde eles estão — disse eu, na esperança de que receberia apoio para ter meus objetos de volta.

— Mas você não tem provas — retrucou o delegado. — Hoje tá assim. A gente prende o bandido, mas a justiça o solta. E você ainda corre o risco de ser processado por falsa acusação. Precisamos de provas. Você tem?

— Delegado, — disse eu com ímpeto de indignação — bandido nenhum, após cometer um furto, assina uma declaração deixando-a no lugar de onde roubou o objeto.

— Sei — concluiu o delegado. — Mas se nós prendermos os bandidos sem flagrante, eles vão negar o crime. E você vai levar a pior.

Irritado, pensei num monte de besteiras. Pensei em fazer justiça com as próprias mãos e sabia como fazer isto exatamente. Mas me controlei, depois de rever minha fé cristã e ler que Gregory David Roberts reescreveu Shantaram por três vezes, após a polícia destruir seus originais pela mesma quantidade de vezes. Procurei tirar boas lições disso. Li Shantaram de um fôlego só. E, então, encontrei coragem para reescrever Um pássaro na minha janela pela terceira vez.

— Você está triste, amigo? — quis saber um vizinho que me viu sentado na porta da minha casa olhando para o chão, observando o incansável trabalho de uma sociedade de formigas.

Os minúsculos formicídeos estavam conduzindo um besouro de tamanho descomunal em relação ao seu tamanho. O coleóptero ainda mexia as pernas, como que pedindo socorro para o nada, gritando misericórdia para um mundo de ninguém. Cada vez que o besouro tentava escapar, as formigas socializavam belo exemplo de união, arregimentando mais força, entre si, para defender a refeição do dia. Umas puxavam o inseto pela frente. Outras ajudavam do lado. Enquanto outras mais pareciam ajudar empurrando o objeto pela parte de trás. As pequenas formigas pareciam ter pressa, como se tivessem outros importantes afazeres. Por isso lutavam, caminhavam, revezavam-se. O gigante inseto tetráptero levantava as antenas, balançava as patas, mexia as asas. Mas as formigas, estrategicamente, davam um jeito de imobilizá-lo. Eu, então, olhando aquela cena da natureza, tentava tirar algum proveito intelectual, alguma lição. Lembrei-me dos especialistas. Eles dizem que os himenópteros — minúsculos predadores que vivem em sociedade — são capazes de conduzirem um objeto até cem vezes maior e mais pesado que o seu próprio tamanho e peso. É como se um homem de 80 quilos fosse capaz de carregar 8 mil quilos sobre seu ombro. O que é absurdamente impossível.

Tudo por causa de uma só coisa: a união. As formigas, unidas, trabalham como ninguém. São mestras de organização social, dentro do seu próprio mundo, é claro. Talvez seja por isso que Salomão, o homem mais sábio da Bíblia, manda o preguiçoso a aprender com as formigas. Para ele, os formicídeos são excelentes professores de trabalho, união, organização e produtividade. Os humanos, para Salomão, podem aprender com o mundo dos insetos. Insetos que, por vezes, são mais úteis e inteligentes que os humanos. Vai aprender com as formigas, preguiçoso, ordena o sábio das sagradas Escrituras. E eu vinha pensando naquilo há um bom tempo: fazendo um comparativo entre o texto bíblico e aquela cena.

— Não, não — respondi ao meu vizinho. — Estou apenas pensando em como reconstituir meu livro, meus personagens… os detalhes da obra. Algo assim… muito particular… coisas que só eu entendo.

— Ah!, o romance! — exclamou ele.

— Sim. Sim.

— Tenho certeza — assegurou o homem — de que você vai conseguir escrever seu livro com muito mais coragem e criatividade. Vai ficar melhor que a versão anterior. Você vai ver.

— Obrigado. Você é muito otimista. E eu o agradeço por isso — ponderei.

Tirei a vista, por um pouco, das formigas e fixei no vizinho. Dei-lhe a devida atenção. Conversamos sobre o processo de criação do romance. Sobre os personagens. Sobre as dificuldades e prazer. Ele se aproximou um pouco mais. Consertou a garganta. Fez meio riso e franziu a testa, como quem se prepara para argumentar uma coisa de muita importância. Muito séria.

— Fazer um livro é trabalhoso — disse ele. — Não sei como você consegue. Tem que ser inteligente. Acho que a pessoa já nasce com o dom. Afinal, seu Battista, o que passa pela sua cabeça?

— Imagens — respondi. — Imagens que me parecem reais. Imagens de pessoas e coisas que formam um universo enorme dentro da minha cabeça.

— Sei. Mas, seu romance é realidade ou ficção? É autobiográfico? — ele quis saber.

Desconversei. Juro que desconversei. Desconversei porque, confesso, não sabia o que responder de imediato. Além disso, muitas pessoas me fazem, sempre, as mesmas perguntas: “de que trata seu livro?”. “É um romance?”. “É autobiográfico?”. “É ficção?”… Sempre me apresentam as mesmas curiosidades.

— Não sei responder direito — disse eu. — Mas é um romance.

— Por que? Quer dizer… como assim? Você que não sabe responder direito?

— É! Sabe, há ficção que é pura realidade e há realidade que é verdadeira ficção — respondi a ele, levantando a mão e friccionando a cabeça.

— Unh! — resmungou.

O homem fez um pouco de silêncio. Mas logo depois de alguns segundos continuamos a conversa. Conversamos bastante, enquanto as formigas davam prosseguimento com o seu trabalho. Expliquei ao vizinho sobre as coisas que achava que podia explicar, para satisfazer sua curiosidade. E omiti outras que não seria interessante falar. Até que finalmente ele percebeu que esgotou as perguntas, os assuntos chegaram ao limite e ele deu “tchau”.

— Sucesso com o livro — despediu-se.

Ele virou de costas indo embora e eu voltei-me à atenção anterior. Vi que as formigas já estavam longe, acabando de entrar num orifício entre o chão e o pé do muro. O besouro estava mesmo sucumbindo no “corredor” da morte, enquanto as formigas celebravam a garantia do almoço do dia. Levantei e liguei o computador. No alto da parede, algumas imagens em arte plástica me faziam lembrar de parte da história que, insistentemente, teria de reescrever.

Lembrei-me de quando tive a ideia de escrever o romance. O meu filho Nayron, então com 15 anos, ficava o dia todo barafustando meus rascunhos e lendo trechos de Um pássaro na minha janela. Ele ficava mexendo, tentava dar palpites, fazia anotações nas laterais do papel. Fazia perguntas. Mas sua inquietude de adolescente me deixava atento.

— É tudo muito complicado, pai — disse ele certo dia.

— O quê, filho? O que é muito complicado? — perguntei.

— Esse negócio de criar personagens. Dar personalidade a eles. Não dá para mim, pai — Nayron argumentou, enquanto eu o olhava e imaginava “coisas” sobre sua curiosidade de adolescente.

— Filho — disse eu — ninguém consegue entender a mente de um escritor. É um universo estranho, meio louco, sabe? Uma arte que ninguém sabe decifrar ao certo. Uma loucura que psiquiatra nenhum consegue diagnosticar. O universo de um escritor, filho, nem ele mesmo compreende. Apenas se diverte com a obra da sua criação. Nada mais que isso.

— Entendi — resmungou o garoto, saindo para o quintal num silêncio pouco convencido com a minha resposta.

Nayron é um leitor assíduo. Desde os 10 anos de idade, lê tudo o que é de literatura. Já leu parte da minha biblioteca particular com dedicação. Quando publiquei meu livro A igreja cidadã, ele o leu rapidamente. Fez comparativos e avaliações como gente grande. À medida que ia lendo os originais de Um pássaro na minha janela, tentava interferir na história, arriscava até mudar o rumo da criação. Mas isso não é possível. Os escritores não gostam que mexam na obra da sua criação. As narrativas, as histórias e os personagens são “algo” exclusivo do universo particular de cada autor. Às vezes, dá a impressão de que já estava tudo predestinado. Prontinho no seu universo criacional do escritor de romance.

Nove anos depois, muita coisa aconteceu. Nayron já tem 24 anos e o livro agora que está sendo publicado. As perguntas feitas naquela época ainda são as mesmas de hoje. E me parecem “irrelevantes”. “Seu livro é autobiográfico?”, “é fato real ou ficção?”. Tais perguntas me deixam inquieto e ao mesmo tempo satisfeito.

Lembro-me de uma pessoa que pertencia à mesma empresa onde eu trabalhava. Ao ler os originais, ela ficou quase perturbada. Ligou para amigos meus fazendo perguntas no mínimo esquisitas:

— Ei, você já leu os originais do livro do Battista? Sabe dizer se as cenas que ele descreve ali aconteceram com ele? Há muitos detalhes para ser ficção, você não acha?

Quando tomei conhecimento desse fato, fiquei surpreso. Afinal, o que leva uma pessoa que conhece um autor a fazer esse tipo de pergunta? Perguntas no mínimo curiosas. Devo dizer, então, que Um pássaro na minha janela não é, nem de longe, um romance sobre a minha realidade autobiográfica. Mas, por outro lado, tem tudo a ver com a realidade do mundo em que vivo, do mundo que eu conheço. Por isso preciso explicar três coisas, antes que o leitor mergulhe na leitura: o pássaro, a janela e eu. Ou seja, o personagem injustiçado, o universo de sua prisão existencial e o sujeito que, por trás de tudo, observa cada detalhe para dar sentido às coisas.

O pássaro é o principal personagem desta história romanesca. O pássaro é um sujeito qualquer, punido, com a máxima injustiça, sem nada ter feito. Sem nada dever a ninguém. Ele sofre com as injustiças de um mundo governado pela irracionalidade dos que se dizem racionais. Os homens.

Os homens se dizem racionais, mas agem no mundo como verdadeiros irracionais. E o pássaro, um simples animal silvestre, denuncia essa irracionalidade dos homens porque não suporta mais o fato de ser forçado a mergulhar no submundo da extinção. Seu habitat, rapidamente, está sendo totalmente destruído.

Tudo isso em nome de um capitalismo assassino, de uma justiça transloucada e de uma sociedade que, progressivamente, se afunda numa vida sem sentido. O pássaro tem o seu espaço invadido e sofre com a violência dos homens. Ele, todavia, é um sujeito que tem a coragem de denunciar tudo: a extração clandestina de madeira, a grilagem de terra no nordeste, o suborno envolvendo a polícia do IBAMA e os assassinatos de trabalhadores rurais. Os voos que o pássaro dá possibilitam que ele conheça a realidade do mundo. Um mundo que se projeta cada vez mais nas injustiças que sufocam a vida.

E diante da evolução desse mundo, a figura do pássaro — espremida entre as grades de uma janela — grita para o universo o fato de os homens estarem modificando o planeta. E isso lhe incomoda porque, com a destruição da fauna e da flora, ele é obrigado a invadir um universo totalmente estranho e estreito para esconder-se, fugindo da liberdade e, portanto, da ação assassina do ser humano. Tornou-se, agora, refém do medo e da angústia. Medo da tecnologia, por agredir seu habitat natural. Medo da religião dos homens porque tem sido a fonte de toda espécie de divisão, indiferença, discriminação e ódio. Medo de, em razão da vida transmoderna e suas consequências, não ter mais chances de perpetuar sua espécie. Medo de uma liberdade perigosa que, enfim, o expõe à violência e a todo tipo de injustiça.

O pássaro é o principal personagem desta história romanesca. Um sujeito qualquer! Punido, com a máxima injustiça, sem nada ter feito. Sem nada dever a ninguém. Ele sofre com as injustiças de um mundo governado pela irracionalidade dos que se dizem racionais. Os homens.

Os homens se dizem racionais, mas agem no mundo como verdadeiros irracionais. E o pássaro, um simples animal silvestre, denuncia essa irracionalidade dos homens à vastidão do tempo, tempo cujo espaço de liberdade não se percebe mais. O pássaro resolve denunciar porque não suporta mais o fato de ser forçado a mergulhar no submundo da extinção. Seu habitat, rapidamente, está sendo totalmente destruído. Invadido. Tomado à força.

Tudo isso em nome de um capitalismo assassino, de uma justiça transloucada e de uma sociedade que, progressivamente, se afunda numa vida sem sentido. O pássaro tem o seu espaço invadido e sofre com a violência dos homens. Ele, todavia, é um sujeito que tem a coragem de denunciar tudo: a extração clandestina de madeira, a grilagem de terra no nordeste, o suborno envolvendo a polícia do IBAMA e os assassinatos de trabalhadores rurais. Os voos que o pássaro dá possibilitam que ele conheça a realidade do mundo. Um mundo que se projeta cada vez mais nas injustiças que sufocam a vida.

E diante da evolução desse mundo, a figura do pássaro — espremida entre as grades de uma janela — grita para o universo o fato de os homens estarem modificando o planeta. E isso lhe incomoda porque, com a destruição da fauna e da flora, ele é obrigado a invadir um universo totalmente estranho e estreito para esconder-se, fugindo da liberdade e, portanto, da ação assassina do ser humano. Tornou-se, agora, refém do medo e da angústia. Medo da tecnologia, por agredir seu habitat natural. Medo da religião dos homens porque tem sido a fonte de toda espécie de divisão, indiferença, discriminação e ódio. Medo de, em razão da vida transmoderna e suas consequências, não ter mais chances de perpetuar sua espécie. Medo de uma liberdade perigosa que, enfim, o expõe à violência e a todo tipo de injustiça.

Então a figura do pássaro tem a coragem de denunciar tudo isso e, assim, criar um cenário de pontos e contrapontos. A janela é o esconderijo do pássaro. O lugar mais inusitado onde ele sente um pouco mais de segurança. Onde ele pode enfiar sua cabeça imaginando que, ali, ninguém pode lhe fazer o mal. Finalmente, o eu é um “eu” existencial que vai além da observação do mundo real, mergulhado numa existência, acima de tudo, de controversas e realidades inusitadas.

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Responses

  1. “a janela é o esconderijo do pássaro… mergulhado numa existência acima de tudo..
    Raro escritor Battista: seus escritos nos levam a buscar dentro de nós o ser que muitas vezes dá lugar a um ser duro,muito objetivo que não percebe
    sutilezas… e que se dermos chances a esse ser escondido..ele nos faz deliciar sutilezas até em sonhos…!!!! obrigada por seus escritos..

    • Graça, sua crítica é muito importante para mim. Cada um de nós, individualmente, eu penso, representa um pássaro nesse mundo de humanos bons e maus administradores da existência. Mais maus do que bons.
      Quantas vezes, no silêncio da nossa existencialidade, fazemos perguntas, sem obtermos respostas ou, de outro ângulo, recebemos resposta daquilo que não queríamos saber e nem esperamos. Ou seja, o mundo é feito de contrapontos e de “coisas”. Coisas, muitas vezes, sem sentido e vazias de significado.
      Mas, nessa trajetória de pássaro perdido na imensidão do tempo, da mera esperança, muitas vezes o que colhemos é a desesperança. Desesperança que não semeamos, na condição de pássaro, mas que alguém plantou contra a nossa vontade. É horrível colhermos o amargor que não plantamos, perdermos a doçura que semeamos e engolirmos os espinhos que jamais almejamos. Mas é assim que nos sentimos: um pássaro perdido no tempo, engolindo, goela abaixo, tudo aquilo que plantam contra a perpetuidade da existência.


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