Publicado por: Battista Soarez | março 28, 2011

COMPORTAMENTO E LIDERANÇA

PARANÓICOS NA LIDERANÇA 

Quando a violência assediosa inferniza o espírito de harmonia e paz no ambiente de trabalho e ainda impede a empresa de crescer 

Por  B A T T I S T A   S O A R E Z  

 

Provavelmente, você que lê este artigo já passou por situação como esta sobre a qual vou discorrer. Ao ser admitido como funcionário de uma empresa, de um órgão, de uma instituição qualquer ou até mesmo de uma igreja, não demorou muito para, naquele ambiente, onde deveria ter prazer, ser molestado por alguém que, na posição de chefe, usa seus defeitos de personalidade para atacar. Atacar seus colegas de trabalho. Atacar funcionários recém-admitidos. Atacar qualquer pessoa que esteja igual ou abaixo do seu nível no ambiente de trabalho.

Por vezes, você terminou o expediente e, ao sair, deixou para trás um chefe cordial, brincalhão, descontraído, sorridente e que lhe desejou um bom “bom dia”, uma “boa tarde”, uma “boa noite” ou um “bom final de semana”. Ao retornar no dia seguinte ou na próxima semana encontrou o mesmo chefe, porém incorporado por outro traço de personalidade totalmente adverso e hostil. Ao dar “bom dia”, depara-se, desta vez, com um sujeito mal humorado, grosso, pedante e que sequer respondeu às suas saudações.

A coisa fica pior quando você é do sexo oposto e que, sem explicação nenhuma, ele ou ela resolveu lhe assediar de maneira paranóica e sem controle. De repente, tudo o que você faz é motivo de reprovação e insatisfações. Então você se sente “infernizado” e o ambiente na empresa fica totalmente hostil. Isso, na linguagem jurídica, pode se caracterizar por assédio moral ou assédio sexual, dependendo da situação.

Pessoas, ambientes, pontos de vistas, opiniões, relações, etc. Tudo isto torna o local de trabalho agradável ou detestável; prazeroso ou hostil; lugar de crescimento ou de atraso. Entre grupos, que tipo de relação as pessoas mantém entre si? Entre patrão/empregado; líder/liderado; empreendedor/colaborador; pastor/ovelhas. As relações grupais e/ou sociais, finalmente, são cordiais ou hostis? O trabalho flui harmoniosamente ou deixa de andar por conta destes comportamentos estranhos? Afinal de contas, que tipo de ambiente de trabalho estamos construindo?

QUANDO A LIDERANÇA PARANÓICA DESFECHA EM ASSÉDIO MORAL

Assédio moral é uma espécie de violência moral no trabalho e, na verdade, não é um fenômeno recente. É antigo e existe desde quando inventou-se o trabalho. De forma mais profunda, pode-se dizer que isto se refere a determinada exposição de trabalhadores a situações humilhantes e constrangedoras. Geralmente, essas situações deprimentes contra a pessoa, no ambiente de trabalho, são repetitivas e prolongadas durante a jornada laboral e no exercício de suas funções. Em síntese, “são mais comuns em relações hierárquicas autoritárias e assimétricas, em que predominam condutas negativas, relações desumanas e aéticas de longa duração, de um ou mais chefes dirigida a um ou mais subordinados, desestabilizando a relação da vítima com o ambiente de trabalho e a organização, forçando-o a desistir do emprego”, diz um site especializado no assunto (www.assédiomoral.org).

O site mostra, por conseguinte, que o assédio moral é caracterizado pela degradação deliberada das condições de trabalho em que prevalecem atitudes e condutas negativas dos chefes em relação a seus subordinados. Isso constitui uma experiência subjetiva que acaba acarretando prejuízos práticos e emocionais para o trabalhador e a organização.

Geralmente, a vítima escolhida é isolada do grupo sem explicações. E, então, passa a ser hostilizada, ridicularizada, inferiorizada, culpabilizada e desacreditada diante dos pares. “Estes — diz ainda o site — por medo do desemprego e a vergonha de serem também humilhados, associado ao estímulo constante à competitividade, rompem os laços afetivos com a vítima e, freqüentemente, reproduzem e reatualizam ações e atos do agressor no ambiente de trabalho, instaurando o pacto da tolerância e do silêncio no coletivo, enquanto a vitima vai gradativamente se desestabilizando e fragilizando, perdendo sua auto-estima.

O site diz quais são as características comuns do assédio moral:

  • repetição sistemática (das atitudes hostis);
  • intencionalidade (forçar o outro a abrir mão do emprego);
  • direcionalidade (uma pessoa do grupo é escolhida como bode expiatório);
  • temporalidade (durante a jornada, por dias, meses e anos);
  • degradação deliberada (das condições de trabalho).

Em qualquer situação, o assédio moral é uma violência psicológica. E sempre causa danos à saúde física e mental da vítima. Danos não somente daquele que é excluído, mas de todo o grupo que testemunha esses atos. Pois bloqueia o espírito coletivo de autonomia, flexibilidade, capacidade, competitividade, criatividade, qualificação e empregabilidade. Finalmente, o assédio moral expõe a pessoa ofendida a um sofrimento perverso. Pois a humilhação repetitiva e de longa duração interfere na vida do trabalhador de modo direto, comprometendo sua identidade, dignidade e relações afetivas e sociais, ocasionando graves danos à saúde física e mental. Isto pode se aprofundar ainda mais e evoluir para a incapacidade laboral, desemprego ou mesmo a morte da vítima. Constitui, pois, um risco invisível, porém concreto, nas relações e condições de trabalho.

QUANDO A LIDERANÇA PARANÓICA DESFECHA EM ASSÉDIO SEXUAL

Não são poucas as pessoas que passam por situações — e por vezes graves — de assédio sexual, isto é, uma espécie de coerção de caráter sexual praticada, geralmente, por uma pessoa de posição hierárquica superior a outra pessoa ou a um subordinado. Em alguns casos, o assédio é praticado pelo empregador, gerente ou chefe sobre o empregado ou a empregada. Mas nem sempre é assim. Pois pode ocorrer também ao contrário: o empregado em relação ao empregador ou chefe. Mas, normalmente, o assédio sexual ocorre em local de trabalho ou ambiente acadêmico.

A característica comum do assédio sexual é alguma ameaça, insinuação de ameaça ou hostilidade contra o subordinado. Em situações adversas, pode ocorrer uma das três coisas:

  • a pessoa assediada muitas vezes pede para sair do emprego;
  • a pessoa assediada, com medo de perder o emprego, acaba se entregando ao assediador;
  • o assédio sexual evolui para uma situação de abuso sexual.

Os exemplos mais conhecidos — na psicologia do assédio sexual — são as condições impostas sob promessa de promoção de cargo que envolvam favores sexuais, ou a ameaça de demissão caso o empregado recuse as propostas indecentes do agressor.

A vítima do assédio sexual pode ser homem ou mulher. Embora na maioria das vezes a vítima seja a mulher. Ou até mesmo um homossexual. Por outro lado, o agressor pode ser homem ou mulher.

No Brasil, a lei número 10224, de 15 de maio de 2001, estabelece o seguinte: “Constranger alguém com intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente de sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função (…) Pena ­— detenção, de 1 (um) a 2 (dois) anos”.

Muitas vezes, no local de trabalho, o assédio sexual acontece não somente em relação a superior-subordinado mas, também, entre pessoas na mesma posição no ambiente de trabalho. Nesse sentido, a OIT (Organização Internacional do Trabalho) diz que assédio sexual são atos, insinuações, contatos físicos forçados, convites impertinentes — acresça-se cobranças infundadas, acusações sem sentido — desde que apresentem uma destas características:

a) Ser uma condição clara para manter o emprego;

b) Influir nas promoções da carreira do assediado;

c) Prejudicar o rendimento profissional, humilhar, insultar ou intimidar a vítima.

De qualquer maneira, o assédio sexual é uma situação hostilizante. O assediador consegue desestabilizar a vítima de tal forma que pode até adoecê-la com suas atitudes prolongadas de indiferença grave, ameaça, birra e hostilidade. Eu mesmo testemunhei uma situação prolongada, de oito anos, de assédio sexual num ambiente de trabalho. O agressor era uma senhora de mais de 60 anos, contra um rapaz de trinta e poucos anos. A paranóia daquela mulher se caracterizava da seguinte forma: durante semanas, ela ficava o tempo todo indiferente e, às vezes, até meses; de repente, aquela senhora mudava de comportamento com o rapaz e, então, se mostrava cortês, sorridente e ainda lhe oferecia presentes e cargos de confiança na hierarquia da empresa. Outras vezes, aquela senhora perseguia o rapaz com certa mania de controle absurdo sobre a vida dele: acusações de namoro sem sentido; proibições sem nexo que afetava a sua liberdade; acusações sem fundamento de que ele não parava dentro da empresa; sempre dizia que via ele se agarrando com mulheres em ruas, bancos de praça, etc. Até que um dia ela chamou aquele rapaz e resolveu abrir o jogo de suas verdadeiras intenções sexuais. Com a autêntica rejeição da “proposta”, confronto e esclarecimentos de tudo por parte do rapaz, aquela senhora ficou indiferente definitivamente com a vítima, e nunca mais deu sequer um bom dia para ele. E, assim, a hostilidade continuou até que um dia, não suportando mais a situação, ele pediu sua demissão da empresa.

MAS POR QUE ESSAS PESSOAS SÃO PARANÓICAS? POR QUE NÃO FAZEM NADA PARA MUDAR?

O termo paranóia vem do grego antigo παράνοια e quer dizer “loucura”. A palavra, etimologicamente, é formada pelos termos παρα, que significa “fora”, e νοῦς, que quer dizer “mente”. Literalmente, a palavra paranóia quer dizer fora da mente ou fora do controle da mente.

Para os especialistas, trata-se de uma psicose que se caracteriza pelo desenvolvimento de um delírio crônico (de grandeza, de perseguição, de zelo, etc.), lúcido e sistemático, dotado de uma lógica interna própria, não estando associado a alucinações. Desta forma, a maioria dos autores diz que a paranóia não acarreta o deterioramento das funções psíquicas externas à atividade delirante. Estas duas últimas características distinguem a paranóia da esquizofrenia paranóide.

Numa análise mais profunda, pode-se dizer que, no que concerne a um indivíduo paranóico, um sistema delirante amplo e totalmente defasado da realidade às vezes coincide com áreas bem conservadas da personalidade e do funcionamento social do sujeito. Entrementes, a repercussão da paranóia no funcionamento geral do indivíduo é muito variável. Então, neste caso, diz-se que a bizarria dos comportamentos do indivíduo depende do âmbito mais ou menos restrito do sistema delirante. E, assim, a atitude geral do sujeito é coerente com as convicções e suspeitas.

Afirma-se, por exemplo, que quando o delírio é amplo — envolvendo conseqüentemente todos os familiares ou colegas de trabalho num conflito prejudicial ao sujeito — as suas atitudes de defesa e/ou de vingança tornam-se tão inadequadas e graves que conduzem a graves defeitos pessoais e sociais. As características comuns dos delírios, portanto, são:

  • desconfiança (o paranóico desconfia tudo, como, por exemplo, de que sempre estão tramando alguma coisa contra ele);
  • perseguição (atitudes hostis praticadas pelo agressor assediante);
  • ciúme (“a reação complexa a uma ameaça perceptível a uma relação valiosa ou à sua qualidade” — Ayala Pines e Elliot Aronson, psicólogos israelenses);
  • amor (erotomania — isto é: um sentimento, muitas vezes exagerado, por parte do assediante com inclinação, atração, apetite sexual, paixão mórbida, ações de conquista, desejo, libido, etc);
  • megalomania (crença na própria posição e poder superiores).

Mas atenção: simples desconfiança não é paranóia. Principalmente se a desfiança for fundamentada em experiência passada ou em expectativas baseadas na experiência alheia. Além disso, este tipo de psicose pode ocorrer de forma discreta. E a pessoa acomedida pode ser, inclusive, bem ajustada socialmente. Ou, entretanto, pode ser tão grave que o indivíduo se tora incapacitado. Conforme especialistas em psicoterapia, as paranóias podem ser classificadas em três categorias principais: “distúrbio paranóide de personalidade”; “distúrbio delirante paranóide”; e “esquizofrenia paranóide”.

E QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS TIPOS E CAUSAS?

Entre outras causas como abuso de remédios, álcool etc., a paranóia pode também manifestar-se em pessoas com distúrbio paranóide de personalidade. Pessoas desconfiadas e sensitivas, que parecem emocionalmente frias e se melindram facilmente, podem estar sofrendo deste grave problema. Sensações de perseguição atreladas a visões de grandeza são vistas atualmente, pela literatura psicoterapêutica, como um caso de paranóia crônica. O stress, também, é outro motivo que pode ocasionar a paranóia. Especialistas dizem, ainda, que na paranóia partilhada, a chamada folie à deux, o delírio é partilhado pelos dois parceiros. Como, por exemplo, um casal no qual um elemento dominante e paranóide incute as suas falsas crenças no parceiro mais fraco, passivo e sugestionável.

QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS SINTOMAS?

Normalmente, não há sintomas de doença mental. Todavia, ataques de ira, suspeitas e o isolamento social marcam uma crescente modificação no indivíduo. Ocorre uma espécie de alteração no comportamento, levando o indivíduo a ser cada vez mais excêntrico. Na maioria dos casos, pessoas paranóicas dificilmente admitem que são doentes e para receberem algum tratamento é preciso que amigos, familiares etc. se mobilizem o máximo, o que é difícil acontecer. E enquanto isso, elas continuam paranóicas.

COMO PROCEDEM O TRATAMENTO E O PROGNÓSTICO?

Os psicoterapeutas afirmam que, quando a doença aguda é tratada cedo com antipsicóticos, o prognóstico é positivo. Já nos casos crônicos, os delírios estão, em geral, firmemente enraizados, embora o uso de remédio possa levá-los à cura. Entretanto, não é fácil o controle a longo prazo através de uma terapêutica de manutenção quando a pessoa não tem consciência da sua própria doença.



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