Publicado por: Battista Soarez | junho 11, 2010

LITERATURA MÁXIMA

O RETRATO DE DORIAN GREY — Oscar Wilde

UM LIVRO DE LER E DOER

Caros leitores, adoro clássicos da literatura. Por isso, vou abrir um parêntese na sequência da matéria sobre vida a dois na lei da física para falar de literatura. Mas não se trata de uma literatura qualquer. Estou falando da preciosíssima obra O retrato de Dorian Grey, de autoria de Oscar Wilde.

Oscar Wilde reflete a história do seu tempo.

É uma obra magistral, crítica durissíma, sarcástica e de profunda reflexão acerca da arte e da sua função na sociedade. Wilde não mede as palavras na hora de enfatizar a beleza, o amor e as paixões. Tudo conjugado num roteiro com personagens incríveis. Dorian, um jovem de vinte anos e de uma beleza perturbadora, pertence à alta burguesia inglesa. Lord Henry é um cruel e inteligente aristocrata. E Basil é um pintor que se apaixona perdidamente por Dorian. Chega a idolatrá-lo e, além disso, cria um retrato que faz a história romanesca ficar mais picante.

Fiquei encantado com a obra. Principalmente porque Wilde leva o leitor a se aproximar — de maneira tênue, porém límpida — da metafisícia da alma, da literatura transloucada, da magia sutil e, finalmente, da maremota idéia tendenciosa do considerar que o prazer individual e imediato é a finalidade inteligente da vida.

Oscar Wilde constrói a estruturalidade do seu pensamento literário contrapondo todos os rigores dos princípios culturais da sua época, e, por ironia da sacada intelectual, dá a Dorian Grey a sua própria personalidade homossexual, sem deixar de fora do pensamento o seu prazer por artes ocultas. É princípio e fim daquelas coisas que exigem da razão puramente humana repostas rebuscadas no profundo do espírito humano e ao mesmo tempo prazerosas à curiosidade existencial.

O polêmico e depravado autor leva o jovem burguês a uma busca constante de saciar a sua mente aguçada e fantasiosa, uma vez que o seu corpo se mantém belo e impecável. Descortina-se, aqui, a magnitude de uma deliberada apologia à eternidade da juventude. De fato, uma eternidade que só vai terminar com a chegada de uma também eterna maturidade superior.

O retrato de Donian Grey — romance de particular visão acerca da relação perturbadora entre o amor e a arte, a beleza e a inteligência — permite escapar um pensamento de intrigante realidade: “podemos amar qualquer mulher até ao momento em que nos casamos com ela”. Pura verdade, e, ainda, com sabor de supremacia da fragilidade humana.

O autor é um artista apaixonado, mas não consegue concretizar o seu amor. Ele está inspirado. Mas é apenas mais um mortal entre os sacanas da imortalidade, daqueles que conseguem expressar a verdade como ela realmente é. Do pensamento que não reconhece limites e extrapola o impossível das idéias, do ser e da arte. E a isto está condenado. Sim! Condenado por insistir em viver num mundo que não suporta a verdade despida da hipocria dos homens. Wilde era “isto”, era “aquilo” e mais alguma “coisa” a contragosto.

Quem ler O retrato de Dorian Grey vai no mínimo concluir uma coisa: um livro condenado — igualmente seu autor — pela sociedade hipócrita victoriana. Nele Wilde teve a coragem de criticar, com sabedoria e elegância, os vícios que os jovens ricos de boas famílias procuravam nas obscuras ruas de Londres, numa Inglaterra que ainda respirava o autoritarismo da severidade medieval.

A obra, portanto, trata do narcisismo, do modismo e da vuluptoriedade da raça humana. Oscar Wilde é brilhante ao traçar o perfil da sociedade de seu tempo. Vai longe. E descreve a futilidade das coisas, das vaidades humanas e a fulgaz luta pela eterna juventude.

A impressão final da obra não deixa dúvidas. Dorian Grey é um inescrupuloso indivíduo que sofre por estar embevecido em sua própria beleza. Banalidade às claras, Wilde deixa evidente — perante a sociedade da sua época — que beleza é fator de sobrevivênia no meio da humanidade hipócrita e megalomaníaca.

Ler O retrato de Dorian Grey, portanto, é o mesmo que ler a alma do nosso mundo contemporâneo, em que temos uma política que debocha de todos nós, uma religiosidade depravada travestida de moralismo espiritual e muitos Dorian’s Grey’s travestidos de cristãos. Por outro lado, somos perseguidos por uma sociedade exibicionista que mal consegue se arrastar na lama das injustiças mas que, apesar disto e além de tudo, maltrata o próximo com o chicote do despreso e do orgulho idiotado. Assim, Oscar Wilde descreveu os ditames da sociedade do século XIX, mas com a cabeça enfiada dentro da realidade futurista do século XXI, em que o moralismo humano festeja sua degradante efetividade. O mundo, enfim, está mascarado com um falso moralismo. E isso em todos os níveis, em todas as esferas e em todas as estruturas.

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Responses

  1. Shalom!

    Uma alegria conhecer seu blog.O Eterno resplandeça o rosto Dele sobre ti!

    Medite no Sl 36.8,9

    Nele, Pr Marcello

    Visite: http://davarelohim.blogspot.com/

    e veja o texto: Vivendo de modo digno do evangelho.

    P.s>>> Caso vc se identifique com o blog, torne um seguidor. Será uma honra!

    Grato.

    • Pr. Marcello muita gentileza sua. Estou feliz por receber este comentário. Deus o abençoe muito ricamente.
      Pode ter certeza que seu blog já está na lista de meus favoritos.
      Abraço,

      Pr. Battista Soarez


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