Publicado por: Battista Soarez | maio 22, 2010

EVANGELHO É CULTURA?

No Maranhão, evangelho vira cultura para proveito de política partidária.

Evangelho, cultura e política. Que mistura é essa?

Deputada Eliziane Gama, autora da Lei Estadual de Retiros Culturais

Primeiro foi uma lei municipal arquitetada em nível de gabinete de vários políticos interessados em votos no cenário de São Luís. A idéia era tornar o evangelho legalmente “cultura” para beneficiar cantores evangélicos em troca de apoio político. Entre outros, o principal interessado foi o vereador Alencar Gomes (PDC), que, por não saber segurar seu eleitorado, vem sofrendo graves derrotas nas eleições.

Muitos eleitores reclamam que Alencar, após eleito, cria um leque de dificuldade nas relações com seu eleitorado endossado por uma estupidez sem tamanho. “Eu fui muito mal recebida por ele no dia em que dele precisei. Depois de mim, muitas pessoas, inclusive da igreja onde ele congrega, se queixaram da mesma postura dele”, disse uma senhora evangélica membro da igreja Assembléia de Deus, da Cidade Operária, em São Luís do Maranhão.

Agora, a deputada Eliziane Gama conseguiu com que a Assembléia Legislativa do Maranhão aprovasse uma lei estadual que torna os antigos “retiros espirituais” – que ocorrem em período de carnaval – numa espécie de ação cultural. A façanha é fazer com que a Secretaria de Estado da Cultura repasse verbas públicas para igrejas evangélicas realizarem o evento. O valor varia de trinta a duzentos mil reais, dependendo da quantidade de membros.

O problema é que só teve acesso ao dinheiro pastores e líderes evangélicos pertencentes ao grupo de apoio à deputada. Não se tem conhecimento de ninguém, fora do grupo, que tivesse seu projeto aprovado, apesar de muitos terem dado entrada no protocolo da Secretaria.

Afinal, evangelho é cultura? O que é Evangelho? O que é cultura?

Engraçado é que os religiosos evangélicos não aceitam a diversidade cultural dos povos. Tudo é pecaminoso, abominável e errado. Mas querem que o estado aceite as práticas evangélicas (retiros, músicas, etc.) como cultura.

Mas, afinal, o que é o Evangelho de Jesus Cristo? Qual é o verdadeiro sentido deste Evangelho para a humanidade? Você e eu sabemos que a Bíblia contém quatro evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas e João. Qual é a essência destes evangelhos para nós? Por que são chamados de “boas novas”? Quando os cristãos falam do Evangelho de Jesus Cristo, do quê estão falando? Certamente estão falando daquilo que o Filho de Deus trouxe como novidade para a raça humana, e que dá um novo sentido para a vida: perdão de pecados, comunhão e salvação eterna.

E o que é cultura? Em qualquer dicionário da língua portuguesa, você lerá que “cultura” é ato ou efeito ou modo de cultivar. Alguns ainda dizem mais: que se trata do complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições, das manifestações artísticas, intelectuais, etc., transmitidos coletivamente, e típicos de uma sociedade. E que, também, é o conjunto dos conhecimentos adquiridos em determinado campo. Será que o evangelho é tudo isso, é só isso ou é superior a isso?

Será que, em essência, a Verdade sagrada pode ser classificada como cultura? E será, ainda, que a cultura humana, no seu sentido elementar, é digna de ser chamada verdade. O que diriam as festas sincréticas, o pessoal da umbanda, da macumba, do bumba-boi no nordeste, do tambor de minas, do terecô, do tambor de criola, do carnaval e de outras manifestações da mesma estirpe?  Será que o evangelho, de agora por diante, será mais uma dessas culturas? Ou simplesmente deram um jeitinho jurisdicional de o evangelho virar cultura para engordar ainda mais o bolso da corrupção?

Em tese, foi fácil o evangelho se converter em cultura, mas duvido que as culturas queiram se converter ao Evangelho. Na queda de braço mundo e igreja, igreja e mundo, quem venceu quem? Quem de fato perdeu, e quem de fato ganhou? Certamente não foi a igreja que ganhou. Ela foi atraída por iscas temporais e vem caindo na rede da corrupção. E finalmente será traída pelo espírito de manobras temporais.

Evangelho cultural e Evangelho poder de Deus

Mas, por conseguinte, vamos avançar um pouco mais na discussão. O que estão fazendo com o evangelho, numa corrida por vias de interesses outros, força uma certa divisão nada boa no cenário da cristandade. Nesse caso, evangelho cultural é categoricamente secularidade e segue rumo diferente do Evangelho da Cruz, que é poder de Deus para salvação de todo aquele que crê em Jesus.

Jesus disse que o Evangelho do reino é caminhar junto com o próximo

O primeiro caminha pelas veredas espaçosas de barganhas político-econômicas e interesses pessoais. É o evangelho das finanças, não importando se sejam desonestas ou injustas. E os seus adeptos, realmente, precisam de uma “cultura legal” para sobrevivência da “fé patrimonial”. O segundo segue pelo caminho da integridade de caráter, da mutualidade cristã e do compartilhamento fraternal. Neste evangelho não há interesses individualistas; um indivíduo vive em função do outro, muitas vezes abrindo mão dos seus próprios direitos e razões.

As escrituras nos falam do que que é, de fato, este Evangelho! As definições bíblicas dão entender que o verdadeiro Evangelho do Cristo está vivo na sua Igreja (Igreja com “I” maiúsculo) e vai muito mais além do que o “evangelho cultural” mencionado acima. É o evangelho de poder que não se mistura com as iguarias do mundo temporal, apesar de, no mundo, dever ser um evangelho envolvente.

Jesus mesmo disse que a sua Igreja é uma igreja de autonegação e de cruz. Um dia Ele falou a Pedro: “Se alguém quer  vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mateus 16:24). Que isto quer dizer? Que evangelho da cruz é este que é preciso o homem negar-se a si mesmo (e obviamente seus interesses pessoais) se quiser ter vida abundante? Não há dúvida que é o evangelho do Crucificado. E é bom ir logo entendendo que ser cristão crucificado não significa morte de nossas virtudes existenciais. Não é e nunca foi castração intelectual e muito menos das necessidades da vida normal, dadas a nós pelo Criador de todas as coisas. Ser crucificado é simplesmente viver e promover com intensidade o bem que Ele nos deixou. Inclusive em favor do outro.

É claro: pertencer à igreja de Jesus significa muito mais do que comportamento, usos, costumes, conhecimento e convicções religiosas ou afirmações de fé. Ou seja, significa mais que cultura. Significa até mesmo mais do que meramente crer  nEle. Pertencer ao Corpo de Jesus é o legado –- dado e administrado por Ele em nós –- de sermos responsáveis pelo nosso destino diante da vida e da liberdade da graça.

Ver o evangelho de Jesus como pretexto cultural –- só para barganhar dinheiro [do governo humano] destinado a projeto social –- é simplesmente usar o nome do Altíssimo em vão. A gente tem mania de apoiar Jesus porque queremos que Ele nos apóie em nossos projetos políticos e pessoais. E no caso de um cidadão político (deputado, vereador, etc.), é querer se dar bem em razão de uma fé partidária, e não da fé unificada no Corpo de Cristo. A coisa tem funcionado mais ou menos assim: “eu votei em Jesus (aceitando-o), aceitei a sua cultura, agora Ele tem que votar em mim, aceitando e apoiando a minha cultura de projeto pessoal. Ele tem que me abençoar porque eu lhe dei o privilégio de estar do lado dele, entrando para o seu partido”. Puro individualismo e presunção.

É doloroso, mas esta é a verdade demonstrada pelo andar da carruagem. As pessoas entram para a igreja, vivenciam um período de emoção e depois esquecem que ser filho de Deus é se envolver nos princípios verdadeiramente bíblicos. Não é cultura. É, pelo contrário, viver em novidade de vida e habitar na vida abundante, cheio da graça e da verdade, livre da corrupção de qualquer natureza. Entretanto, um cristão secularmente cultural é um cidadão politicamente engavetado na civilidade temporal e dificilmente goza da plenitude do Espírito.

A cultura do Cristo e o “cristo” da cultura

Não sou ignorante a ponto de achar que a Igreja de Jesus não deva observar a cultura das civilizações. Pelo contrário, acho que ela deve ter, sim, conhecimento culturalmente multiforme e, a partir disso, conceber sua mensagem no âmbito de cada contexto cultural –- ou transcultural, para usar um termo técnico da teologia missiológica –- e histórico. Todavia, o que a Igreja não pode é se lambuzar com a cultura político-temporal do mundo e correr o risco, quase sempre inevitável, de cair na malha da corrupção. Digo isto porque foi o que eu vi, dia desses, quando estive em Brasília. Havia pastores por todos os lados – nos corredores dos três poderes – pedindo ajuda de projeto social para suas denominações (mesmo sabendo-se que a maioria das igrejas não tem projeto nenhum).

Muitos cristãos, hoje em dia, estão mergulhando no esfriamento espiritual e fraternal em virtude do jogo de poder, incorporando um certo espírito de competição e divisibilidade. Em nome de um cristianismo cultural esfacelado, buscam uma política de caducidade ética e se revestem de espiritualidade intermitente. E, assim sendo, esses mesmos cristãos perdem a visão macrocósmica da Cultura do Reino, em detrimento da microcósmica “lente-de-contato” do reino da cultura. Isso justifica o porquê da irmã deputada Eliziane Gama correr freneticamente em busca de mecanismos legais para criar uma igreja evangélica cultural. Nesse processo está o perigo: a partir do momento em que a igreja evangélica se transforma em sinagoga cultural, ela exclui indivíduos de outras culturas. Mais uma vez vai entrar no jogo de competição com outras culturas.

Evangelho de cultura coletiva X evangelho de cultura partidária

É grande a diferença. Evangelho de cultura coletiva é aquele que envolve a todos, sem discriminação e é fraternal. Entretanto, evangelho de cultura partidária é aquele evangelho formador de “grupinhos” de cabos eleitorais. A consciência cristã, de há muito, foi traída por uma cultura humana de exclusão, de indiferenças e de desrespeito ao próximo.

O evangelho da ganância exclui o próximo do amor compartilhado

Há pessoas na igreja usando e abusando do princípio da democracia em proveito próprio. A lei de retiros culturais, no Maranhão, celebra um “evangelho” no mínimo estranho. Anda na contramão da democracia quando, na prática, o direito estabelecido para todos –- por via legal, pois aprovaram uma lei no legislativo estadual –- foi negado em razão de um grupo que apóia uma deputada de uma denominação. A deputada Eliziane Gama pertence às Assembléias de Deus no Maranhão. Ela foi eleita para servir aos princípios democráticos. No entanto, legisla para apenas um grupo de evangélico da AD. E ainda somente para aqueles que lhe rendem voto.

Isso é no mínimo estar fora do contexto do evangelho sem mácula de que Jesus falou no Novo Testamento. Agora, pense no que significa não ter mácula. Sabemos que uma mácula é uma mancha ou uma ruptura, um defeito. Que quer dizer isto em se tratando do Evangelho? Trata-se de um formato estranho, algo diferente do elemento original.

Alguém imaginou que evangelho de mácula significa acrescentar uma idéia nova a um conceito pré-existente. A ruptura, dentro deste  sentido, se aplica aos que tentam colocar um melhoramento no evangelho da graça. Indica um modo fácil de se alcançar o céu, ou obter vantagens sem total redenção a Cristo.

Esse é o tipo de evangelho que está sendo pregado em nossos arraiais-igrejas culturais atualmente. As práticas evangélicas têm objetivo de apenas atender às necessidades de algumas pessoas, atropelando os direitos da coletividade. Mas ao ler as palavras de Jesus, em todo o Novo Testamento, vejo que este tipo de evangelho é pecaminoso e patológico. Não funciona. Não atende à obra genuína do evangelho da vida.

É preciso aprender com a cultura da selva

A cultura indígena é exemplo de compartilhamento e respeito ao próximo

Não faz muito tempo, fiz uma reportagem entre os índios da Amazônia para uma revista carioca. E lá pude perceber, dentre outras coisas, que a cultura indígena tem a consciência do compartilhar. Um indiozinho começou a admirar uma pulseira que estava no meu braço. Eu fiquei incomodado, e quis doar o objeto para ele. Mas o guia indígena, ao perceber o meu gesto, disse para eu não fazer isso. “É que se você der para um, tem de dar para todos”, disse-me ele.

Acho que não preciso falar mais nada. Mas vou complementar: cultura democrática de verdade? Está na selva indígena. Que tal o evangelho cultural se fazer substituir pelo evangelho da cultura selvagem? Amém!

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Responses

  1. Bela reportagem. Só gostaria de saber quais as denominações que foram beneficiadas com o projeto”retiro cultural”. Parece que só a igreja de Lisiane foi beneficiada, aliás, o projeto era dela e só para sua igreja, não do povo e para o povo. Lisiane é uma farsa evangélica. Como política a lei que ela entende mesmo é a lei de Gerson, e tudo em nome de Deus.
    Mandou bem nesse texto, segue assim, um abraço.

  2. […] EVANGELHO É CULTURA? maio, 2010 1 comentário […]


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